Falhou. A Inglaterra não subiu ao pódio de uma Copa do Mundo desde 1966 — e Zlatko Dalic não deixou esse dado passar em silêncio. A menos de dez dias do confronto entre Croácia e Inglaterra pelo Grupo L da Copa do Mundo, o técnico croata jogou o peso do histórico sobre a mesa com a frieza de quem tem números do seu lado.
"Eles não ganham uma medalha há 60 anos. Nós temos três. Respeitamos a Inglaterra, mas também sabemos o que conquistamos", afirmou Dalic após o empate por 1 a 1 com a Eslovênia, no último amistoso da Croácia antes do Mundial.
A declaração veio no sábado, 6 de junho, e circulou pela imprensa europeia com a velocidade que só uma provocação bem calibrada consegue. Não foi por acaso. Dalic conhece o peso simbólico do adversário — e sabe exatamente onde cutucar.
O protagonista que não pede licença para falar
Zlatko Dalic chegou ao cargo de selecionador croata em 2017, numa situação de emergência, e transformou aquela equipe numa das histórias mais improváveis do futebol moderno. Sob seu comando, a Croácia foi ao terceiro lugar na Copa de 1998 — conquista que antecede Dalic, mas que ele herdou como referência —, chegou à final da Copa de 2018 na Rússia, eliminando a própria Inglaterra por 2 a 1 na prorrogação da semifinal, e ainda terminou no terceiro lugar no Catar em 2022, superando o Marrocos por 2 a 1. Três pódios em quatro participações como país independente. Uma taxa de aproveitamento que poucos países do mundo conseguem replicar.
A provocação, portanto, não é retórica vazia. Tem lastro estatístico. Enquanto a Croácia construiu esse currículo entre 1998 e 2022, a Inglaterra disputou sete Copas no mesmo período sem subir ao pódio nenhuma vez. O único título inglês continua sendo o de 1966, conquistado em casa, em Wembley — antes mesmo de Dalic nascer.
O coadjuvante que carrega 60 anos de cobrança
A seleção inglesa chega a esta Copa do Mundo com o elenco mais qualificado das últimas décadas e sob o comando de Thomas Tuchel, que assumiu o cargo após a demissão de Gareth Southgate em 2024. O próprio Dalic reconheceu a força do adversário, classificando a Inglaterra como uma das candidatas ao título — o que torna a provocação ainda mais cirúrgica: ele elogia o presente inglês enquanto aponta a ausência de resultados no passado recente.
A torcida inglesa vive uma pressão que, quem já sentiu o peso de uma cidade inteira vibrando num jogo de Copa — como acontece em Porto Alegre quando o Grêmio ou o Inter jogam partidas decisivas —, entende o que significa. São seis décadas de cobrança acumulada, de "it's coming home" transformado em piada internacional, de gerações que cresceram ouvindo que 1966 foi há muito tempo. Tuchel precisa administrar esse contexto enquanto monta uma equipe competitiva para um grupo que, no papel, parece acessível.
O Grupo L reúne Croácia, Inglaterra, Gana e Panamá. As duas primeiras colocadas avançam às oitavas de final. O duelo entre croatas e ingleses, marcado para 17 de junho, em Dallas, abre a fase de grupos das duas seleções e já funciona como um jogo de seis pontos disfarçado de primeira rodada.
A leitura de conjunto antes de Dallas
O histórico direto entre as seleções em Copas favorece a Croácia de forma contundente. A semifinal de 2018 na Rússia terminou 2 a 1 para os croatas, com gols de Ivan Perišić e Mario Mandžukić — este último, o gol que eliminou a Inglaterra após a seleção abrir 1 a 0. Foi a primeira vez que os ingleses chegavam a uma semifinal de Copa desde 1990. Saíram sem a final, sem o bronze e com a derrota gravada na memória coletiva do país.
Agora, oito anos depois, os dois países se encontram novamente numa Copa do Mundo, desta vez ainda na fase de grupos. Dalic preparou o time com um amistoso de rodagem — o empate 1 a 1 com a Eslovênia no sábado serviu mais como ajuste físico do que como teste tático real. A Inglaterra ainda não divulgou o resultado do seu último amistoso preparatório antes do Mundial.
A declaração de Dalic, registrada pelo portal SportNavo entre as repercussões internacionais da semana, cumpre uma função que vai além da imprensa: ela estabelece uma narrativa psicológica antes do apito inicial. Croácia como equipe de resultados concretos; Inglaterra como potência que ainda busca provar algo. O jogo de 17 de junho, no AT&T Stadium em Dallas, dirá qual dessas narrativas sobrevive à fase de grupos.








