Seis de março de 2025. Foi nessa data que Kaoru Mitoma sentiu a coxa direita ceder durante uma partida pelo Brighton e colocou em xeque o maior projeto coletivo que o futebol japonês já construiu. A lesão muscular que o tirou da convocação final para a Copa do Mundo não é apenas a ausência de um jogador — é a retirada compulsória do principal símbolo de uma geração que aprendeu, nos últimos quatro anos, a olhar para os grandes da Europa sem complexo de inferioridade.

A ferida que Moriyasu recusou deixar aberta

Hajime Moriyasu tem 55 anos, um currículo de ex-meia da seleção japonesa e uma característica que define seu estilo de gestão: ele não dramatiza perdas, ele redistribui responsabilidades. Quando a confirmação da ausência de Mitoma chegou ao staff técnico, o treinador tratou o assunto com a mesma frieza cirúrgica com que costuma montar seus blocos defensivos. Em entrevista à imprensa antes do embarque para os Estados Unidos, Moriyasu foi direto:

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"A evolução desta equipe nos últimos anos é real. Temos jogadores que atuam nos principais campeonatos europeus e que chegam ao torneio com uma das bases mais experientes da história recente do futebol japonês."

A declaração não é retórica vazia. O elenco convocado reúne atletas espalhados pela Premier League, Bundesliga, Serie A e La Liga — uma dispersão geográfica que, paradoxalmente, forjou coesão tática. O Japão de 2026 não depende de um único jogador para criar desequilíbrio; depende de um sistema que Moriyasu passou quatro anos calibrando. Mitoma era a peça mais brilhante desse sistema, mas não era a única engrenagem.

O técnico também não poupou ambição ao falar sobre objetivos. Moriyasu citou explicitamente as vitórias sobre Brasil e Inglaterra em amistosos preparatórios como evidências de que a seleção pode competir em igualdade com qualquer adversário do planeta. A derrota sobre a Inglaterra aconteceu em Wembley — endereço que por décadas funcionou como muro intransponível para seleções asiáticas. Esses resultados mudaram a percepção interna do grupo sobre seus próprios limites.

O peso histórico das oitavas de final e o que muda agora

Há um número que assombra o futebol japonês com a regularidade de um fantasma: quatro. Em quatro oportunidades distintas — França 1998, Alemanha 2006, Brasil 2014 e Qatar 2022 — o Japão chegou ao mata-mata da Copa do Mundo e foi eliminado nas oitavas de final. O padrão é tão consistente que virou teto psicológico. Moriyasu sabe disso e foi o primeiro a nomear esse obstáculo publicamente, afirmando que o desafio do grupo é transformar o desempenho recente em resultados dentro do torneio — não apenas demonstrar competitividade em amistosos.

A ferida que Moriyasu recusou deixar aberta Moriyasu mantém sonho do título sem
A ferida que Moriyasu recusou deixar aberta Moriyasu mantém sonho do título sem

A estreia, marcada para o dia 14 de junho em Dallas, coloca o Japão diante da Holanda — cabeça de chave do Grupo F. O confronto carrega uma ironia útil para Moriyasu: o técnico holandês Ronald Koeman admitiu publicamente que Memphis Depay, seu camisa 10, não estará 100% para o jogo de abertura. Memphis se recuperou de um estiramento muscular de grau 2 na coxa direita — a mesma região que derrubou Mitoma — e não passou de 45 minutos em nenhuma das três partidas que disputou desde o retorno. Ou seja, os dois times chegam ao confronto com sua principal referência ofensiva em condição física comprometida ou ausente.

"Precisamos melhorar as coisas, e se eu tiver que destacar algo, é a marcação de gols. Jogamos duas partidas em que marcamos apenas dois gols de pênalti", reconheceu Koeman após a vitória magra por 2 a 1 contra o Uzbequistão em amistoso preparatório.

A confissão do treinador holandês é o tipo de informação que a comissão técnica japonesa certamente já incorporou ao planejamento para Dallas. O Japão de Moriyasu é um time que pressiona alto, recupera bolas em zonas adiantadas e transita com velocidade — exatamente o perfil que expõe equipes com dificuldades de construção ofensiva.

Quem ocupa o espaço de Mitoma no mapa tático japonês

A questão concreta é: quem joga na ponta esquerda? Mitoma era insubstituível em termos de qualidade individual — drible curto, velocidade de arranque e capacidade de criar situações de gol a partir do nada. Mas Moriyasu tem opções que, combinadas, podem reproduzir parte dessas funções.

  • Takefusa Kubo (Real Sociedad) — criatividade entre linhas, capaz de atuar aberto ou centralizado
  • Ritsu Doan (SC Freiburg) — velocidade e chegada a gol, histórico de gols decisivos em Copas
  • Junya Ito (Reims) — mobilidade e capacidade de criar amplitude pelo corredor

A solução de Moriyasu provavelmente não será nomear um substituto direto, mas redistribuir a carga criativa entre dois ou três jogadores que se alternam nas posições ofensivas. O técnico já utilizou esse modelo em amistosos recentes, e os resultados contra Brasil e Inglaterra sugerem que o sistema funciona mesmo sem Mitoma em campo.

Após a Holanda, o Japão enfrenta a Tunísia e a Suécia para completar a fase de grupos — adversários que, no papel, colocam os japoneses como favoritos a avançar. A aritmética do Grupo F favorece uma classificação, mas Moriyasu sabe que o verdadeiro teste começa no mata-mata. É o mesmo cenário que a seleção japonesa viveu no Qatar em 2022 — quando eliminou Alemanha e Espanha na fase de grupos e caiu nos pênaltis para a Croácia nas oitavas — só que agora a aposta é chegar mais longe com menos estrelas e mais sistema.