Todo mundo sabe que as Copas do Mundo começaram em 1930, com o Uruguai levantando o troféu em Montevidéu. O que poucos param para calcular é o peso acumulado de cada jogo disputado desde então — e que o milésimo deles seria decidido exatamente por duas seleções que, em 1930, nem existiam como potências do futebol mundial: Tunísia e Japão, frente a frente no Estádio BBVA, em Monterrey, no México, às 1h da madrugada do domingo (horário de Brasília), pela segunda rodada do Grupo F da Copa do Mundo de 2026. Esse detalhe, por si só, já conta uma história inteira.
De Montevidéu a Monterrey — 96 anos condensados em um número
A primeira edição do Mundial, realizada em julho de 1930, contou com apenas 13 seleções e 18 partidas. A Fifa sequer tinha um processo de classificação estruturado: os europeus cruzaram o Atlântico de navio. Noventa e seis anos depois, a 23ª edição do torneio reúne 48 seleções — expansão aprovada pelo conselho da entidade e implementada justamente em 2026 — e será a primeira a superar a marca de mil jogos em uma única competição organizada pela entidade.
Até a vitória dos Estados Unidos por 2 a 0 sobre a Austrália, na sexta-feira 19 de junho, a Fifa contabilizava 2.811 gols distribuídos em 993 partidas, com média de 2,83 gols por jogo. Isso significa que, ao longo de quase um século, as Copas produziram menos de três gols por partida em média — número que reflete tanto as grandes goleadas quanto as batalhas táticas travadas a zero. Tunísia x Japão seria o jogo de número 1.000 dessa contagem.
O Brasil permanece como a única seleção a ter disputado todas as 23 edições do torneio, acumulando 115 jogos — apenas dois a mais do que a Alemanha, com 113. A Argentina aparece em terceiro, com 83 partidas. No plano individual, Lionel Messi lidera a lista de jogadores com mais aparições em Copas: 27 partidas, à frente do alemão Lothar Matthäus (25) e de Miroslav Klose (24). No quesito gols por seleção, a briga histórica entre Brasil e Alemanha chegou a um empate simbólico nesta edição: ambas as equipes acumulavam 238 gols antes de suas respectivas partidas desta rodada — uma disputa que se arrasta edição após edição e que ainda não tem vencedor definitivo.
O que Tunísia e Japão representam neste jogo simbólico
A escolha da história não poderia ser mais representativa da internacionalização do futebol. A Tunísia chegou à Copa de 2026 em crise: foi goleada pela Suécia por 5 a 1 na estreia e demitiu o técnico Sabri Lamouchi — que havia assumido o cargo em janeiro — imediatamente após o resultado. Para o lugar, a federação tunisiana recorreu a Hervé Renard, nome com currículo de Copa: esteve à frente do Marrocos em 2018 e comandou a Arábia Saudita em 2022, quando os sauditas venceram a Argentina por 2 a 1 em um dos maiores azarões da história recente do torneio. Renard estava sem clube desde abril, quando foi demitido pelos sauditas.
O atacante Elias Achouri foi direto ao admitir o momento da equipe africana:
"Não tem sido fácil. Não é o que estamos acostumados e não é fácil para nós, mas somos profissionais. É preciso saber dar a volta por cima depois de um fracasso. Decisões foram tomadas. Nós somos jogadores, então temos que focar no campo, e foi isso que já começamos a fazer ontem com o novo treinador."
Do outro lado, o Japão chegou ao milésimo jogo em situação mais confortável. Os Samurais Azuis empataram em 2 a 2 com a Holanda na estreia — em um dos confrontos mais movimentados da primeira rodada — e uma vitória sobre a Tunísia praticamente garantiria a classificação às oitavas de final. A geração japonesa atual carrega a memória de duas eliminações dolorosas: em 2018, foram eliminados pela Bélgica; em 2022, pela Croácia nos pênaltis. O técnico Hajime Moriyasu não escondeu o peso do momento e o contexto maior em que o jogo se insere… e aí vem o problema de qualquer seleção que precise carregar simbolismo e resultado ao mesmo tempo.
"Acredito que o futebol é o esporte mais popular do mundo e um dos meios mais poderosos de conectar pessoas ao redor do globo", disse Moriyasu ao site oficial da Fifa. "Nesta Copa do Mundo também, já estamos testemunhando torcedores de diferentes culturas se unindo."
O milésimo jogo como espelho da expansão global do futebol
A Fifa publicou nota em seu site oficial destacando que o milésimo jogo exemplifica precisamente o processo de globalização do esporte. A escolha de Tunísia e Japão para protagonizar a marca é quase poética: nenhum dos dois países estava entre os fundadores do torneio, e juntos representam continentes — África e Ásia — que por décadas foram tratados como coadjuvantes na Copa. Hoje, a edição de 2026 com 48 seleções ampliou as vagas para essas confederações de forma estrutural.
O capitão da Tunísia, o meio-campista Ellyes Skhiri, resumiu com precisão o peso do momento:
"Jogar uma partida de Copa é sempre uma honra e um sonho realizado, mas participar da milésima é muito especial. Faz você apreciar toda a história desta competição: as maiores partidas, os maiores jogadores que escreveram os capítulos mais incríveis na história da Copa."
A arbitragem do jogo histórico ficou a cargo do romeno István Kovács. As prováveis escalações indicam Japão com Zion Suzuki no gol, Doan, Watanabe, Taniguchi e Nakamura na defesa, e ataque com Kubo, Kamada e Ueda — este último o nome mais perigoso ofensivamente. A Tunísia de Renard deve entrar com Skhiri e Hannibal no meio, tentando encontrar alguma organização tática em tempo recorde. Pelo que os resultados da Copa de 2026 já mostraram até aqui, a partida número 1.000 entregou exatamente o que a história prometia: o Japão venceu com gols de Ueda e Kamada, mantendo viva a candidatura japonesa às oitavas e eliminando praticamente a Tunísia do torneio. A terceira rodada do Grupo F, que definirá os classificados, vale marcar na agenda.








