Recorde. Silêncio. Injustiça. Três palavras resumem a trajetória de Fábio com a camisa amarelinha — e nenhuma delas combina entre si da forma como deveriam.
Na semana passada, o goleiro do Fluminense ultrapassou o ex-arqueiro inglês Peter Shilton e se tornou o jogador com mais partidas na história do futebol: 1.391 ao todo, uma marca que provavelmente nenhum atleta alcançará em vida. Shilton, por comparação, defendeu a Inglaterra nas Copas de 1982, 1986 e 1990, participando de 17 jogos em Mundiais. Fábio, com 45 anos e mais jogos que qualquer ser humano que já chutou uma bola, não tem um único minuto em Copa do Mundo para mostrar.
O que Fábio disse depois da vitória sobre o Bolívar
Após a vitória do Fluminense sobre o Bolívar por 2 a 1, pela 5ª rodada da fase de grupos da Copa Libertadores, na última terça-feira no Maracanã, o goleiro foi direto ao ponto quando questionado sobre a convocação de Carlo Ancelotti — que levou Alisson, Ederson e Weverton para a Copa do Mundo, deixando Fábio de fora sem qualquer menção pública.
"Não faço meu melhor pela CBF. Faço meu melhor para Deus, para o Fluminense e para as equipes que tive a oportunidade de jogar, como o Cruzeiro. Minha seleção é eu fazer o meu melhor todo dia, e a minha história fala por si."
A frase tem peso histórico. Nos anos em que defendia o Cruzeiro com distinção — bicampeão brasileiro em 2013 e 2014, campeão da Copa do Brasil em 2017 —, Fábio viu diferentes comissões técnicas ignorarem seu nome nas listas. Sua última convocação oficial data de 2011, sob o comando de Mano Menezes. Desde então, quinze anos de alto nível sem um chamado sequer.
A Copa América de 2004 e o padrão que nunca mudou
Existe um precedente que ilumina com crueldade o padrão repetido ao longo de duas décadas. Em 2004, Fábio integrou o grupo brasileiro que conquistou a Copa América no Peru. Campeão. Mas sem entrar em campo uma única vez. O título ficou; o tempo de jogo, não.
"Fui campeão da Copa América, mas na hora de jogar não me deram oportunidade como deram para outros. Às vezes eu era terceiro goleiro, acho que tinham até medo de me levar como segundo e o primeiro machucar e eu ter que jogar."
A declaração expõe um paradoxo clássico da gestão de elencos: o goleiro considerado bom demais para ser reserva, mas nunca eleito como titular. No levantamento que o SportNavo fez sobre as convocações brasileiras entre 2003 e 2026, Fábio aparece em apenas quatro listas — todas antes de 2012. Nas Copas de 2006, 2010, 2014, 2018, 2022 e agora 2026, seu nome não constou em nenhuma das 26 vagas.
Gerações de goleiros que passaram à frente de Fábio
Rubens. Doni. Júlio César. Victor. Jefferson. Cássio. Weverton. Alisson. Ederson. Bento. São dez goleiros convocados para Copas do Mundo nos últimos vinte anos — alguns deles com currículos sensivelmente menores que o de Fábio no momento das convocações. Weverton, recém-transferido ao Grêmio, foi chamado por Ancelotti e estará no banco em julho. Fábio, eleito pela própria CBF o melhor goleiro do Brasileirão em fevereiro de 2026, ficou de fora.
Preterido.
O próprio goleiro reconhece que critérios extracampo pesaram em diferentes momentos. Sem revelar nomes, deixou no ar um recado sobre a última convocação de Ancelotti: "Dentro de quem não foi convocado e estava na lista... Muita coisa aí que aconteceu que é melhor ficar quieto." A frase sugere que ao menos parte das ausências tem explicação fora das quatro linhas — algo que a história do futebol brasileiro, com seus bastidores bem documentados, raramente desmente.
A paz que vem dos 1.391 jogos, não das convocações
Há algo de Carlos Alberto Torres em Fábio — não na posição, mas na trajetória de quem construiu uma grandeza que transcende qualquer convocação. Torres foi capitão do Brasil em 1970 sem precisar de validação externa; Fábio, de forma diferente, encontrou sua paz na consistência de três décadas.
"A Seleção nunca foi responsabilidade totalmente minha. Eu fiz por onde ao longo desses anos para ser merecedor de vestir aquela camisa. Mas ser convocado já são fatores que dependem do treinador. Tenho paz por isso, porque fiz o meu melhor e me dediquei."
Antes de chegar ao Fluminense, Fábio também acumulou o título de jogador com mais partidas na história da Copa Libertadores — outra marca que dificilmente será superada. Em categorias de base, foi campeão mundial Sub-17 em 1997 e disputou o Mundial Sub-20 em 1999. A formação sempre esteve ali; o reconhecimento da CBF adulta, nunca.
O Fluminense volta a campo pelo Brasileirão neste sábado, diante do Red Bull Bragantino, em Bragança Paulista. Mais um jogo. Mais uma chance de Fábio fazer o que sempre fez — e que nenhuma lista da CBF vai apagar. Vale assistir.









