1.760 quilômetros. Esse é o número que resume o desafio logístico da Seleção Brasileira na fase de grupos da Copa do Mundo de 2026. Não é o placar de uma derrota histórica nem a distância de um centro de treinamento ao estádio — é o total de deslocamento que Carlos Ancelotti e seus jogadores enfrentarão entre os três jogos do Grupo C, disputados em Nova York, Filadélfia e Miami. A cifra, por si só, não assusta. O que assusta é como esse quilometragem se distribui.

Os três estádios do Brasil e o que os separa

A estreia brasileira acontece em 13 de junho, no MetLife Stadium, em East Rutherford, área metropolitana de Nova York, contra Marrocos. Seis dias depois, em 19 de junho, a Seleção enfrenta o Haiti no Lincoln Financial Field, em Filadélfia. O encerramento da fase de grupos se dá em 24 de junho, no Hard Rock Stadium, em Miami, diante da Escócia. Entre Nova York e Filadélfia há apenas 155 km — cerca de duas horas por via terrestre, o que torna aquele deslocamento praticamente irrelevante do ponto de vista do desgaste físico… e aí vem o problema.

ERIC FARIA DESTACA PRESENÇA DE THIAGO SILVA NA PRÉ-LISTA DA COPA DO MUNDO | #shorts | sportv

O trecho seguinte, de Filadélfia a Miami, é de 1.938 km — mais de quatro horas e meia de voo. Trata-se do maior deslocamento individual da Seleção na fase de grupos, realizado com apenas cinco dias de intervalo entre os dois jogos. Para um elenco que terá acabado de disputar uma partida contra o Haiti em 19 de junho, essa viagem representa uma variável de recuperação que nenhum esquema tático resolve na lousa.

O Brasil no ranking das distâncias e o que a história ensina

Na avaliação do SportNavo, o posicionamento intermediário do Brasil no ranking de deslocamentos desta Copa é enganosamente confortável. A média geral entre as 48 seleções participantes chegará a 8.281 km de deslocamento na fase de grupos — número que reflete a dimensão continental do torneio dividido entre EUA, Canadá e México. Com 1.760 km, o Brasil desloca-se menos do que Inglaterra, Espanha, Alemanha, Colômbia e Uruguai, mas mais do que Argentina, França, Portugal, Holanda e México.

A história oferece um paralelo pertinente. Na Copa de 1994, disputada nos próprios Estados Unidos, o Brasil jogou em São Francisco, Stanford e Dallas — cidades separadas por distâncias similares. A comissão técnica de Carlos Alberto Parreira organizou uma logística rígida de voos fretados e adaptação de fuso horário, e a Seleção chegou à final sem qualquer desgaste atribuído às viagens. O título veio nos pênaltis contra a Itália, em Pasadena, em 17 de julho. Naquele torneio, o Brasil marcou 11 gols em sete jogos, com Romário artilheiro com cinco tentos. A gestão do calendário foi parte do planejamento vencedor.

O base camp e a decisão técnica que ainda falta sair

O ponto crítico, até o momento desta publicação, é que a CBF ainda não definiu o base camp da Seleção para a Copa. Rodrigo Caetano, diretor da entidade, garantiu que o processo está em andamento com rigor técnico.

"Vamos ter muita calma e uma tomada de decisão muito técnica em relação a isso, inclusive sobre a questão climática, que nos preocupa. Mas não é apenas isso que vai estar em nossa tomada de decisão", afirmou Caetano em entrevista coletiva.

A escolha do base camp determinará, em grande medida, se o deslocamento para Miami será feito diretamente de Filadélfia ou a partir de um ponto intermediário já estabelecido como base de operações. Miami, com seu calor e umidade característicos de junho, acrescenta outra camada de atenção fisiológica à equação — fator que pesou, por exemplo, na Copa de 1950, quando o Brasil jogou em São Paulo e no Rio de Janeiro sob condições climáticas adversas antes do fatídico confronto com o Uruguai em 16 de julho.

É o mesmo cenário que a Seleção de 1994 viveu ao cruzar o território norte-americano em busca do tetracampeonato — só que agora a aposta é diferente, porque o mundo do futebol profissional evoluiu em recuperação física, mas o relógio biológico dos jogadores continua sendo de 24 horas.