Não, a Copa do Mundo de 2026 não é goleada atrás de goleada porque as seleções fracas chegaram em maior número com o formato de 48 times. Essa explicação é cômoda, mas incompleta. O que aconteceu até aqui é mais interessante — e mais revelador sobre o estado atual do futebol mundial.

No sábado, 21 de junho, o centésimo gol desta edição saiu dos pés de Cody Gakpo, atacante do Liverpool, num 5 a 1 da Holanda sobre a Suécia. Era o 33º jogo da competição. Para encontrar uma Copa que chegou a três dígitos tão depressa, é preciso voltar a 1958, na Suécia — quando um garoto de 17 anos chamado Pelé marcou dois gols na final contra o país-sede e o Brasil ergueu seu primeiro troféu mundial. A única edição mais veloz foi a de 1954, na Suíça, onde bastaram 20 partidas para o mesmo feito, num torneio sem fase de grupos completa e com regras de tempo extra que multiplicavam os gols.

O que Gakpo fez que nenhum atacante conseguia desde 1958

Gakpo não foi apenas o marcador do gol número 100. Ele foi o símbolo de uma Copa que começou a revelar sua identidade ofensiva já na partida inaugural, em 11 de junho, quando o mexicano Julián Quiñones abriu o placar diante da África do Sul na Cidade do México. De lá para cá, a avalanche não parou: Alemanha 7 a 1 sobre Curaçao, em Houston, no dia 14; Canadá 6 a 0 sobre o Catar, em Vancouver, no dia 18. A média atual é de 3,03 gols por jogo — superior aos 2,67 registrados na Copa de 2014, no Brasil, quando foram necessários 36 partidas para chegar ao mesmo marco dos 100.

A comparação com 2014 é inevitável para qualquer brasileiro. Naquele torneio, o mundo assistiu ao 7 a 1 da Alemanha sobre o Brasil como anomalia estatística. Em 2026, as goleadas parecem ser parte da paisagem, não exceção. Se a Copa do Brasil produziu 171 gols em 64 jogos — média de 2,67 — a atual edição norte-americana já projeta ultrapassar 300 gols ao final das 104 partidas previstas.

A bola Trionda e os goleiros que não confiam nos próprios reflexos

Uma das explicações mais concretas para a explosão ofensiva está no equipamento. A bola oficial Adidas 'Trionda' tem surpreendido os arqueiros pela trajetória imprevisível, especialmente em chutes de longa distância. O ex-goleiro inglês Joe Hart, em entrevista à BBC Sport, observou que a bola chegava ao goleiro Jordan Pickford mais rápida do que o esperado em determinados lances. Kylian Mbappé, capitão da França, converteu o gol mais distante do torneio até agora — aproximadamente 27 metros — ao superar o senegalês Edouard Mendy, que parecia calcular uma trajetória que a bola simplesmente não seguiu.

"Provavelmente o jogo mais compacto e taticamente equilibrado que vi até agora foi Holanda contra Japão — e mesmo assim teve quatro gols", disse Ellen White, campeã da Euro 2022 pela Inglaterra, à BBC Sport.

A fala de White aponta para algo que os números confirmam: não se trata apenas de jogos desequilibrados. Na primeira rodada, cinco gols foram marcados de mais de 20 metros. O sueco Yasin Ayari anotou dois deles contra a Tunísia — de 22,7 e 22,2 metros. Connor Metcalfe, da Austrália, acertou de 23,4 metros no mesmo adversário. Ismael Saibari, do Marrocos, marcou de 22,6 metros contra o Brasil. Essa concentração de gols de fora da área em uma única rodada não tem precedente recente.

Menos retranca, mais espaço e um futebol que mudou de filosofia

Há um contexto tático mais amplo que explica a abertura dos jogos. Nas Copas de 1978, na Argentina, e de 1994, nos Estados Unidos, foram necessários 38 partidas para se chegar a 100 gols — épocas em que o futebol europeu ainda era dominado pelo pragmatismo defensivo de Arrigo Sacchi e pelo catenaccio italiano em suas últimas encarnações. Hoje, mesmo seleções de médio porte chegam ao torneio treinadas para pressionar alto e transitar rapidamente, o que gera mais espaços e, consequentemente, mais gols.

A ampliação para 48 seleções criou, ao menos na fase inicial, confrontos com desequilíbrio técnico pronunciado — o que contribui para as goleadas. Mas reduzir tudo a isso seria ignorar que jogos entre seleções de nível equivalente, como Holanda e Japão, também produziram quatro gols. A Copa de 2026 parece refletir uma mudança geracional no futebol: a geração que cresceu vendo Guardiola, Klopp e Ancelotti pregar a posse ativa e a pressão imediata chegou às seleções nacionais como jogadores titulares.

"Os goleiros estão tendo dificuldade para se adaptar à bola", afirmou Joe Hart à BBC Sport, ao observar as trajetórias incomuns da Trionda em lances de longa distância.

Registrado pelo SportNavo ao longo da fase de grupos, o padrão ofensivo desta Copa coloca pressão direta sobre as seleções que ainda apostam no bloco baixo como estratégia principal. Quem joga para não tomar gol, neste torneio, parece estar apostando numa bola que já mudou de direção. A próxima rodada da fase de grupos, com confrontos decisivos para classificação previstos entre segunda e quarta-feira, vai revelar se as seleções eliminadas ou ameaçadas conseguem abrir mão da retranca — ou se preferem sair pela porta dos fundos sem ter arriscado nada.