104 partidas. Esse número, aprovado por unanimidade pelo Conselho da FIFA em Kigali, capital de Ruanda, na última terça-feira, não é apenas uma estatística — é a medida exata da ambição e do caos que a Copa do Mundo de 2026 vai gerar. Eu estava em Dallas quando a notícia chegou, e o calor de maio aqui no Texas parecia combinar com a temperatura do debate que explodiu nas redes, nos bares, nos vestiários. Quarenta e oito seleções. Dezesseis cidades. Três países. Uma conta logística que nenhum torcedor ainda fez direito.
O que a FIFA mudou e por que isso rompe com 32 anos de formato
Desde 1998, o mundo conhecia uma Copa com 32 seleções e 64 jogos. Era uma fórmula que cabia na cabeça: oito grupos de quatro, dois avançam, mata-mata limpo. A Copa do Mundo de 2026 rasga esse roteiro. Serão 12 grupos de quatro seleções cada, com os dois primeiros de cada chave garantindo vaga nas oitavas de final — mais os oito melhores terceiros colocados de toda a fase de grupos. No total, 32 equipes avançam. O número de jogos salta de 64 para 104, um aumento de 62,5% em relação ao formato que vigorou por quase três décadas.
"O Conselho da FIFA aprovou por unanimidade a emenda proposta ao formato de competição da Copa do Mundo da FIFA 2026 de 16 grupos de três para 12 grupos de quatro times, com os dois primeiros e os oito melhores terceiros colocados avançando para as oitavas de final", declarou a entidade em comunicado oficial.
A mudança tem história. Em 2017, a FIFA já havia anunciado a expansão para 48 seleções, mas o formato original previa 16 grupos de três times — um modelo que gerava críticas por estimular combinações de resultados na última rodada. A virada para 12 grupos de quatro é, tecnicamente, uma correção de rota. Grupos com quatro times e duas rodadas sem confronto direto entre os líderes reduzem — mas não eliminam — o risco de conluio.
Três países, 16 cidades e o pesadelo logístico que ninguém quer admitir
Aqui é onde o cinema vira documentário de terror. Os Estados Unidos concentram 11 das 16 cidades-sede: Seattle, São Francisco, Los Angeles, Kansas City, Dallas, Atlanta, Houston, Boston, Filadélfia, Miami e Nova York. O México recebe jogos em Guadalajara, Monterrey e Cidade do México. O Canadá participa com Vancouver e Toronto. São 16 estádios — dez americanos, três mexicanos e dois canadenses — espalhados por um território que, de ponta a ponta, ultrapassa 5.000 quilômetros.
Eu fiz as contas aqui, sentada no aeroporto de Dallas-Fort Worth, um dos mais movimentados do mundo. Um torcedor brasileiro que quisesse acompanhar sua seleção em três jogos da fase de grupos poderia, teoricamente, voar de Los Angeles para Boston e depois para Miami — mais de 7.000 quilômetros de deslocamento interno só na fase de grupos. Seria injusto chamar isso de maratona — mas é uma maratona com escala em três fusos horários. Os ingressos, os hotéis, as conexões: nada nessa Copa vai ser barato ou simples.
A janela total do torneio é de 56 dias. A Copa começa em 8 de junho e a final está marcada para 19 de julho. Com 104 jogos distribuídos nesse período, haverá dias com múltiplas partidas simultâneas em cidades a centenas de quilômetros de distância — uma realidade que exige do torcedor uma decisão que as edições anteriores nunca impuseram com tanta brutalidade: escolher onde estar.
A experiência do torcedor numa Copa que cabe em três países
O barulho da torcida mexicana no Estádio Azteca, na Cidade do México, é algo que você sente no peito antes de ouvir com os ouvidos. Já estive lá, e posso dizer: a tensão no vestiário de qualquer equipe que jogar ali vai ser diferente de qualquer outra Copa. O México recebe jogos em três estádios históricos — Akron, BBVA Bancomer e o lendário Azteca. O Canadá, com o BC Place Stadium e o BMO Field, vai viver sua primeira Copa em casa. Nos EUA, o MetLife Stadium, em Nova York, é o favorito para sediar a final.
Para o torcedor brasileiro, a equação muda de forma concreta. Com 48 seleções, a fase de grupos fica tecnicamente mais acessível — há mais vagas disponíveis e o terceiro colocado ainda pode avançar. Mas a dispersão geográfica transforma o planejamento de viagem num projeto de médio prazo. Grupos de brasileiros já circulam em fóruns e grupos de WhatsApp calculando rotas, comparando preços de voos domésticos nos EUA e pesquisando vistos para o México e o Canadá.
O precedente que ilumina o que está por vir
A Copa de 1994, também nos Estados Unidos, foi um divisor de águas: recorde de público, estádios lotados, futebol num país que mal conhecia o esporte. Aquele Mundial com 24 seleções e 52 jogos provou que os americanos podiam receber uma Copa. Agora, 32 anos depois, o desafio é duas vezes maior — literalmente. São o dobro de seleções e o dobro de jogos, num contexto em que a MLS cresceu, a geração de Pulisic popularizou o futebol nos EUA e o país co-organiza com dois vizinhos de culturas futebolísticas radicalmente distintas.
A FIFA apostou alto. O conselho aprovou o novo formato por unanimidade, e a mensagem é clara: crescimento e receita são a prioridade. Cada jogo adicional é um contrato de transmissão, um patrocinador, um ingresso vendido. Os 40 jogos a mais em relação ao formato anterior representam, nas estimativas do mercado, bilhões de dólares em receita incremental para a entidade.
O torcedor que quiser estar em campo — qualquer campo, em qualquer uma das 16 cidades — tem até 19 de julho de 2026 para planejar cada detalhe. Cinquenta e seis dias de Copa, 104 jogos, 3 países e uma pergunta que não tem resposta fácil: em qual desses 16 estádios você vai estar?








