Quarta-feira, 28 de maio de 2026. O Fluminense precisava de uma vitória no Maracanã para encerrar o sofrimento na fase de grupos da Libertadores — e o 3 a 1 sobre o Deportivo La Guaira, combinado com a derrota do Bolívar para o Independiente Rivadavia, abriu as portas das oitavas de final. No centro do sistema defensivo tricolor, mais uma vez, estava Guga. Não o Guga dos dias difíceis, convocado emergencialmente para apagar incêndios. O Guga que sempre quis existir: o titular incontestável de toda uma temporada.
O preço de cinco pontos perdidos nas duas primeiras rodadas
A classificação veio, mas a trajetória do Fluminense no Grupo C foi mais acidentada do que o necessário. O técnico Luis Zubeldía não poupou palavras ao analisar o percurso: a derrota na Venezuela, um pênalti não marcado que a própria Conmebol reconheceu depois, e um tropeço em casa contra o Independiente Rivadavia — time que, ao final, liderou o grupo com 16 pontos, contra apenas 8 do Fluminense (duas vitórias, dois empates e duas derrotas).
"Por não somarmos três pontos, jogamos com um certo nervosismo aqui contra o Independiente Rivadavia, apesar de termos criado mais chances de gol e de o adversário praticamente não ter criado. Tivemos dois erros pontuais e, nessas duas primeiras rodadas, perdemos cinco pontos, e aí a situação complicou", analisou Zubeldía após a classificação.
Perder cinco pontos nos dois primeiros jogos — contra adversários considerados acessíveis — jogou o Fluminense numa posição de dependência que durou semanas. A passagem pela altitude de La Paz, onde o clube enfrentou o Bolívar, agravou ainda mais o quadro. Zubeldía reconheceu que, em condições normais, a fase deveria ter sido encerrada com muito menos tensão.
Os gols da vitória decisiva sobre o La Guaira foram marcados por Savarino, Hércules e Canobbio — este último numa situação que o próprio treinador destacou: o atacante uruguaio pediu para jogar antes de se apresentar à seleção do Uruguai para a Copa do Mundo, adiando sua viagem para dar ao clube esse jogo importante.
Guga e os 131 jogos que construíram um líder de verdade
Há uma analogia que cabe bem aqui: na música, existem os artistas chamados para abrir os shows nos festivais — aqueles que aparecem quando a multidão ainda está se aquecendo — e os que sobem ao palco no horário nobre. Durante quatro temporadas no Fluminense, Guga construiu uma reputação sólida no primeiro grupo. Aparecia nos momentos decisivos, segurava a pressão, entregava. Mas a posição de headliner, a de quem está no cartaz principal de todos os shows, era o que ainda faltava.
Em 2026, essa lacuna foi preenchida. O lateral-direito vive a maior sequência como titular desde que chegou ao clube, e os 131 jogos com a camisa tricolor construíram uma relação que ganhou nova dimensão com a renovação de contrato até o final de 2029. Não é só o jogador que aparece nas finais — é o jogador que está lá no dia a dia, na terça de fase de grupos, na quarta de Brasileirão, no sábado de clássico estadual.
"Desde que cheguei aqui sempre trabalhei para viver isso, estar sempre jogando e ser um cara importante. Não só nos jogos decisivos e difíceis, mas durante toda a temporada. Dá um alívio e uma satisfação a mais. É cada dia trabalhando para continuar evoluindo e mostrando", afirmou Guga em entrevista ao ge.
A história do lateral com o Fluminense nos grandes momentos é longa e documentada. Foi titular na goleada por 4 a 1 sobre o Flamengo na final do Campeonato Carioca em 2023 — partida que definiu o domínio tricolor naquele ano. Esteve em campo na virada sobre o Internacional no Beira-Rio, na semifinal da Libertadores do mesmo ano, um dos jogos mais dramáticos da era recente do clube. Não começou a decisão continental contra o Boca Juniors como titular, mas quase selou o placar com um chute que explodiu na trave durante a prorrogação. Cada um desses episódios foi uma camada a mais numa formação que agora se traduz em liderança cotidiana.
A regularidade que Zubeldía precisava e Guga entregou
Desde a base, Guga carregou o papel de capitão. Passou por categorias de formação assumindo responsabilidades que a maioria dos jovens evita. No profissional, esse instinto foi temperado pelo convívio com lideranças experientes — e hoje o lateral se apresenta como a voz que aparece nos momentos de pressão dentro do vestiário tricolor.
"Desde a base eu tive esse papel de liderança. Fui capitão na base por onde passei. No profissional, lidei com muitas lideranças no meio do futebol. Sempre procuro absorver esse lado bom dos líderes", disse o jogador.
Para Zubeldía, que montou um sistema defensivo que exige muito dos laterais tanto na marcação quanto na saída de bola, ter Guga em sua melhor versão de regularidade é um ganho tático concreto. O argentino trabalha com uma estrutura que demanda que os laterais sejam previsíveis e confiáveis, não apenas inspirados. A maior sequência como titular na carreira de Guga pelo Fluminense não é um dado isolado — é o reflexo de um jogador que internalizou o que o treinador pede e passou a executar com consistência semana após semana.
A competição interna no setor, que o próprio lateral mencionou como saudável, contribui para manter o nível. Quando há disputa real por posição, a tendência é que o titular eleve seu padrão para não perder a vaga. Em 2026, Guga respondeu a esse estímulo com a melhor fase de sua carreira no clube.
Classificado em segundo lugar no Grupo C com oito pontos, o Fluminense aguarda o sorteio das oitavas de final da Libertadores para conhecer seu adversário na próxima fase — onde o regulamento determina que o segundo colocado enfrenta um líder de outro grupo. O histórico recente do clube no torneio, com a conquista inédita do título em 2023 sobre o Boca Juniors, coloca o Tricolor das Laranjeiras no radar de qualquer adversário sul-americano. Guga estará em campo — está pronto. Falta o sorteio escolher o palco.












