Cento e trinta e três partidas. É esse o número que paira como uma nuvem escura sobre o futebol holandês neste momento. Uma polêmica envolvendo passaportes e dupla nacionalidade ameaça anular uma parcela expressiva da temporada da Eredivisie, o Campeonato Holandês, num escândalo jurídico que mistura burocracia, política migratória e futebol de alto nível de um jeito que ninguém esperava.

A faísca que acendeu o incêndio

Tudo começou em 15 de março, num jogo aparentemente encerrado. O Go Ahead Eagles goleou o NAC Breda por 6 a 0, resultado que parecia inquestionável. Só que, dias depois, no podcast De Derde Helft — que significa, em português, Terceiro Tempo —, o analista Rogier Jacobs lançou uma bomba: o lateral Dean James, do Go Ahead Eagles, poderia estar inelegível para jogar na Holanda. O motivo? Ele optou por defender a seleção da Indonésia, e isso, segundo a legislação holandesa, pode ter feito com que ele perdesse automaticamente a cidadania dos Países Baixos.

A faísca que acendeu o incêndio 133 jogos podem ser anulados por passapo
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"O NAC Breda ainda pode vencer esta partida. Se você for um jogador holandês com raízes indonésias, pode optar por jogar pela Indonésia. Você receberá um passaporte lá, mas o que muitos jogadores e clubes não sabem é que, em alguns casos, você terá que abrir mão da sua nacionalidade holandesa", disse Jacobs no programa.

O analista foi ainda mais longe ao revelar que havia consultado um escritório de advocacia especializado no tema: "Eu falei com um escritório de advocacia especializado nisso e me disseram que isso poderia se tornar algo muito sério", completou. A partir daí, a questão deixou os microfones do podcast e entrou nos tribunais.

O que diz a lei holandesa

A legislação dos Países Baixos é clara e implacável: cidadãos holandeses que adquirem voluntariamente outra nacionalidade perdem automaticamente o passaporte europeu. Sem a cidadania da União Europeia, esses atletas passam a ser tratados como estrangeiros para fins trabalhistas — e as exigências mudam completamente.

A professora de Direito Esportivo Marjan Olfers explicou o impacto direto no futebol em entrevista à ESPN:

"Se um jogador renuncia à sua cidadania holandesa, por assim dizer, ele entra em uma jurisdição diferente. Na verdade, você é então um estrangeiro. Portanto, você precisa ter uma autorização para poder trabalhar aqui."

Pela norma vigente, um jogador sem cidadania europeia precisa cumprir exigências severas: salários mínimos elevados, autorização formal de trabalho e comprovação, por parte do clube, de que não havia atletas europeus disponíveis para a mesma função. Clubes que escalaram jogadores fora dessas condições podem ter suas vitórias anuladas.

A federação no centro da tempestade

Após a repercussão do caso Dean James, o NAC Breda apresentou queixa formal à KNVB, a Federação Holandesa de Futebol. A entidade, num primeiro momento, manteve o resultado de 6 a 0. O NAC não se conformou e recorreu, alegando descumprimento das próprias regras da federação. Agora, o caso está nas mãos da Justiça de Utrecht, e o que vier de lá pode mudar tudo.

Uma decisão favorável ao NAC Breda na esfera judicial abriria precedente imediato: qualquer clube poderia questionar partidas em que adversários escalaram jogadores em situação irregular de cidadania. Segundo levantamento do SportNavo, a KNVB também já abriu investigação paralela sobre o uso de chamados "passaportes esportivos" — documentos emitidos por federações esportivas nacionais que, em alguns países, não necessariamente conferem cidadania plena — e sobre possíveis omissões de mudanças de nacionalidade por parte de jogadores e clubes.

Uma temporada inteira em xeque

O número de 133 partidas potencialmente anuláveis revela a dimensão do problema. Não se trata de um caso isolado: a prática de jogadores de origem imigrante optarem por representar seleções ancestrais é comum no futebol europeu moderno, especialmente na Holanda, país com forte diáspora indonésia, marroquina e surinamesa. Muitos desses atletas e seus clubes simplesmente desconheciam as implicações jurídicas da escolha pela outra seleção.

A análise do SportNavo aponta que o caso ultrapassa as fronteiras do esporte: ele expõe uma tensão real entre as políticas de imigração europeias, a globalização do futebol e a falta de comunicação entre federações esportivas e órgãos governamentais. Outros países da União Europeia observam o desenrolar com atenção — as legislações variam, mas o fenômeno de jogadores com múltiplas identidades nacionais é universal.

A decisão da Justiça de Utrecht não tem data definida, mas o calendário pressiona: a Eredivisie entra na reta final da temporada, com clubes brigando por vagas europeias e para fugir do rebaixamento. Caso o tribunal dê razão ao NAC Breda, a KNVB terá de lidar com uma avalanche de contestações que pode paralisar o campeonato e forçar a repetição ou a reorganização de dezenas de jogos antes do encerramento oficial da competição.