Confesso: eu subestimei o quanto erros de saque poderiam custar caro a este Brasil feminino. Quando Zé Roberto assumiu o comando da seleção neste ciclo, a impressão geral era de que o time tinha fundamentos sólidos o suficiente para não tropeçar nesse tipo de detalhe. Na noite de quinta-feira, 4 de junho, no Ginásio Nilson Nelson, em Brasília, a República Dominicana mostrou que eu estava errado — e que o técnico tem um problema real para resolver antes que os jogos pesem de verdade.

O que o primeiro set contra as dominicanas revelou sobre o Brasil

O placar de 25/23 no primeiro set não traduz a fragilidade que o Brasil apresentou naquele período. As dominicanas não foram superiores tecnicamente — elas simplesmente aproveitaram o que o Brasil entregou de bandeja. Erros de recepção desorganizaram o sistema ofensivo brasileiro, e o saque virou um problema crônico ao longo de toda a partida: ao final dos quatro sets, a seleção acumulou 14 erros no fundamento, um número que em qualquer análise histórica da modalidade representa um volume acima do aceitável para uma equipe candidata ao título.

BRASIL 3 X 1 REPÚBLICA DOMINICANA | MELHORES MOMENTOS | LIGA DAS NAÇÕES DE VÔLEI FEMININO | sportv

Para ter dimensão do que isso significa, basta lembrar que nas campanhas vitoriosas do Brasil nas Olimpíadas de 2008 e 2012, a média de erros de saque por partida raramente ultrapassava oito nas fases decisivas. Não se trata de uma comparação para diminuir a geração atual, mas para situar o torcedor no padrão histórico que essa seleção precisa atingir se quiser ir além do vice-campeonato da VNL 2025, quando perdeu a final justamente para a Itália — adversária que o Brasil enfrenta no domingo, dia 7, às 14h30.

"Time que erra 14 saques contra uma República Dominicana vai errar 20 contra uma Itália. O saque não é detalhe — é a fundação do jogo moderno", observou um comentarista experiente de vôlei durante a transmissão da partida.

Julia Kudiess foi o destaque, mas Tainara carregou o peso ofensivo

Quando o Brasil acordou no segundo set — fechado em 25/18 — e dominou o terceiro com autoridade absoluta de 25/11, ficou claro que o potencial do elenco não está em discussão. A central Julia Kudiess terminou a partida como maior pontuadora com 17 pontos, com destaque especial nos bloqueios, um fundamento que historicamente define confrontos equilibrados. Tainara liderou o volume ofensivo com 20 pontos, e Julia Bergmann contribuiu com 16. O quarto set, encerrado em 25/15, confirmou a superioridade brasileira quando o time funciona dentro do esperado.

A ausência de Gabi, poupada pelo segundo jogo consecutivo por conta de uma lesão na costela sofrida durante a temporada pelo Conegliano, da Itália, também é uma variável que Zé Roberto precisará administrar. Com Ana Cristina substituída por Rosamaria a partir do terceiro set, o técnico testou opções e encontrou respostas positivas — mas o cenário muda de figura quando o adversário é capaz de explorar cada falha de recepção com a precisão que a Itália demonstra há anos.

Conforme apurado em matéria do SportNavo, o Brasil divide a liderança da VNL com a Polônia após duas vitórias em dois jogos na etapa de Brasília, mas o aproveitamento de 100% não deve esconder os ajustes que ainda precisam ser feitos nos fundamentos.

O que Zé Roberto precisa resolver antes do confronto com a Itália

A sequência que o Brasil tem pela frente é um teste progressivo de dificuldade. No sábado, dia 6, às 11h, a Bulgária é o adversário — uma partida que pode servir como laboratório para ajustar exatamente o que falhou contra as dominicanas. O saque precisa ganhar consistência sem perder agressividade, um equilíbrio que separa equipes boas de equipes campeãs. A recepção, que oscilou durante todo o primeiro set, precisa de maior estabilidade para que o sistema ofensivo flua com a velocidade que o vôlei moderno exige.

A Itália, atual campeã olímpica e mundial, não vai perdoar os mesmos 14 erros de saque que as dominicanas souberam aproveitar. O histórico recente entre as duas seleções é pesado para o lado brasileiro: além da final da VNL 2025 perdida, as italianas acumulam vitórias em momentos decisivos que ainda assombram a memória coletiva do vôlei feminino nacional. Zé Roberto sabe disso melhor do que ninguém — e a partida de domingo, às 14h30, no Nilson Nelson, será o primeiro grande termômetro real desta geração na temporada 2026.

14 erros de saque e um set perdido revelam o que Zé Roberto ainda precisa eliminar — e o prazo para fazer isso é de menos de 72 horas.