Confesso: quando li os primeiros despachos sobre o incêndio em Gilgil, meu instinto foi o de enquadrar a tragédia como um acidente isolado, um caso de azar brutal numa madrugada de quarta para quinta-feira. Errei. Quando os números começaram a se organizar — 16 mortas, 79 feridas, 808 alunas dormindo naquele complexo — ficou claro que o que aconteceu na Utumishi Girls Academy, a cerca de 100 quilômetros ao norte de Nairóbi, é a consequência previsível de décadas de falhas estruturais que o país simplesmente não quis encarar.

O que aconteceu na madrugada em Gilgil

O incêndio foi comunicado às 3h30 do horário local — antes da 1h da manhã, portanto, no horário de Brasília — quando a maior parte das alunas dormia no dormitório afetado. As chamas só foram controladas por volta das 3h da manhã, mas, como reconheceu o próprio ministro da Educação do Quênia, Julius Migos Ogamba, a essa altura "o estrago já estava feito". O dormitório foi completamente destruído pelo fogo. Bombeiros e policiais se espalharam pelo campus para combater as chamas e evacuar as demais estudantes, enquanto equipes da Cruz Vermelha do Quênia encaminhavam as feridas aos hospitais da região. Das 79 levadas a unidades de saúde, 71 já receberam alta; oito permaneciam hospitalizadas até o fechamento desta reportagem.

A causa do incêndio segue desconhecida. O chefe da Diretoria de Investigação Criminal (DCI), Mohammed Amin, está supervisionando a investigação preliminar no local, ao lado do ministro do Interior, Kipchumba Murkomen, e do subdiretor de polícia, Eliud Lagat. Um detalhe que não passou despercebido: o ministro do Interior explicou que a escola é afiliada à polícia e que a maioria das alunas são filhas de policiais — o que confere à tragédia uma camada adicional de ironia institucional.

O que aconteceu na madrugada em Gilgil 16 meninas mortas em Gilgil expõem uma f
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"Temos 16 mortes. É um incidente muito lamentável", disse o ministro da Educação, Julius Migos Ogamba, a repórteres, acrescentando que a investigação determinará se a escola cumpria as normas de segurança.

Reparemos no detalhe: enquanto autoridades se movimentavam nos corredores da academia, pais desesperados se aglomeravam no pátio da escola. Mary Chenpndetich, de 38 anos, soube do incêndio às 5h da manhã por uma ligação de uma amiga. Sua filha Joy estava em um dormitório diferente e sobreviveu. Margaret Mwangi viveu angústia semelhante até confirmar que sua filha Salomé, de 15 anos, também estava fora do raio das chamas. "Fiquei tão traumatizada", disse Mwangi à AFP — e nessa frase cabe o horror de centenas de famílias que passaram aquelas horas sem saber.

Um histórico que o Quênia conhece de cor

O incêndio mais mortal em escolas quenianas na história recente ocorreu em 2001, quando 67 estudantes morreram num dormitório no condado de Machakos. Aquele número — 67 vidas — deveria ter sido o ponto de inflexão. Não foi. Nos anos seguintes, incêndios fatais continuaram a eclodir em colégios internos de todo o país, alimentados ora por falhas elétricas, ora por atos deliberados de incêndio criminoso. O padrão se repete com uma regularidade que não admite mais a etiqueta de "tragédia imprevisível".

Um histórico que o Quênia conhece de cor 16 meninas mortas em Gilgil expõem uma
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Os internatos quenianos concentram um número expressivo de alunas do ensino médio, especialmente meninas de famílias de servidores públicos e militares. A infraestrutura de muitos desses complexos envelheceu sem que as exigências de segurança contra incêndio fossem devidamente atualizadas. Saídas de emergência insuficientes, instalações elétricas precárias e ausência de sistemas de sprinklers compõem um cenário que qualquer inspetor reconheceria como crítico — mas que, ao que tudo indica, passou por décadas de revisões protocolares sem consequências práticas.

"Sabemos que este é um momento de muita ansiedade", disse o ministro do Interior, Kipchumba Murkomen, aos repórteres reunidos no pátio da Utumishi Girls Academy.

O que as autoridades prometem desta vez

O Ministério da Educação do Quênia anunciou o envio imediato de uma equipe de investigação à escola e prometeu apoio psicológico às famílias das vítimas. O ministro Ogamba pediu publicamente que se evite qualquer "especulação" antes que os resultados da apuração sejam concluídos — uma postura compreensível do ponto de vista institucional, mas que soa familiar demais para quem acompanhou as respostas governamentais aos incêndios anteriores. A investigação, segundo o próprio ministro, deverá apurar se a escola cumpria as normas vigentes de segurança. Se não cumpria, a pergunta que se impõe é: por que nenhuma fiscalização anterior detectou e corrigiu as irregularidades?

O comandante da polícia regional, Samuel Ndanyi, confirmou o balanço de 16 mortes à rádio Capital FM ainda nas primeiras horas da manhã. As idades das vítimas não foram divulgadas pelas autoridades até o momento, mas o perfil da escola — internato feminino de ensino médio — indica que se trata majoritariamente de adolescentes. Equipes de resgate seguiam revistando o dormitório destruído na manhã desta quinta-feira em busca de qualquer informação adicional.

A Utumishi Girls Academy passa agora por uma perícia que deveria ter sido rotina em todos os internatos quenianos há pelo menos 25 anos — desde que Machakos, em 2001, colocou o país diante de 67 caixões que poderiam ter sido evitados. O número desta quinta-feira é 16. E cada uma dessas 16 meninas tinha um dormitório, uma cama, um nome que os pais no pátio esperavam ouvir vivo.