Se a vitória do México sobre a República Tcheca por 3 a 0, na quarta-feira (24), fosse o único capítulo desta história, seria um dos melhores dias do futebol mexicano em anos — um triunfo que garantiu à El Tri a liderança do Grupo A da Copa do Mundo de 2026. Não foi. Na avenida Lázaro Cárdenas, uma das principais vias turísticas de Cabo San Lucas, no estado de Baja California Sur, a euforia de milhares de pessoas se transformou em pânico quando um veículo avançou sobre a multidão, deixando 17 feridos, um deles em estado grave.

O que os vídeos registrados por testemunhas mostram é uma sequência brutal: o carro já estava na área das comemorações quando foi cercado por torcedores, alguns dos quais chegaram a subir sobre o capô. O motorista acelerou bruscamente, atingiu diversas pessoas antes de perder o controle e colidir com uma placa de sinalização. Após a batida, dezenas de torcedores retiraram o condutor do veículo à força e o agrediram antes da chegada das equipes de segurança. Segundo o jornal mexicano El Universal, o motorista foi socorrido e segue internado em estado crítico.

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A noite em que Cabo San Lucas saiu do controle

A prefeitura de Los Cabos confirmou que milhares de pessoas tomaram as ruas após o apito final. A euforia era compreensível: o resultado colocou o México na ponta do grupo e reacendeu uma esperança que a torcida local alimenta desde que o país foi confirmado como um dos anfitriões do torneio. O prefeito interino de Los Cabos, José Manuel Larumbe, emitiu comunicado ainda na madrugada.

"Queremos expressar nossa mais profunda solidariedade às pessoas afetadas e às suas famílias após os lamentáveis acontecimentos desta noite", afirmou Larumbe, prometendo transparência nas investigações.

A Procuradoria de Baja California Sur abriu investigação formal para apurar as circunstâncias do atropelamento e determinar responsabilidades. As autoridades ainda não divulgaram a identidade do motorista nem a motivação do ato — se foi pânico diante da multidão ou algo deliberado. Os feridos foram encaminhados a hospitais da região, e a área da avenida Lázaro Cárdenas foi isolada para perícia.

Um padrão que se repete em celebrações ao redor do mundo

Tragédias em comemorações esportivas de rua têm uma história longa e dolorosa. Em 2019, após a conquista do título da NBA pelo Toronto Raptors, a cidade canadense registrou um tiroteio durante o desfile da equipe que deixou quatro feridos. Em 2022, na França, torcedores marroquinos que comemoravam a classificação da seleção para as semifinais da Copa do Mundo bloquearam avenidas em Paris e Lyon, gerando confrontos com a polícia que resultaram em dezenas de detidos. No Brasil, atropelamentos em ruas tomadas por torcedores após títulos de Carnaval e campeonatos estaduais já mataram e feriram pessoas em ao menos três estados diferentes na última década.

O denominador comum em todos esses episódios é a mesma ausência: planejamento de segurança específico para o espaço público. Quando dezenas de milhares de pessoas ocupam avenidas sem controle de acesso, sem separação entre pedestres e veículos, sem pontos de isolamento de tráfego, o risco de incidentes não é hipótese — é estatística. A avenida Lázaro Cárdenas, uma via de intenso fluxo turístico e comercial, continuou aberta ao tráfego de veículos enquanto a multidão celebrava. Esse detalhe, aparentemente logístico, custou sangue.

O que falta nos protocolos de segurança em festas de rua

Especialistas em segurança pública e gestão de eventos apontam, de forma recorrente, três falhas estruturais que se repetem nesses episódios. A primeira é a ausência de interdição preventiva de vias: cidades que sediam jogos de Copa do Mundo — ou que estão no raio de influência emocional do torneio — precisam ter planos de contingência ativados automaticamente após resultados de grande impacto. A segunda é a subestimação do volume de pessoas: Cabo San Lucas tem uma população de aproximadamente 350 mil habitantes, mas é um polo turístico que pode dobrar esse número em períodos de alta temporada. A terceira, e talvez a mais difícil de resolver, é a dinâmica imprevisível da multidão em estado de euforia — quando o cercamento de um veículo começa como brincadeira e termina em tragédia em questão de segundos.

Em matéria do SportNavo, publicada anteriormente durante esta Copa, já se discutia a pressão sobre as cidades-sede para além dos estádios. O que aconteceu em Cabo San Lucas — cidade que nem sequer é sede oficial do torneio — demonstra que o problema extravasa os perímetros de segurança montados pela FIFA e pelos governos estaduais. A festa transborda para onde a televisão não filma e a organização não alcança.

"As autoridades fizeram um apelo para que as comemorações relacionadas à Copa do Mundo ocorram de forma pacífica e segura, a fim de evitar novos episódios de violência", informou a prefeitura de Los Cabos em comunicado oficial.

O efeito cascata que a Copa ainda não calculou

O México ainda tem ao menos dois jogos na fase de grupos — e se avançar, o que a liderança do Grupo A torna provável, cada vitória vai repetir o ciclo de comemorações nas ruas de cidades como Guadalajara, Monterrey, Cidade do México e dezenas de municípios menores que não têm estrutura nem protocolo para absorver esse volume de euforia coletiva. O governo federal mexicano e os governos estaduais precisam agir antes do próximo apito final: interdição preventiva de avenidas principais, reforço policial nas áreas de concentração espontânea e comunicação ativa com a população sobre rotas seguras de celebração.

O futebol tem essa capacidade única de parar cidades inteiras. Quando o México marcou o terceiro gol contra a República Tcheca, Cabo San Lucas parou. O problema é que ninguém havia planejado o que fazer com essa parada. Dezessete feridos depois, a resposta não pode mais esperar o próximo jogo.

O México joga a segunda rodada do Grupo A no próximo domingo — e as ruas voltarão a encher.