Três dados mudam o debate energético brasileiro agora: 19 GW de contratos hidrelétricos prestes a vencer, mais de 5 mil locais mapeados para armazenamento reversível e um leilão marcado para 2027. Tudo se explica a partir daí.

O problema que as renováveis criaram para as hidrelétricas

O Brasil tem 175 GW de usinas hidrelétricas reversíveis operando no mundo — e zero em território nacional. A China concentra 27% dessa capacidade global. A Europa responde por 32%. O Brasil, que detém 8% da capacidade instalada de hidrelétricas do planeta e 12% da água doce mundial, não opera uma única unidade do tipo.

O avanço acelerado da geração solar e eólica criou um efeito colateral que o sistema elétrico ainda não sabe absorver. As hidrelétricas convencionais passaram a operar em regime de "liga e desliga" diário para acomodar as oscilações dessas fontes intermitentes. Essa dinâmica desgasta equipamentos, reduz eficiência e pressiona custos. A solução técnica já existe. O nó é regulatório e econômico.

Thiago Prado, presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), foi direto ao ponto durante evento promovido pela Copel sobre armazenamento hidráulico:

"Quanto mais a gente procrastinar a necessidade de rever o desenho do setor elétrico como um todo, mais a gente acaba fazendo extensões e analogias de entendimento e só vai acelerando essas assimetrias e essas alocações de custo."

Como 19 GW de contratos velhos podem virar infraestrutura nova

A EPE identificou aproximadamente 19 GW em concessões hidrelétricas com vencimento ao longo da próxima década. Em vez de simplesmente relicitar esses ativos no modelo tradicional, a ideia é incorporar tecnologia de armazenamento reversível às estruturas já existentes — reservatórios, conexões de transmissão, obras civis já licenciadas.

A lógica é econômica e ambiental ao mesmo tempo. Construir uma usina reversível do zero exige licenciamento ambiental completo, obras de grande porte e décadas de planejamento. Aproveitar infraestrutura já instalada reduz custo, acelera implantação e contorna parte dos entraves ambientais que historicamente travam projetos hidrelétricos no país.

Prado detalhou a estratégia:

"Não simplesmente entregar um contrato novo para explorar outro ativo, mas explorar mais daquele ativo, de uma forma talvez economicamente mais interessante. O contrato de concessão também não revela informação se tem possibilidade de utilizar esse contrato. Uma das atividades que a gente está levando para o ministério é justamente avaliar os 19 GW que têm contratos a vencer nos próximos dez anos."

O estudo do Gesel/UFRJ deu escala ao potencial: mais de 5 mil locais viáveis para implantação de sistemas reversíveis foram identificados a partir do parque hidrelétrico existente. Nenhum desses locais exigiria construção do zero — todos aproveitam estruturas já licenciadas.

Como uma usina reversível funciona como bateria

O princípio é simples. Quando a geração solar ou eólica supera a demanda — o que acontece rotineiramente ao meio-dia em regiões com alta penetração fotovoltaica —, a usina reversível usa esse excedente para bombear água de um reservatório inferior para um superior. Quando a demanda aumenta e a geração cai, a água desce e gera eletricidade como numa hidrelétrica convencional.

Alessandra Torres, presidente da Abrapch (Associação Brasileira de Pequenas Centrais Hidrelétricas e Centrais Geradoras Hidrelétricas), descreve o mecanismo como "a melhor bateria que poderíamos ter". A executiva aponta três vantagens objetivas: vida útil muito longa, riscos operacionais mínimos e capacidade de integração em larga escala com eólica e solar — algo que baterias químicas ainda não conseguem replicar na mesma proporção.

A flexibilidade operacional é outro diferencial. Uma UHR pode absorver excesso de energia quando a produção é alta e liberá-la em minutos quando a demanda sobe. Essa resposta rápida é o que o sistema elétrico brasileiro mais precisa à medida que a participação de renováveis intermitentes cresce.

O calendário regulatório e os nós que ainda precisam ser desatados

Duas resoluções recentes do CNPE (Conselho Nacional de Política Energética) classificaram as usinas reversíveis como empreendimentos estratégicos para o planejamento elétrico. O próximo passo concreto é um leilão específico de armazenamento hidráulico previsto para 2027, com início de operação projetado para 2032 — alinhado ao cronograma do LRCAP de baterias.

A Aneel encerrou em 30 de janeiro a segunda fase de consulta pública sobre sistemas de armazenamento, que inclui tanto baterias químicas quanto reversíveis. A agenda regulatória da agência prevê conclusão da regulamentação no primeiro semestre de 2026. Três pontos ainda precisam ser definidos: acesso à rede de transmissão e distribuição, regulação das outorgas e modelo de remuneração.

A remuneração tende a seguir o modelo de leilões de capacidade, com contratos de longo prazo — potencialmente superiores a décadas —, o que reduziria o custo médio dos investimentos e atrairia capital privado. Entidades como Apine e Abrage defendem que esse modelo recoloca o armazenamento hídrico no centro da estratégia energética nacional.

O Gesel/UFRJ aponta ainda um efeito secundário relevante: a contratação de reversíveis reativaria uma cadeia produtiva hoje ociosa no Brasil, que inclui fabricantes de equipamentos, empresas de engenharia de barragens e fornecedores de turbinas — setor que perdeu encomendas com a paralisia de grandes obras hidrelétricas na última década.

A EPE mapeou 66 GW de potencial em usinas hidrelétricas convencionais até 2055. Com os 5 mil locais identificados pelo Gesel para reversíveis, o horizonte de armazenamento hidráulico brasileiro ainda não tem teto calculado com precisão. O leilão de 2027 será o primeiro teste real de quanto desse potencial o país consegue transformar em contrato assinado.