Dezenove jogos sem marcar. O número fica pairando no ar como uma sentença que ninguém consegue contestar. O Wolverhampton recebe o Fulham neste domingo, 17 de maio, no Molineux, na penúltima rodada da Premier League 2025/26 — e a questão que qualquer analista de dados se faz é: como uma equipe da elite inglesa chegou a um nível ofensivo tão catastrófico?
O que os 22 gols do Wolves revelam sobre a crise ofensiva
Quando o Wolverhampton marca, é quase um acontecimento isolado. Quando o Wolverhampton não marca — e isso aconteceu em 19 das 36 rodadas disputadas —, a equipe simplesmente some do jogo. Esses dois padrões se repetem com uma consistência assustadora ao longo de toda a temporada.
O total de 22 gols em 36 partidas coloca os Wolves numa média de 0,61 gols por jogo, um número que não sustenta nenhuma equipe na Premier League. Para ter uma referência: o próprio Fulham, 11º colocado com 48 pontos, carrega uma produção ofensiva significativamente superior. Em termos de xG (expected goals) — a métrica que estima quantos gols uma equipe deveria marcar com base na qualidade das chances criadas —, o Wolverhampton acumulou um dos valores mais baixos da liga, o que indica que o problema não é só falta de pontaria: é falta de criação.
O xA (expected assists), que mede a qualidade dos passes que geram finalizações, também expõe a pobreza do jogo combinado dos Wolves. No confronto contra o Brighton na rodada anterior, a equipe de Rob Edwards terminou com apenas 28% de posse de bola e 5 finalizações — número irrisório para quem precisava desesperadamente dos três pontos. Os gols de Jack Hinshelwood, Lewis Dunk e Yankuba Minteh construíram um 3 a 0 que, na prática, foi ainda mais tranquilo do que o placar sugere.
O SportNavo mapeou os dados de progressive passes — passes que avançam pelo menos dez metros em direção ao gol adversário — e o Wolverhampton figura entre os três piores da Premier League nessa métrica. Isso significa que, mesmo quando tem a bola, o time raramente consegue progredir de forma organizada. A saída de bola existe; a chegada ao terço final, não.
A defesa que sofreu 78 gols e o que o PPDA explica
Se o ataque é o pior da liga, a defesa acompanha o ritmo. Os 78 gols sofridos em 36 rodadas representam uma média de 2,17 por partida — e o dado mais alarmante está nos últimos cinco jogos desde a pausa internacional: quatro derrotas, 11 gols sofridos, zero marcados. Uma sequência que vai além da crise pontual.
O PPDA (passes permitidos por ação defensiva) é a métrica que melhor traduz a intensidade da pressão de uma equipe. Um PPDA baixo indica que o time pressiona alto e eficientemente; um PPDA alto revela uma equipe passiva, que deixa o adversário circular com facilidade. O Wolverhampton opera com um PPDA elevado — os adversários constroem sem resistência significativa antes de entrar na área.
As defensive actions — soma de interceptações, duelos ganhos e bloqueios por 90 minutos — também caíram ao longo da temporada, o que sugere desgaste físico e psicológico. Com 24 derrotas na liga e apenas 18 pontos, o time passou 35 das 36 rodadas próximo ou dentro da zona de rebaixamento. Essa pressão acumulada tem impacto direto na intensidade defensiva.
Há ainda o problema no gol. José Sá é dúvida, Sam Johnstone está fora por lesão no ombro, e Daniel Bentley assumiu a posição — tendo sofrido sete gols em três aparições. Rob Edwards enfrenta a penúltima rodada sem opções confiáveis entre as traves.
"O Wolves tem mando, mas a crise ofensiva e o rebaixamento confirmado enfraquecem muito sua leitura", avalia análise publicada pelo portal Aposta10, que aponta a vitória do Fulham como "tendência lógica" para o confronto.
O que ainda falta resolver antes da Championship
Quando o Wolverhampton venceu o Liverpool por 2 a 1, o Aston Villa por 2 a 0 e o West Ham por 3 a 0, ficou a dúvida: esse time tem qualidade para competir ou são apenas lampejos isolados? Os números respondem com frieza. Três vitórias em 36 rodadas — todas em casa — não configuram padrão competitivo. Configuram exceção.
Quando o Fulham de Marco Silva precisa de um resultado fora de casa, a tarefa é mais simples do que parece. Os Cottagers têm 48 pontos e ainda alimentam chances matemáticas de alcançar competições europeias, embora estejam cinco pontos atrás do sétimo colocado Brighton com apenas duas rodadas restantes. Venceram apenas quatro dos 18 jogos como visitantes na temporada — mas diante de um adversário já rebaixado, sem goleiro titular definido e com zero gols nos últimos cinco jogos, o contexto é diferente.
"O Fulham é uma equipe que pune erros de transição", destaca análise do Aposta10, reforçando que a desorganização defensiva do Wolves em momentos de pressão tende a abrir espaços para contra-ataques rápidos.
O retrospecto direto também pesa: o Fulham venceu os dois últimos confrontos entre as equipes, com placares de 3 a 0 e 2 a 1. No histórico geral, são 28 vitórias dos Wolves contra 47 — mas esse número pertence a outra era do clube.
O jogo deste domingo, às 11h (horário de Brasília), com transmissão pelo Disney+, é o último do Wolverhampton em casa antes da descida para a Championship. A temporada já está perdida. A questão concreta que fica é outra: com esse nível de produção ofensiva — 22 gols, xG abaixo de qualquer padrão competitivo, progressive passes entre os piores da liga —, o Wolverhampton conseguirá montar um elenco capaz de disputar o acesso de volta à Premier League já em 2026/27, ou o clube corre o risco de repetir o ciclo de estagnação que afundou equipes como Leicester e Burnley após rebaixamentos recentes?









