Vinte e três cartões vermelhos em uma única partida. A final do Campeonato Mineiro disputada no domingo, 8 de março, no Mineirão, terminou com o Cruzeiro campeão por 1 a 0 — gol de Kaio Jorge no segundo tempo —, mas o resultado esportivo foi completamente ofuscado pela maior briga coletiva registrada em uma decisão estadual de primeira divisão no Brasil em décadas. A súmula lavrada pelo árbitro Matheus Delgado Candançan documenta, com precisão clínica, como 23 jogadores de ambos os clubes foram expulsos em um intervalo de minutos, com socos e pontapés trocados dentro e fora do campo.

O que a súmula diz — e o que ela não conseguiu registrar

Aos 51 minutos do segundo tempo, o árbitro Candançan apontou a origem de tudo: o goleiro Everson, do Atlético-MG, recebeu vermelho direto por, nas palavras do próprio documento, "após receber uma falta, derrubar seu adversário, partir para cima e, com brutalidade, atingir com o joelho o rosto do seu adversário de nº 88". O número 88 é Christian Roberto, meia do Cruzeiro. Em seguida, o árbitro também expulsou Christian, descrevendo que o jogador "atingiu com a canela a cabeça de seu adversário, nº 22 [Everson], com uso de força excessiva e intensidade alta, quando a bola já estava em posse do goleiro". A sequência das duas ações foi o estopim.

"Esclareço que no momento em que faria a apresentação dos cartões vermelhos aos atletas nº 88 (Cruzeiro) e nº 22 (Atlético), aos 51 minutos do 2º tempo, houve início à briga generalizada, impossibilitando apresentação dos cartões vermelhos e a realização do protocolo."

O árbitro registrou que a situação fugiu ao controle antes mesmo de ele conseguir exibir fisicamente os cartões. Para as outras 21 expulsões — todas ocorridas após o apito final —, Candançan utilizou a mesma formulação padronizada no documento:

"Expulso por, durante a briga generalizada, após o término da partida, desferir e atingir com socos e pontapés seus adversários, não sendo possível apresentar o cartão vermelho devido ao tumulto."

Pelo Cruzeiro, foram expulsos além de Christian: Cássio, Fagner, Fabrício Bruno, João Marcelo, Villalba, Kauã Prates, Lucas Romero, Matheus Henrique, Walace, Gerson e Kaio Jorge — o mesmo que marcou o gol do título. Do lado atleticano, além de Everson, saíram Gabriel Delfim, Preciado, Lyanco, Ruan Tressoldi, Junior Alonso, Renan Lodi, Alan Franco, Alan Minda, Cassierra e Hulk.

O peso disciplinar de cada expulsão

Do ponto de vista regulamentar, as consequências são estratificadas. Everson e Christian enfrentam enquadramentos distintos dos demais: as descrições de suas condutas — joelho no rosto e canelada na cabeça, respectivamente — podem ser tipificadas pela Federação Mineira de Futebol (FMF) e pelo STJD como violência grave ou agressão intencional, categorias que historicamente resultam em suspensões superiores a seis partidas. Nos regulamentos vigentes das competições organizadas pela CBF, agressão física dolosa pode acarretar suspensão de 6 a 12 jogos, além de multa financeira ao clube.

Para os 21 jogadores enquadrados na cláusula de "briga generalizada", a base punitiva tende a ser menor, mas não trivial. Conforme levantamento do SportNavo com base nos precedentes do STJD nos últimos cinco anos, participantes de tumultos coletivos sem agressão individualmente documentada receberam suspensões entre 2 e 5 partidas em casos similares — como ocorreu após a briga no clássico Athletico-Paranaense x Coritiba em 2022, que resultou em 14 expulsões e suspensões que variaram de 2 a 8 jogos, dependendo do nível de envolvimento identificado nas imagens de TV.

A questão central, neste caso, é a ausência de individualização nas descrições da súmula. Quando o árbitro usa linguagem idêntica para 21 atletas sem detalhar a conduta específica de cada um, o tribunal depende quase integralmente das imagens de televisão e das câmeras de segurança do Mineirão para graduar as punições. Esse processo, historicamente, leva entre 30 e 60 dias para ser concluído.

Desfalques imediatos e impacto nas próximas rodadas

O Cruzeiro conquista o título mineiro, mas herda um problema logístico imediato. Nomes como Cássio, Fagner, Fabrício Bruno, Gerson e Kaio Jorge são titulares ou peças relevantes do elenco comandado para a sequência da temporada, que inclui a fase de grupos da Copa Libertadores e o início do Campeonato Brasileiro. Com a suspensão automática por expulsão em vigor desde o momento da infração, nenhum dos 23 jogadores pode atuar enquanto o processo disciplinar não for concluído — a não ser que a FMF ou o STJD determinem efeito suspensivo, o que depende de recurso formal dos clubes.

Para o Atlético-MG, derrotado em campo e prejudicado nos bastidores, Hulk, Lyanco, Junior Alonso e Renan Lodi figuram entre os expulsos — jogadores com minutos significativos na temporada. A perda simultânea de onze atletas, mesmo que temporária, força os departamentos de futebol de ambas as equipes a acionar reservas e categorias de base em um período de calendário já comprimido.

Precedentes e o sinal institucional que precisa ser dado

A análise do SportNavo aponta que episódios de expulsão em massa — convencionalmente definidos como dez ou mais cartões vermelhos em um único jogo — geram invariavelmente um debate sobre a eficácia preventiva das punições aplicadas pelo sistema disciplinar do futebol brasileiro. O caso mais próximo em gravidade foi a decisão da Copa do Brasil de 2019 entre Athletico e Internacional, com oito expulsões, que resultou em suspensões administradas de forma heterogênea e criticada pela imprensa especializada.

O que a súmula diz — e o que ela não conseguiu registrar 23 expulsões na final d
O que a súmula diz — e o que ela não conseguiu registrar 23 expulsões na final d

Vinte e três expulsões em uma final estadual representam um patamar inédito na história recente do futebol mineiro e provavelmente do futebol nacional. A FMF deverá encaminhar o processo ao STJD, que tem competência para julgar infrações em competições organizadas pela entidade nacional quando há recurso ou quando o regulamento estadual prevê essa delegação. Os clubes têm prazo de 48 horas após a publicação oficial da súmula para apresentar defesa prévia ou solicitar efeito suspensivo das punições. As audiências de julgamento, caso o processo siga o rito ordinário, devem ocorrer entre a segunda e a quarta semana de março — período em que Cruzeiro e Atlético-MG já estarão em campo pelo Brasileirão.