Todo mundo já sabia que o Flamengo dominava o futebol brasileiro nesta década. O que ninguém havia parado para calcular com precisão era o tamanho desse domínio. No último domingo, dia 10 de maio, a vitória por 1 a 0 sobre o Grêmio, pelo Campeonato Brasileiro, entregou o número: 250 triunfos desde o início dos anos 2020 — marca inédita no futebol nacional. A história já estava escrita. Faltava apenas o placar para assiná-la.
O peso de um número que o Palmeiras ainda não alcançou
Duzentos e cinquenta. Quando colocado ao lado dos 241 do Palmeiras — segundo colocado no ranking levantado pelo R10 Score —, a diferença de nove vitórias pode parecer modesta. Mas a semântica do recorde não está na margem: está no fato de que nenhum outro clube brasileiro chegou lá primeiro. O Flamengo cruzou a linha enquanto o Alviverde ainda perseguia o número.
Para se ter a dimensão do abismo quando se olha além do segundo colocado, o Fluminense aparece em terceiro com 199 vitórias, seguido pelo Atlético-MG com 195 e pelo Athletico-PR com 186. A ausência de Vasco e Botafogo no pelotão de frente tem explicação factual: ambos passaram pela Série B no início da década, interrompendo sequências e perdendo rodadas inteiras de acúmulo estatístico. A hegemonia rubro-negra, portanto, não é apenas resultado de boas campanhas — é também consequência de uma continuidade institucional que rivais históricos não conseguiram sustentar.
Em termos de métricas avançadas, o domínio se traduz também no PPDA — sigla para Passes Permitidos por Ação Defensiva, indicador que mede a intensidade da pressão sobre o adversário quanto menor o número, mais agressivo o time na marcação. Clubes que sustentam campanhas longas de vitórias costumam apresentar PPDA consistentemente abaixo de 9,0 ao longo de uma temporada, o que significa que sufocam o rival antes mesmo de o jogo se abrir. O Flamengo das últimas gestões técnicas tem operado exatamente nessa faixa, o que explica resultados como o sobre o Grêmio: controlados, sem glamour, mas eficazes.
O Grêmio como coadjuvante involuntário de uma data histórica
O adversário do recorde não escolhe o papel que vai desempenhar. O Grêmio, que acumula sua própria tradição de seis títulos brasileiros, serviu de palco para a inscrição do 250º triunfo rubro-negro da década. O 1 a 0 no Brasileirão 2026 foi mais do que três pontos: foi o encerramento simbólico de uma primeira metade de temporada que já projeta o Flamengo como candidato natural ao título.
O recorde chega num momento em que o clube lida com ausências sensíveis. Giorgian de Arrascaeta, o camisa 10 uruguaio, segue em recuperação de uma fratura na clavícula direita sofrida no empate por 1 a 1 contra o Estudiantes, no dia 29 de abril. O médico do clube, Fernando Sassaki, atualizou o quadro nesta terça-feira, 12 de maio, em entrevista ao canal oficial do clube:
"Estamos entrando agora no momento de retirada de pontos do atleta Arrascaeta. A evolução dele tem sido muito positiva; o atleta já está sem dor, realizando todo o trabalho na fisioterapia em tempo integral. Isso se deve muito ao comprometimento do atleta, ao cuidado que ele tem consigo mesmo e a toda a estrutura que o Flamengo também fornece nesse momento."
Sassaki ainda acrescentou que uma nova radiografia seria realizada ainda nesta semana, e que os sinais clínicos são encorajadores:
"A expectativa tem sido ótima, principalmente pelos sinais que ele tem demonstrado: uma ferida limpa, o atleta sem dor, realizando todos os movimentos sem nenhuma dificuldade."
A recuperação de Arrascaeta interessa ao Flamengo — e também ao Uruguai, que estreia na Copa do Mundo no dia 15 de julho, diante da Arábia Saudita, pelo Grupo H. O camisa 10 é um dos nove jogadores rubro-negros considerados praticamente certos para o Mundial, ao lado de nomes como Danilo, Lucas Paquetá, Léo Pereira, De La Cruz e Varela.
A Copa do Mundo como cenário paralelo ao domínio no Brasil
O recorde de vitórias não para no campo — ele ressoa nas finanças e na diplomacia do futebol global. Com ao menos nove jogadores praticamente garantidos na Copa do Mundo, o Flamengo também colherá dividendos financeiros durante o período em que o Brasileirão estará paralisado. A FIFA paga 11 mil dólares por dia a cada clube por atleta convocado — o equivalente a aproximadamente R$ 54 mil por jogador, por dia. Com nove representantes no Mundial, o clube receberá cerca de R$ 486 mil diários durante o torneio.
No pior cenário possível — com Brasil, Uruguai, Equador e Colômbia caindo ainda na fase de grupos —, a estimativa é de R$ 1,3 milhão por atleta, totalizando aproximadamente R$ 11 milhões ao Mengão. Caso as seleções avancem, o valor sobe proporcionalmente. É uma compensação concreta pela paralisação do calendário: o Brasileirão entra em recesso após a 18ª rodada, com o último jogo rubro-negro antes da pausa marcado para 30 de maio, contra o Coritiba, no Maracanã. O retorno está previsto para a semana de 22 de julho, quando o Flamengo visita a Chapecoense, em Chapecó.

Antes disso, contudo, há o compromisso desta quinta-feira, dia 14, no Barradão, em Salvador. O Vitória recebe o Flamengo pelo jogo de volta da quinta fase da Copa do Brasil, às 21h30 (horário de Brasília). Na ida, o Rubro-Negro venceu por 2 a 1 no Maracanã e chega com vantagem ao confronto. Uma vitória em Salvador seria o triunfo de número 251 da década — e mais um capítulo de uma narrativa que, ao contrário do que alguns torcedores rivais insistem em acreditar, ainda não dá sinal de que vai encerrar.












