A última vez que uma Copa do Mundo havia quebrado o recorde de público acumulado, Bill Clinton estava na Casa Branca, Romário erguia a taça no Rose Bowl e os Estados Unidos descobriam o futebol pela primeira vez. Trinta e dois anos depois, o mesmo país voltou a receber o torneio — agora dividindo sedes com Canadá e México — e apagou aquela marca de 3,587 milhões de torcedores como se varrisse poeira de um troféu antigo. O recorde foi pulverizado ainda na fase de grupos, quando os duelos entre Equador x Alemanha e Curaçao x Costa do Marfim empurraram o contador acima de 3,605 milhões de pessoas nas arquibancadas.

O momento em que 1994 ficou para trás

A marca de 1994 era considerada quase intocável pelo próprio ambiente do futebol mundial. Aquela edição registrou média de 64 mil torcedores por partida — um número construído sobre 52 jogos disputados em estádios americanos de capacidade generosa. A edição de 2026 chegou com 104 partidas no calendário, o dobro exato, distribuídas por 16 estádios nos três países-sede. A matemática, por si só, já anunciava o que estava por vir.

O Estádio Azteca, maior arena do torneio com capacidade para 80.824 torcedores, foi o epicentro simbólico da quebra do recorde. Os jogos México 2 x 0 África do Sul e Uzbequistão 1 x 3 Colômbia esgotaram cada assento disponível na Cidade do México — os dois maiores públicos individuais da competição até aqui. A demanda por ingressos se comportou como uma maré de verão que sobe sem avisar: antes que os torcedores percebessem, não havia mais onde entrar.

O MetLife Stadium, em Nova Jersey, segundo maior do torneio com 80.663 lugares, também operou consistentemente no limite. Brasil 1 x 1 Marrocos e Noruega 3 x 2 Senegal foram dois dos confrontos que lotaram a arena — o que evidencia que o interesse do público não se restringiu às seleções tradicionais do topo do ranking.

48 seleções como motor de uma engrenagem nova

A decisão da FIFA de ampliar o torneio de 32 para 48 seleções participantes gerou debate técnico intenso antes do início da competição. Críticos apontavam o risco de queda na qualidade dos jogos; defensores argumentavam com o alcance comercial e geográfico ampliado. Os números de público, registrados em reportagem publicada pelo SportNavo, dão razão ao segundo grupo — ao menos neste recorte específico.

O momento em que 1994 ficou para trás 3,6 milhões de torcedores e a Copa 2026
O momento em que 1994 ficou para trás 3,6 milhões de torcedores e a Copa 2026

A lógica é direta: mais seleções significam mais torcidas mobilizadas, mais países com interesse direto no torneio e, consequentemente, mais demanda por ingressos. A presença de seleções como Curaçao, Uzbequistão e África do Sul — que em edições anteriores não teriam se classificado — trouxe novas comunidades de imigrantes e diásporas para os estádios norte-americanos, especialmente nas cidades com grandes populações de origem caribenha e africana.

O movimento tático coletivo dessas novas seleções, quando funciona, lembra uma corrente de rio que encontra um obstáculo e se divide em dois braços igualmente caudalosos — sem perder força, apenas redistribuindo energia. O impacto nos estádios é análogo: o público se ramifica, mas não diminui.

"Os resultados da expansão de 2026 servirão como parâmetro para avaliar os impactos esportivos, comerciais e operacionais de contar com mais participantes", conforme análise publicada pelo Lance!.

O que o recorde revela sobre o futuro do torneio

O sucesso comercial e de público da edição de 2026 já alimenta um debate que vai além deste torneio. Segundo informações do jornal espanhol AS, a FIFA estuda ampliar o número de participantes para 66 seleções em edições futuras. A proposta ganhou força nos bastidores após federações nacionais e a Conmebol se manifestarem favoravelmente à ideia — enxergando na expansão uma forma de incluir países que historicamente ficam de fora do Mundial.

A previsão de lucro recorde nesta edição — impulsionada pela combinação de mais jogos, estádios maiores e maior diversidade de mercados consumidores — tende a tornar esse debate cada vez mais concreto nas reuniões do Conselho da FIFA. A entidade, que já deu um salto de 32 para 48 seleções em um único ciclo, demonstrou apetite por crescimento que dificilmente será revertido diante de números desta magnitude.

48 seleções como motor de uma engrenagem nova 3,6 milhões de torcedores e a Copa
48 seleções como motor de uma engrenagem nova 3,6 milhões de torcedores e a Copa

A média por jogo nesta edição ainda está sendo calculada à medida que as partidas avançam, mas o ritmo aponta para um valor superior aos 64 mil de 1994 — o que tornaria o recorde ainda mais expressivo do que o número absoluto já indica. Com 104 jogos no total e estádios operando consistentemente no limite da capacidade, a tendência é de crescimento progressivo do público acumulado até a final.

"A tendência é que a entidade trate com mais seriedade a possibilidade de uma expansão para 66 países", segundo análise do Lance! sobre os bastidores da FIFA.

A final da Copa do Mundo 2026 está marcada para o dia 19 de julho, no MetLife Stadium, em Nova Jersey — o mesmo estádio que já registrou dois públicos de 80.663 torcedores na fase de grupos. Até lá, o recorde de público acumulado tende a crescer a cada rodada, e a FIFA terá em mãos o argumento mais concreto já produzido para justificar qualquer nova expansão do torneio.