Não é a primeira vez que um torneio internacional enfrenta uma crise de saúde pública nas semanas anteriores ao apito inicial. O que torna o caso da Copa do Mundo de 2026 diferente de tudo que se viu antes é a geometria do problema: os três países que sediam o evento são exatamente os mesmos que fecharam suas fronteiras para viajantes vindos de nações africanas em alerta máximo por Ebola — e uma dessas nações, a República Democrática do Congo, está classificada para o Mundial.
As restrições que os três anfitriões impuseram antes do torneio
Os Estados Unidos foram os primeiros a agir. O governo americano proibiu a entrada de estrangeiros que tenham passado recentemente pela República Democrática do Congo, Uganda ou Sudão do Sul. A medida alcança também portadores de green card que estiveram em qualquer um desses territórios nos 21 dias anteriores à viagem — janela que corresponde ao período máximo de incubação do vírus Ebola, conforme parâmetros estabelecidos pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
O Canadá foi além na formalização: suspendeu por 90 dias a entrada de residentes das três nações africanas citadas, uma medida que, na prática, abrange o período que vai da pré-Copa até o início da fase de grupos. O México, terceiro anfitrião, optou por intensificar os protocolos de triagem sanitária nos aeroportos internacionais, sem decretar bloqueio formal de entrada, mas elevando o nível de escrutínio sobre passageiros procedentes dessas regiões.
Em comunicado conjunto, as autoridades dos três países afirmaram que "a saúde e a segurança" de cidadãos e visitantes são a "maior prioridade". O texto, porém, não detalha quais ações específicas serão adotadas durante o período do Mundial — lacuna que, segundo apuração do SportNavo, já gerou questionamentos formais de ao menos duas federações africanas junto à FIFA.
O que a OMS diz sobre as restrições de viagem
A Organização Mundial da Saúde classificou o surto de Ebola na República Democrática do Congo como uma emergência de saúde pública de abrangência internacional — o grau mais elevado de alerta do organismo. O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, reconheceu a gravidade do quadro, mas divergiu publicamente da estratégia adotada pelos anfitriões.
"O surto pode ser contido", avaliou Tedros Adhanom Ghebreyesus, acrescentando que restrições de viagem "não são muito úteis" como instrumento de combate a epidemias.
A posição da OMS não é nova: o organismo adotou a mesma linha durante os surtos de Ebola de 2014 e 2018, argumentando que bloqueios de fronteira tendem a prejudicar o fluxo de trabalhadores de saúde e suprimentos médicos para as zonas de contenção, sem reduzir de forma significativa o risco de exportação do vírus. A tensão entre o posicionamento técnico da OMS e as decisões soberanas dos países anfitriões é o núcleo do impasse que a FIFA precisará administrar nas próximas semanas.
O paradoxo da seleção congolesa e o impacto sobre torcedores africanos
A República Democrática do Congo está classificada para a Copa do Mundo de 2026 — e jogará seus jogos da fase de grupos em solo americano, canadense ou mexicano, os exatos territórios que acabam de restringir a entrada de cidadãos congoleses. O paradoxo é administrativo e político ao mesmo tempo.
Para os atletas, a situação é tecnicamente gerenciável: delegações esportivas costumam receber tratamento diplomático diferenciado, com protocolos de saúde específicos negociados entre a FIFA e os governos anfitriões. O problema recai sobre os torcedores. Um congolês que comprou ingressos, reservou hospedagem e obteve visto pode ser barrado na imigração americana caso as autoridades identifiquem que ele esteve no Congo nos 21 dias anteriores ao embarque — e não há, até o momento, nenhum mecanismo de exceção humanitária ou esportiva previsto nas medidas anunciadas.
Uganda e Sudão do Sul, os outros dois países citados nas restrições, não se classificaram para o Mundial, mas possuem comunidades de emigrantes numerosas nos EUA, Canadá e México. Torcedores dessas nacionalidades que residem nos países anfitriões e tenham viajado para visitar familiares nos últimos três meses estão sujeitos a complicações na reentrada.
Os cenários que se abrem para a FIFA e os anfitriões até o início do torneio
Há três caminhos possíveis a partir deste ponto. O primeiro é a negociação de protocolos específicos para delegações e torcedores das seleções afetadas, com testagem obrigatória, monitoramento de temperatura e quarentena preventiva em zonas designadas — modelo que guarda semelhanças com as bolhas sanitárias adotadas durante os Jogos Olímpicos de Tóquio em 2021, realizados sob restrições da pandemia de Covid-19.
O segundo cenário é o endurecimento das medidas caso o número de casos de Ebola avance nos próximos 60 dias. O surto atual na República Democrática do Congo já acumula centenas de casos confirmados e mortes suspeitas, e a OMS monitora a velocidade de transmissão em tempo real. Uma piora no quadro epidemiológico daria aos anfitriões base técnica para ampliar as restrições, o que tornaria a participação de torcedores congoleses praticamente inviável.
O terceiro caminho — e o mais improvável do ponto de vista político — seria a FIFA pressionar os governos anfitriões a suspender as medidas para viajantes com vínculo comprovado com o torneio, usando como argumento o precedente olímpico e os compromissos assumidos no caderno de encargos da candidatura. A entidade ainda não se pronunciou publicamente sobre as restrições adotadas pelos três países.
Na manhã de uma quinta-feira de maio, enquanto as seleções europeias treinam e os ingressos para os jogos da fase de grupos já circulam no mercado secundário por valores que chegam a quatro vezes o preço de face, há um torcedor em Kinshasa com passagem comprada e visto carimbado que não sabe se vai conseguir cruzar a fronteira americana. Essa é a imagem mais precisa do que está em jogo.








