Trinta finalizações, doze no alvo, dois gols marcados e uma vitória que quase não veio. O placar de 2 a 1 contra a Chapecoense, no último domingo (26), no Maracanã, retrata com precisão aritmética o dilema que acompanha o Fluminense nesta temporada: o clube produz volume ofensivo acima da média, mas converte com eficiência preocupante. Uma coisa é ter um dos três melhores ataques do Brasileirão — 23 gols marcados, empatado com o Palmeiras e atrás apenas de Flamengo e Botafogo, com 24 cada. Outra coisa, bem diferente, é transformar essa produção em domínio consistente sobre os adversários.

Os números revelam um desequilíbrio sistêmico

A relação entre finalizações e gols é um dos indicadores mais utilizados na análise de desempenho ofensivo contemporâneo. No jogo contra a Chapecoense, o Fluminense finalizou 30 vezes — volume expressivo para qualquer padrão da América do Sul — mas o goleiro Anderson precisou fazer dez defesas, duas delas em chances que poderiam ser classificadas como claras. A taxa de conversão ficou em 6,6%, número que, em contextos de alta competição, indica ineficiência técnica ou inadequação tática no terço final do campo. Conforme levantamento do SportNavo com base nos dados disponíveis da rodada, o índice esperado de gols por finalização para equipes do nível técnico do Fluminense no Brasileirão situaria esse jogo em pelo menos três ou quatro gols marcados.

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O problema não é episódico. Na derrota para o Independiente Rivadavia pela Copa Libertadores, o Tricolor acumulou 21 finalizações, mas apenas duas demandaram intervenção do goleiro adversário — e nenhuma resultou em gol. Somando as participações na Libertadores até aqui, o clube carioca acumula quase 40 tentativas com apenas um gol convertido. Esses dados configuram um padrão, não um acidente.

O que os números não mostram — mas a tática explica

A distinção entre finalização e chance clara é central para entender o fenômeno. Uma equipe pode finalizar trinta vezes por jogo e ainda assim jogar mal se a maioria dessas tentativas parte de posições desfavoráveis, com ângulos fechados ou sob forte marcação. O técnico argentino Zubeldía, que assumiu o comando técnico do Fluminense nesta temporada, herda um sistema ofensivo que privilegia a posse de bola e a circulação em largo, mas que ainda não encontrou o mecanismo capaz de criar superioridade numérica consistente nas zonas de finalização. Nas palavras do próprio clube, divulgadas após o jogo, o entendimento interno é de que há espaço claro para qualificar as últimas ações ofensivas — o que representa um reconhecimento tácito de que o volume não basta.

"Temos que ser mais eficientes. Criamos muitas oportunidades, mas precisamos definir melhor", declarou John Kennedy após a partida contra a Chapecoense, sinalizando consciência do problema dentro do próprio elenco.

John Kennedy e Rodrigo Castillo têm sido os jogadores mais decisivos nos últimos jogos — os dois gols que garantiram os três pontos contra a Chapecoense têm suas digitais. Essa dependência de individualidades para resolver jogos que deveriam ser controlados coletivamente é, em si, um sinal de que a estrutura ofensiva ainda não funciona com autonomia.

O contexto da Libertadores torna o problema ainda mais urgente

Com dois tropeços consecutivos na fase de grupos da Copa Libertadores, o Fluminense enfrenta o Bolívar, em La Paz, em um contexto de pressão elevada. Jogar na altitude boliviana — a capital está a 3.640 metros acima do nível do mar — já representa por si só um desafio fisiológico documentado pela literatura esportiva. Somar a isso uma ineficiência ofensiva crônica é uma equação de risco considerável. A análise do SportNavo indica que, nos jogos fora de casa em competições continentais, o índice de conversão do Fluminense cai para níveis ainda mais preocupantes do que os registrados no Maracanã.

"A altitude é um fator, mas não pode ser desculpa. Temos que criar e converter nossas chances", afirmou Zubeldía em entrevista coletiva, demonstrando consciência de que o problema antecede o adversário e o cenário geográfico.

As soluções disponíveis para o treinador argentino passam por ajustes nas dinâmicas de terceiro homem — aquele jogador que entra na área em segundo momento, após a combinação inicial — e pela qualificação das decisões no um contra um. Estudos sobre eficiência ofensiva no futebol sul-americano, como os publicados regularmente pelo Centro Internacional de Estudos do Esporte (CIES), demonstram que equipes com alta taxa de finalizações e baixa conversão tendem a melhorar quando aumentam a proporção de chutes de dentro da área em relação ao total de tentativas. No jogo contra a Chapecoense, a proporção de finalizações de fora da área foi significativamente alta.

Eficiência como política esportiva, não apenas como ajuste técnico

Há uma dimensão que vai além da prancheta: a ineficiência ofensiva tem custo financeiro e institucional. Clubes que dependem de vitórias convincentes para manter audiência e receitas de bilheteria — o Fluminense registrou média de público acima de 40 mil torcedores no Maracanã em 2024 — precisam oferecer um produto esportivo que justifique o investimento do torcedor. Jogos equilibrados até o apito final, mesmo com vitórias, corroem gradualmente a confiança do público e, consequentemente, as receitas de matchday. A ineficiência no gol não é um problema apenas tático; é um problema de gestão do capital esportivo.

O Fluminense volta a campo pela Libertadores na próxima rodada, diante do Bolívar, em La Paz, com a obrigação de vencer para não comprometer definitivamente sua classificação na fase de grupos. Uma derrota ou empate pode eliminar matematicamente o clube da competição continental ainda na fase preliminar — cenário que representaria o pior resultado do clube na Libertadores nos últimos cinco anos.