3 de março de 2001. Nessa data nasce, em algum ponto do Brasil, um menino que vinte e cinco anos depois calçaria a camisa 97 da Chapecoense e acumularia 32 partidas numa das ligas mais exigentes e esquecidas do futebol brasileiro — a Brasileirão Série B de 2026.
O número da camisa já diz algo. A 97 não é a 10, não é a 8, não é o algarismo que a tradição reserva ao meia que comanda. É o número de quem chegou sem cerimônia, sem fanfarra, sem o tipo de apresentação que as redes sociais transformaram em ritual. Ênio entrou pela porta dos fundos da Chapecoense — e foi ficando.
Se ele for transferido neste mercado
Qualquer olheiro que abrir a planilha desta temporada vai encontrar um meia de 168 cm e 64 kg que jogou 2.250 minutos, marcou 2 gols e distribuiu 3 assistências em 32 partidas. Não são números de artilheiro, mas são números de consistência — e consistência, na Série B, tem valor de mercado diferente do que se imagina. A maioria dos jogadores que disputam essa divisão não chega a 25 jogos por lesão, por oscilação ou por perda de espaço. Ênio chegou a 32.
Se uma equipe da Série A ou um clube do exterior de menor expressão bater à porta da Chapecoense antes do fechamento da janela, o passe de um jogador de 25 anos com esse volume de minutos — e apenas 6 cartões amarelos, sem nenhum vermelho — representa um ativo razoável. O risco, nesse cenário, é o de sempre: o jogador sair antes de atingir o pico que esses números sugerem que está por vir. Decisivo. Ele ainda não foi, de forma sistemática. Mas está perto.
Se permanecer no clube atual
A Chapecoense carrega um peso histórico que poucos clubes brasileiros sustentam com tanta intensidade. O acidente aéreo de novembro de 2016 redefiniu o clube para sempre — não apenas esportivamente, mas simbolicamente. Jogar pela Chape é, para quem compreende esse contexto, vestir uma camisa que pesa mais do que o tecido. E nesse ambiente, construir uma identidade de jogo leva tempo.
Se Ênio permanecer na Série B de 2026 e a Chapecoense conseguir ao menos consolidar sua posição na tabela, o meia tem condições de encerrar a temporada como um dos jogadores mais utilizados do elenco. Com 32 partidas já disputadas e média de 70 minutos por jogo — calculada sobre os 2.250 minutos registrados —, ele está bem acima da linha de corte que separa jogadores de rotação de jogadores de base tática. A permanência, nesse caso, seria a aposta mais silenciosa e provavelmente a mais inteligente.

Se mudar de função tática
Há uma pergunta que os dados desta temporada não respondem diretamente, mas que os números insinuam: Ênio está sendo usado no lugar certo? Um meia de 168 cm e 64 kg com 2 gols e 3 assistências em 32 jogos tem perfil de construção — alguém que toca, que circula, que organiza o jogo pelo meio. Não é o perfil do meia box-to-box que chega na área com frequência, tampouco do segundo atacante que desequilibra.
Perturbou.
Essa palavra resume o que acontece quando um meia de características técnicas é colocado numa função mais física do que deveria. Se a comissão técnica da Chapecoense optar por recalibrar o papel de Ênio — dando a ele mais liberdade para aparecer entre linhas, para ser o pivô de jogadas rápidas em vez do homem de marcação no meio —, os números de participação em gols podem crescer de forma significativa no que resta da temporada. Três assistências em 32 jogos indicam visão de jogo. A questão é se ele está sendo autorizado a usá-la com frequência suficiente.
O cenário mais provável dos três
A realidade do futebol brasileiro na Série B é que poucos jogadores com esse perfil — jovens, regulares, sem grande visibilidade midiática — são transferidos no meio da temporada. O mercado para um meia de 25 anos que atua no interior de Santa Catarina, sem troféus catalogados e sem artigos recentes na imprensa nacional, não está aquecido o suficiente para gerar uma movimentação imediata.

O cenário mais provável é o da permanência com ajuste tático. A Chapecoense tem interesse em manter sua espinha dorsal, e Ênio — com 32 partidas disputadas — é, por definição, parte dessa espinha. Se a comissão técnica for capaz de reposicioná-lo de forma a potencializar sua capacidade de criação, o segundo semestre de 2026 pode ser o período em que ele deixa de ser um nome de rodapé nos boletins da Série B e passa a ser citado como referência de meio-campo na divisão.
Não é uma trajetória glamourosa. Raramente as trajetórias que importam são. O futebol brasileiro produziu gerações de meias que fizeram seu trabalho sem holofote — jogadores que a crônica esportiva reconheceu tarde, quando o ciclo já havia se encerrado. A diferença, no caso de Ênio, é que ele tem 25 anos e uma temporada inteira ainda pela frente.
A próxima rodada da Série B é um bom momento para observar onde ele aparece no campo — e se o espaço que a Chapecoense está dando a ele corresponde ao que os números desta temporada sugerem que ele pode entregar. Vale acompanhar o próximo jogo da Chapecoense para ver se Ênio ocupa o espaço que a temporada dele pede.











