A última vez que uma petição de torcedores sacudiu as estruturas de um clube europeu de elite foi em 2019, quando a saída de Antoine Griezmann do Atlético de Madrid virou mobilização pública e rachadura institucional. Agora, sete anos depois, é Kylian Mbappé quem está no centro de uma tempestade semelhante — só que com números ainda mais expressivos. A petição intitulada "Fora Mbappé" ultrapassou 320 mil assinaturas em plataformas digitais, superando a meta inicial de 200 mil e transformando a insatisfação difusa da torcida merengue em manifesto coletivo.
Como 320 mil assinaturas redefinem o poder da torcida do Real Madrid
O texto que acompanha o abaixo-assinado é direto ao ponto e convoca os madridistas a se posicionarem.
"Madridistas, façam a vossa voz ser ouvida. Se acreditam que é necessária uma mudança, não fiquem em silêncio — assinem esta petição e defendam aquilo que consideram melhor para o futuro do clube."A linguagem não deixa margem para interpretação: há uma fração significativa da torcida que enxerga Mbappé como problema, não como solução. Para contexto, 320 mil assinaturas equivalem a mais do que a capacidade total do Santiago Bernabéu — que comporta 81 mil pessoas — multiplicada por quatro.
A mobilização ganhou força justamente no momento em que o atacante está afastado por lesão. Em 27 de abril, aos 35 minutos do segundo tempo contra o Betis, Mbappé pediu substituição com dores na coxa esquerda. Era sua quinta lesão na temporada 2025/2026 — um número que o manteve fora de dez partidas ao longo do ano. A ausência repetida alimenta a narrativa de fragilidade física que parte da torcida já não tolera com paciência.
Quem sai ganhando enquanto Mbappé perde espaço
Enquanto o camisa 10 treina separado do grupo — e coleciona polêmicas fora de campo, incluindo uma viagem à Itália que irritou bastidores do clube, segundo o jornal espanhol Marca —, Vinicius Jr. consolida uma posição que já era forte e agora se torna hegemônica. O brasileiro conta com apoio explícito do elenco e da comissão técnica, num ambiente descrito como radicalmente diferente do que Mbappé experimenta. A relação pessoal entre os dois atacantes segue boa, mas o contexto institucional os separa.
Vini Jr. — que já era o rosto emocional do clube muito antes de Mbappé desembarcar em Madri — representa agora o polo de estabilidade num vestiário que o Marca descreve como afetado por "comportamentos controversos" do francês. A viagem à Itália aparece como episódio específico de atrito, sem detalhes oficiais divulgados pelo clube, mas com repercussão interna suficiente para chegar à imprensa espanhola.
Os números de Mbappé e o paradoxo de um atacante decisivo que virou problema
O paradoxo central desta história está nos números. Em 100 partidas pelo Real Madrid, Mbappé acumula 85 gols e 11 assistências — marcas que qualquer clube do mundo assinaria sem hesitar. Só nesta temporada, em 41 jogos, foram 41 gols e seis assistências, totalizando 47 participações diretas em gols. Para comparar: esse volume de contribuições ofensivas supera o total combinado de gols e assistências de toda a linha defensiva do Barcelona na La Liga 2025/2026 — uma equipe que lidera o campeonato com folga.

Os números, porém, não convencem a parcela da torcida que assinou a petição. A crítica vai além da estatística — e isso é o que torna a situação mais complexa para a diretoria do clube — e envolve postura, comprometimento e o que se interpreta como distanciamento do espírito coletivo merengue. Cinco lesões em uma temporada criam também a percepção de um atleta que não está disponível quando mais importa.
O efeito cascata até a Copa do Mundo e o que vem pela frente
A crise tem prazo de validade curto — ou deveria ter. A Copa do Mundo começa em pouco mais de um mês, e Mbappé, capitão da seleção francesa, chega ao torneio com a lesão na coxa esquerda como interrogação. A participação do atacante na competição está em risco, o que adiciona uma camada de pressão externa ao drama interno do Real Madrid.
No Campeonato Espanhol, o cenário também não alivia. O Real Madrid soma 77 pontos em 34 jogos e está 11 atrás do líder Barcelona, com apenas quatro rodadas restantes — o título espanhol já escapou das mãos merengues na temporada 2025/2026. A próxima partida do clube, com ou sem Mbappé disponível, será decisiva para definir se o segundo lugar ainda tem alguma disputa real ou se o campeonato já pertence oficialmente ao rival catalão.








