Não, o caos de Avellaneda não foi um problema de policiamento. Essa é a narrativa que circula nas redes sociais argentinas desde a noite de quarta-feira (20), e ela precisa ser desconstruída com precisão. O que ocorreu no Estádio Libertadores de América durante Independiente x Universidad de Chile foi uma falha sistêmica de gestão de risco — e o Regulamento Disciplinar da Conmebol não distingue entre culpa operacional e culpa institucional.
O que realmente aconteceu no Libertadores de América
A partida, válida pelas oitavas de final da Copa Sul-Americana 2026, estava empatada em 1 a 1 quando torcedores do Universidad de Chile iniciaram o lançamento de objetos e projéteis contra a torcida local. A escalada foi rápida: invasão do setor argentino, furto de faixas, arremesso de bombas e incêndio de materiais.
A resposta da torcida do Independiente foi igualmente violenta — os rubro-negros furaram o bloqueio policial e iniciaram uma briga generalizada. O árbitro suspendeu o jogo. Segundo o TyC Sports, 350 torcedores chilenos foram presos. Vítimas foram encaminhadas ao Hospital Fiorito, em Avellaneda, com relatos extraoficiais de casos graves.
"Devido à falta de garantias de segurança do clube local e das autoridades de segurança locais para garantir a continuidade da partida, a partida foi cancelada", informou a Diretoria de Competições e Operações da Conmebol em nota oficial.
A frase "falta de garantias de segurança do clube local" é a chave jurídica do caso. A entidade não atribuiu responsabilidade exclusiva à polícia argentina — ela apontou o Independiente como parte do problema.
A narrativa popular ignora o Manual do Clube da Conmebol
Circula a ideia de que o Universidad de Chile foi o único provocador e que o Independiente é vítima. Os fatos parcialmente sustentam essa leitura — a torcida chilena claramente iniciou a escalada. Mas o regulamento da Conmebol não opera por lógica de "quem começou".
O Manual do Clube da entidade, citado na própria nota oficial, estabelece que o time mandante tem obrigação contratual de garantir a segurança dentro e no entorno do estádio. Quando esse protocolo é acionado e a situação não é remediada, ambos os clubes respondem perante os Órgãos Judiciais. A Conmebol confirmou que o caso será encaminhado ao Comitê Disciplinar.
Como dizem no futebol brasileiro: quem não tem cão caça com gato — e a Conmebol, sem poder prender torcedores, usa o único instrumento que tem: punir os clubes financeiramente e esportivamente.
- Independiente (mandante): responsável por falhar no controle do acesso e na separação das torcidas.
- Universidad de Chile (visitante): responsável pela conduta de sua torcida, que iniciou os ataques.
Ambas as frentes de responsabilidade estão previstas no Artigo 18 do Código Disciplinar da Conmebol, que trata de "comportamento de torcedores" e responsabilidade objetiva dos clubes — independentemente de dolo ou intenção da diretoria.

Precedentes e o peso real das sanções possíveis
O TyC Sports reportou que as duas equipes podem ser desclassificadas da Sul-Americana e suspensas por um ano das competições internacionais. Esse cenário, embora extremo, tem precedente na própria Conmebol.
Em 2023, o Olimpia, do Paraguai, foi punido com jogos sem torcida após episódios de violência na Libertadores. Em 2019, a final da Libertadores entre River Plate e Boca Juniors foi transferida de Buenos Aires para Madri após ataque ao ônibus do Boca — e ambos os clubes sofreram sanções financeiras. A exclusão total, porém, é reservada para casos de reincidência ou quando há mortes confirmadas.
No caso de Avellaneda, não há registro de mortes confirmadas até o momento. Esse dado, tecnicamente, reduz a probabilidade de exclusão imediata — mas não elimina a suspensão de mando de campo, multas de seis dígitos em dólares e jogos com portões fechados.

O Alianza Lima, que avançou às quartas ao eliminar a Universidad Católica-EQU, aguarda o adversário que sairá dessa decisão judicial. A Conmebol terá de definir também se o resultado de 1 a 1 é mantido, se há replay ou se um dos clubes avança por W.O.
"Todas as informações relativas aos eventos ocorridos dentro e fora do estádio serão encaminhadas ao Comitê Disciplinar", reiterou a Conmebol, sinalizando que a apuração vai além do perímetro interno do estádio.
O Comitê Disciplinar da Conmebol tem prazo regimental de até 10 dias úteis para emitir uma decisão em casos de urgência competitiva — o que coloca o prazo limite em torno de 3 de junho de 2026, considerando o calendário da competição.












