Diz-se que o brasileiro nunca abandona a Seleção. Na verdade, ele ainda assiste — mas cada vez mais como espectador de algo que já não reconhece como seu. A pesquisa Envolvimento do Brasileiro com a Copa, realizada pelo Centro de Estudos Aplicados de Marketing da ESPM-SP com 400 torcedores de todas as regiões do país, entrega um diagnóstico que vai muito além do desempenho em campo: apenas 36% dos entrevistados afirmam se identificar com os jogadores atuais, enquanto 65% dizem sentir menos emoção assistindo aos jogos hoje do que sentiam em gerações anteriores.

Quem se beneficia diretamente

O principal beneficiário desse vácuo de identidade tem nome: Neymar. Mesmo sem ter sido convocado pelo técnico italiano Carlo Ancelotti, o atacante do Santos foi citado por 56% dos entrevistados como o jogador mais indispensável para o Brasil vencer a Copa do Mundo. Entre os torcedores de 18 a 34 anos, esse número sobe para 64,8%, com rejeição de apenas 20,8% — uma vantagem de 44 pontos percentuais. Quando um elenco inteiro não consegue produzir referências incontestáveis, um único nome preenchedor de lacunas vira símbolo de toda uma geração saudosa. É o efeito que qualquer musicólogo reconheceria: quando o álbum novo decepciona, o público volta obsessivamente ao clássico.

A narrativa do retorno de Neymar também se alimenta de uma nota média de 6,67 sobre 10 atribuída à Seleção atual — aprovação mediana que, no futebol, equivale a um empate em casa contra time rebaixado. Ruim o suficiente para irritar, bom o suficiente para não gerar ruptura definitiva.

Quem perde

O maior prejudicado é o próprio projeto de reconstrução que Ancelotti tenta consolidar. A pesquisa da ESPM mostra que 50,7% dos torcedores consideram que os jogadores atuais não apresentam o mesmo comprometimento de gerações anteriores, e 62% acreditam que os salários estão acima do que os atletas deveriam receber. Essa percepção corrói a legitimidade de qualquer processo de renovação antes mesmo que ele produza resultados. Conforme levantamento do SportNavo sobre o comportamento de torcidas em anos de Copa, a desconfiança pré-torneio tende a amplificar qualquer tropeço inicial — transformando um resultado ruim numa confirmação de tudo que se temia.

Desencantou.

Quem também perde são os jovens talentos que chegam à Seleção carregando o peso de uma comparação impossível. Com 67% dos entrevistados afirmando que a Seleção já foi mais importante no passado, qualquer estreante enfrenta um tribunal emocional formado por memórias de Ronaldo, Ronaldinho e Romário — não por análise técnica do presente.

O efeito dominó nas próximas semanas

A Copa do Mundo de 2026 está a menos de 14 meses. A lista de convocados de Ancelotti, quando sair, vai funcionar como um termômetro imediato de quanto o técnico italiano leu — ou ignorou — esse estado de espírito da torcida. A pressão pelo nome de Neymar, que entre os torcedores de 55 a 69 anos ainda reúne 50,9% de aprovação mesmo com 36% de rejeição nessa faixa etária, vai dominar o debate público independentemente de qualquer argumento físico ou tático.

A análise do SportNavo aponta que a janela entre agora e a estreia do Brasil na Copa é exatamente o período em que crises de identificação como essa ou se aprofundam ou se revertem. Não existe meio-termo histórico: em 2002, a virada emocional veio com Ronaldo em campo nas primeiras rodadas. Em 2014, a ausência de Neymar na semifinal converteu esperança em colapso dentro de 90 minutos.

O quadro geral que se desenha

Os 90% que ainda declaram que vão torcer pelo Brasil na Copa e os 47% que acreditam no Hexa revelam que o vínculo afetivo com a camisa verde-amarela sobrevive — mas opera agora numa lógica de lealdade incondicional, não de entusiasmo genuíno. É a diferença entre alguém que torce porque sempre torceu e alguém que torce porque acredita no que vê. Essa distinção importa imensamente para o futebol feminino, que nos últimos três anos construiu identificação real com suas jogadoras — Marta, Ary Borges, Gabi Portilho — sem contar com nem 10% do orçamento da Seleção masculina. Enquanto o masculino perde 65% da emoção dos torcedores, o feminino enche estádios e gera campanhas virais com fração dos recursos.

A nota 6,67 não condena o Brasil antes da Copa. Mas ela documenta que a Seleção chegará a 2026 precisando converter céticos em crentes durante o próprio torneio — tarefa que exige muito mais do que escalação correta. Exige jogo com identidade, com raça, com o tipo de comprometimento que 50,7% dos torcedores afirmam não enxergar no elenco atual. Ancelotti tem a primeira convocação como o momento mais imediato para começar essa conversão — ou para confirmar o distanciamento que a pesquisa da ESPM-SP já registrou em dados.