27 de outubro de 2023. Aquela data marca o ponto de inflexão mais duro da carreira de Neymar fora de campo. Defendendo a Seleção Brasileira em partida pelas Eliminatórias, o atacante rompeu o ligamento cruzado anterior do joelho direito e inaugurou o capítulo mais longo de sua relação com a fisioterapia. O que veio antes disso, porém, já anunciava o tamanho do problema: desde a Copa do Mundo do Catar, em dezembro de 2022, Neymar havia disputado apenas 63 partidas em 1.265 dias — uma média de uma aparição a cada 20 dias, índice incompatível com o futebol de alto rendimento.
O peso de 4.753 minutos em quase três anos
Reparemos no detalhe que os números carregam: somando todas as equipes e a Seleção desde a eliminação para a Croácia nos pênaltis, em dezembro de 2022, Neymar acumulou exatos 4.753 minutos em campo. Para efeito de comparação, um titular regular de clube europeu disputa em torno de 3.000 a 3.500 minutos por temporada — o que significa que o camisa 10 mal ultrapassou o equivalente a uma temporada e meia em quase três anos de carreira. O próprio Neymar, nos nove jogos que disputou pelo Paris Saint-Germain logo após o Catar, somou 738 minutos e participou diretamente de um gol a cada 92 minutos — ritmo de craque. Só que aquela sequência durou menos de dois meses antes de a engrenagem travar de novo.
Pela Seleção Brasileira, o recorte é ainda mais revelador: desde o Mundial do Catar, foram apenas quatro partidas, 312 minutos e o último jogo justamente em outubro de 2023, antes da ruptura no joelho. No Al-Hilal, clube para o qual foi contratado com grande expectativa, a passagem se resumiu a sete jogos e 427 minutos. Três procedimentos cirúrgicos desde a Copa de 2022. O corpo de Neymar passou a ser o adversário mais difícil que ele enfrenta.

A lesão na panturrilha e o prazo que a CBF não pode ignorar
A nova complicação veio na semana que antecede os amistosos preparatórios. O médico da CBF, Rodrigo Lasmar, confirmou que Neymar sofreu uma lesão grau 2 na panturrilha direita após exame de ressonância magnética realizado em uma clínica de Teresópolis, na Região Serrana do Rio de Janeiro. O diagnóstico aponta afastamento de duas a três semanas, o que inviabiliza a participação nos amistosos contra o Panamá, no dia 31, e contra o Egito, no dia 6 de junho. No cenário mais otimista — recuperação em duas semanas —, Neymar estaria apto apenas por volta do dia 11 de junho, 48 horas antes da estreia do Brasil contra o Marrocos, no dia 13.
A Copa do Mundo permite substituições na lista final até 24 horas antes do primeiro jogo, desde que a troca seja motivada por lesão ou doença grave e aprovada pela Fifa. A CBF, por sua vez, definiu internamente que o futuro de Neymar na Seleção será decidido até o dia 12 de junho — um prazo que não deixa margem para especulação prolongada. Ou o atacante demonstra condições físicas até lá, ou o corte se torna inevitável.
O torcedor Tomer Savoia, um dos líderes do Movimento Verde e Amarelo, buscou na história um alento para o momento.
"A gente já vem acompanhando o trabalho que ele vem fazendo em fisioterapia. Acho que a gente tem exemplos lá no passado de jogadores que a gente não tinha certeza que estavam voltando de lesão — Ronaldo, por exemplo, em 2002. Eu prefiro me apegar nesse tipo de coisa."A referência a Ronaldo Fenômeno é pertinente: o centroavante chegou ao Mundial do Japão e Coreia com um histórico de convulsões e dúvidas médicas, mas entrou em campo, marcou oito gols e levantou a taça. O problema é que a analogia carrega um limite importante — Ronaldo chegou ao torneio treinando regularmente, algo que Neymar não consegue garantir há quase três anos.
O paralelo com Romário em 1998 e o que Ancelotti encontra na Granja Comary
A história do futebol brasileiro guarda um precedente ainda mais próximo do dilema atual. Em 1998, Romário foi cortado da Copa da França pelo técnico Zagallo por não estar em condições físicas ideais. O centroavante havia marcado 55 gols em 70 jogos pela Seleção até aquele momento e era o maior nome do elenco. Ainda assim, Zagallo optou pela coletividade. O Brasil chegou à final — e perdeu para a França de Zidane por 3 a 0, em uma das noites mais enigmáticas da história do esporte. Ninguém saberá o que teria acontecido com Romário em campo, e esse é exatamente o tipo de dúvida que pesa sobre Carlo Ancelotti agora.
O técnico italiano, que comanda os treinos na Granja Comary em Teresópolis, já esboçou um time sem o camisa 10 para o amistoso de domingo contra o Panamá: Wesley, Bremer, Léo Pereira e Alex Sandro na defesa; Casemiro e Bruno Guimarães no meio; Luiz Henrique, Raphinha, Matheus Cunha e Vinicius Jr no ataque. A formação em 4-2-4 funciona com Raphinha exercendo função mais centralizada e Matheus Cunha operando entre as linhas — uma organização que prescinde estruturalmente do camisa 10. Ancelotti tem material humano para montar um time competitivo sem Neymar. A questão que permanece aberta é se ele quer, ou se considera que os 23 gols e 18 assistências que o atacante produziu em apenas 4.753 minutos — uma participação direta a cada 117 minutos — justificam o risco de levá-lo ao Mundial sem ritmo de jogo.
A resposta chegará até o dia 12 de junho. Se Neymar não demonstrar condições físicas plenas até essa data, a CBF terá nas mãos um corte que, ao contrário do de Romário em 1998, não será surpresa para ninguém que acompanhou os últimos três anos de uma carreira brilhante e permanentemente interrompida. O Brasil estreia contra o Marrocos no dia 13 de junho, e Ancelotti precisará ter onze jogadores prontos — com ou sem o nome mais famoso da convocação.









