41 anos. É esse o número que sintetiza tudo o que acontece neste domingo no Carlos Tartiere. Quarenta e um anos carregados nas costas de Santi Cazorla, capitão, ídolo e, muito provavelmente, o último rosto da era dourada do Real Oviedo na elite do futebol espanhol. A partida contra o Deportivo Alavés, pela Jornada 37 de La Liga, começa às 19h deste 17 de maio de 2026 — e ninguém em Oviedo está pensando nos três pontos. Estão pensando nele.
O Real Oviedo já está rebaixado. Ocupa a última posição da tabela, com uma sequência devastadora de três derrotas e dois empates nos últimos cinco jogos, média de apenas 0,5 gols marcados como mandante. O clube que voltou à Primeira Divisão após 24 anos de ausência não conseguiu se firmar — e agora se despede da elite de um jeito que dói, mas que ainda reserva beleza. Porque Cazorla estará em campo.
O número que o Carlos Tartiere vai carregar para sempre
Reparemos no detalhe: quando o Real Oviedo subiu à La Liga, há duas temporadas, havia uma pergunta repetida nas arquibancadas do Carlos Tartiere — será que Cazorla vai ficar? Ele ficou. E hoje, aos 41 anos, vai a campo pela última vez como mandante na máxima categoria espanhola. A decisão sobre a aposentadoria ainda não foi anunciada oficialmente — o próprio jogador sinalizou que é "uma decisão ainda por confirmar" — mas tudo aponta para um encerramento de carreira após o fim desta temporada.
A escalação confirmada pelo técnico Guillermo Almada para este domingo coloca Cazorla no meio-campo ao lado de Nicolás Fonseca, Alberto Reina e Santiago Colombatto, num esquema 4-2-3-1. Na zaga, David Costas e Dani Calvo formam a dupla central, com Lucas Ahijado e Javi López — que retorna de suspensão — nas laterais. Na baliza, Horatiu Moldovan foi a escolha de Almada. Na frente, Federico Viñas lidera o ataque, com Hassan e o marroquinho Ilyas Chaira — um dos mais regulares da equipe na temporada, com média de 4,5 pontos nas métricas do Diário As — apoiando pelas pontas.
O Oviedo chega sem Leander Dendoncker, baixa confirmada por lesão. Já Ovie Ejaria também é dúvida. São ausências que, num jogo sem consequência classificatória para os donos da casa, pouco alteram o roteiro emocional da tarde.

O que o Alavés precisa e o que Oviedo vai sentir
Do outro lado, a urgência é real. O Deportivo Alavés, comandado por Quique Sánchez Flores, chega ao Carlos Tartiere na 16ª posição, com apenas um ponto de vantagem sobre a zona de rebaixamento. Para o clube babazorro, empatar não serve — só a vitória garante respirar tranquilo antes da última rodada. A semana foi movimentada: o Alavés venceu o FC Barcelona — já campeão e com rotações — na jornada passada, e chega com moral elevada.
O técnico Quique tem dúvidas no meio-campo, onde Antonio Blanco — capitão e peça central do esquema — divide espaço com Denis Suárez, Guridi e Ángel Pérez. Na esquerda, Abde Rebbach brigou por posição com Yusi após boa atuação na rodada anterior. Na frente, a dupla Ibrahim Diabate e Toni Martínez lidera o ataque, com Lucas Boyé convocado apesar de não estar 100% fisicamente. Na zaga, Ville Koski deve manter a posição após sólida exibição contra o Barça, ao lado de Nahuel Tenaglia e Victor Parada.
O SportNavo levantou os dados dos últimos cinco confrontos entre as equipes, e o histórico recente favorece o Alavés — que marca, em média, 1,0 gol como visitante enquanto o Oviedo concede 0,9 em casa. Com um Oviedo que não vence há cinco rodadas e um adversário que joga por necessidade, a lógica aponta para um jogo difícil para os asturianos. Mas a lógica, neste domingo, é coadjuvante.
Cazorla e a tarde que Oviedo não pediu, mas precisava ter
O ar frio das Astúrias neste fim de tarde de maio tem cheiro de despedida. Há algo de cinematográfico no cenário: um clube rebaixado, uma cidade que esperou 24 anos para voltar à elite, e um homem de 41 anos que escolheu encerrar a carreira onde o coração mandou — não em Londres, não em Villarreal, não no Arsenal que o transformou em lenda europeia. Em Oviedo. No Carlos Tartiere.
Cazorla chegou ao clube asturiano numa decisão que surpreendeu o futebol espanhol. Poderia ter parado antes, com mais glória acumulada. Ficou. E agora, com a camisa azul e branca, vai a campo pela última vez como mandante na La Liga numa tarde que vai doer — e que ao mesmo tempo vai ser linda para quem amar aquele clube.
"É uma decisão ainda por confirmar", disse o próprio Cazorla ao ser questionado sobre a aposentadoria — palavras que, na prática, soam como o último capítulo sendo escrito em tempo real.
A torcida do Oviedo já sabe o que fazer. Vai cantar. Vai chorar. Vai empurrar o time mesmo sem nada a ganhar na tabela. E vai guardar essa tarde para sempre — porque há momentos no futebol que valem mais do que qualquer ponto.
Após o apito final deste domingo, o Real Oviedo ainda tem uma última partida pela Jornada 38, fora de casa, antes de encerrar definitivamente a temporada 2025/26 na La Liga e iniciar a preparação para o retorno à Segunda Divisão espanhola em 2026/27. É o mesmo cenário que o Deportivo de La Coruña viveu em 2011 — só que agora a aposta é diferente: Oviedo tem Cazorla. E Cazorla tem essa última tarde.









