45 gols em um único estádio — esse é o número que define, em sua brutalidade estatística, o que Hulk representou para a Arena MRV. Neste domingo (10/5), antes do empate em 1 a 1 entre Botafogo e Atlético-MG pela 15ª rodada do Campeonato Brasileiro, o atacante paraibano foi homenageado pela torcida atleticana em uma cerimônia que interrompeu, por alguns minutos, qualquer debate tático sobre o jogo que estava por vir. Hulk não entrou em campo — seu ciclo no clube já estava encerrado, com a transferência para o Fluminense já acertada — mas a Arena MRV parou para reconhecer o peso daquilo que partia.
O Brasileirão como pano de fundo de uma despedida histórica
O contexto competitivo do jogo carregava sua própria tensão. Atlético-MG e Botafogo chegaram ao confronto empatados com 17 pontos na tabela — o Galo na 13ª posição, o Glorioso na 12ª, separados apenas pelo saldo de gols. Era, portanto, um duelo de times que precisam de consistência para escapar da zona mediana da classificação. O Atlético saiu na frente aos 22 minutos, com Cassierra concluindo cruzamento de Cuello após a defesa do Botafogo só afastar parcialmente. O placar de 1 a 0 resistiu por quase todo o segundo tempo, mas a equipe carioca, que havia atuado muito abaixo do esperado na primeira etapa, buscou o empate nos 45 minutos finais e arrancou o ponto.
"Não saímos daqui satisfeitos porque não ganhamos, obviamente, e buscamos sempre a vitória. Mas é importante frisar um ponto: estivemos sempre em busca do empate depois de começar perdendo, conseguimos aos 90 minutos", declarou o técnico do Botafogo, Franclim Carvalho.
Carvalho assumiu publicamente a responsabilidade pelo desempenho ruim da primeira etapa — seria injusto chamar de constrangimento tático, mas foi uma hora constrangedora em escala doméstica — e elogiou a reação da equipe após o intervalo, incluindo a atuação de Danilo, que mesmo abaixo de sua média habitual seguiu sendo o jogador que o adversário mais tentou neutralizar. Com o resultado, ambos os times chegaram a 18 pontos; Botafogo na 11ª posição, Atlético na 12ª.
O que 45 gols numa arena revelam sobre poder simbólico e receita
A Arena MRV foi inaugurada em agosto de 2023 com capacidade para 46 mil torcedores e representa um investimento privado de aproximadamente R$ 540 milhões — o maior estádio de propriedade de um clube brasileiro construído sem recursos públicos diretos. Que Hulk seja seu maior artilheiro não é um dado trivial: é a síntese de uma relação entre um atleta veterano e uma estrutura nova que precisava de identidade imediata. O atacante chegou ao Atlético em 2021, quando tinha 35 anos e era tratado por parte da imprensa como um jogador em declínio. O que se seguiu foi uma sequência de temporadas que desafiaram essa narrativa — gols decisivos em clássicos, artilharias no Brasileirão e participação em conquistas que moldaram o perfil recente do clube.

Qual outro atleta com mais de 35 anos acumulou essa densidade de gols em um estádio tão novo no futebol brasileiro contemporâneo?
A pergunta não é retórica por acidente. Ela aponta para uma dimensão sociológica do esporte de alto rendimento que frequentemente é ignorada nas análises convencionais: a longevidade produtiva de Hulk no Galo diz menos sobre talento individual e mais sobre como clubes estruturados financeiramente conseguem reter e potencializar atletas que outros ambientes descartariam. O Atlético-MG dos últimos anos investiu pesado — em elenco, em gestão e em infraestrutura — e Hulk foi simultaneamente produto e catalisador desse projeto.
A torcida, a cerimônia e o peso do que fica
A despedida na Arena MRV seguiu o ritual que grandes clubes europeus consolidaram para ídolos em saída: homenagem pré-jogo, presença do atleta em campo sem participação na partida, discurso emocional para as arquibancadas. Que o Atlético-MG tenha adotado esse formato revela também uma maturidade institucional crescente — a capacidade de transformar uma saída em narrativa positiva para a marca do clube, mesmo quando o destino do jogador é um rival da mesma liga.
"Tínhamos uma ideia no primeiro tempo e é minha responsabilidade que não ocorreu bem. Principalmente com a bola. Na segunda parte melhoramos em todos os aspectos", completou Franclim Carvalho ao analisar o empate.
A ida de Hulk para o Fluminense, clube que disputa a mesma Série A, adiciona uma camada de complexidade à narrativa. Ao contrário de uma aposentadoria ou de uma transferência para o exterior, o atacante permanece no cenário doméstico — o que significa que a Arena MRV poderá recebê-lo como visitante ainda nesta temporada do Brasileirão 2026. O Atlético-MG, por sua vez, segue em campanha irregular: 18 pontos em 15 rodadas indicam um time que ainda busca a consistência que o projeto da arena prometia entregar. A próxima oportunidade de reagir será fora de casa, enquanto o Botafogo volta a campo na quinta-feira (14/5), às 18h, em Chapecó, contra a Chapecoense pela Copa do Brasil, com vantagem de 1 a 0 construída no jogo de ida.











