O saguão estava vazio quando a FIFA anunciou, em 2018, o modelo que mudaria tudo. Nenhuma festa, nenhum confete — apenas um comunicado técnico que redesenhava, em linhas frias, a maior competição esportiva do planeta. A decisão era esta: a Copa do Mundo de 2026 seria disputada em três países simultaneamente, com 48 seleções e 104 partidas distribuídas por 16 cidades na América do Norte. O torcedor que lesse aquele documento com atenção já sabia que a aventura de assistir ao torneio ao vivo nunca mais seria a mesma.
O que levou a FIFA a dividir o Mundial entre EUA, Canadá e México
A expansão de 32 para 48 seleções — aprovada pelo Conselho da FIFA em janeiro de 2017 — é o ponto de partida para entender a arquitetura tripartite do torneio. Com 16 equipes a mais, o número de jogos saltou de 64, como era no Catar em 2022, para 104. Nenhum país isolado, nem os Estados Unidos com sua infraestrutura monumental, conseguiria absorver esse volume sem comprometer qualidade operacional. A solução foi distribuir a carga: 11 cidades americanas, 2 canadenses (Toronto e Vancouver) e 3 mexicanas (Cidade do México, Guadalajara e Monterrey) compõem o mapa do torneio.
Para ter uma referência histórica concreta, basta olhar para a Copa de 1994, também nos EUA. Naquele torneio, 9 cidades-sede receberam 52 jogos com 24 seleções — e a operação logística já era considerada uma das mais complexas até então. Três décadas depois, o desafio é proporcionalmente maior em quase todos os indicadores: mais times, mais jogos, mais delegações, mais jornalistas credenciados e, sobretudo, mais torcedores cruzando fronteiras internacionais.
"Será o maior evento esportivo da história", declarou Gianni Infantino, presidente da FIFA, ao apresentar o formato expandido. "Queremos que mais países do mundo sintam que têm um lugar nesta competição."
O labirinto de fusos e fronteiras que espera o torcedor brasileiro
Para o torcedor brasileiro que planeja acompanhar a seleção presencialmente, a Copa de 2026 exige um planejamento que se aproxima mais de uma expedição do que de uma viagem de turismo convencional. Os três países operam em fusos horários distintos: a Costa Leste americana (Nova York, Miami, Filadélfia) está a 4 horas de Brasília no horário de verão local, enquanto Vancouver, no extremo oeste do Canadá, acrescenta mais 3 horas de diferença. Cidade do México, por sua vez, opera com 6 horas a menos em relação a Brasília durante o período do torneio, em junho e julho.
A consequência prática para quem quiser seguir o Brasil em mais de uma fase é a necessidade de cruzar fronteiras internacionais entre jogos — algo inédito na história recente do torneio. Um torcedor que assista à fase de grupos em Los Angeles e queira acompanhar as oitavas em Toronto, por exemplo, enfrentará um voo de aproximadamente 5 horas, além de controles alfandegários entre EUA e Canadá. Segundo dados da IATA (Associação Internacional de Transporte Aéreo), a demanda por rotas internas na América do Norte deve crescer entre 15% e 20% durante o período do torneio, pressionando preços e disponibilidade.
"A logística desta Copa é diferente de tudo que já organizamos", admitiu Colin Smith, diretor de torneios da FIFA, em entrevista ao portal especializado Inside the Games em 2024. "Estamos trabalhando com três governos, três sistemas aduaneiros e três moedas diferentes ao mesmo tempo."
A estrutura de estádios e o que a experiência dentro dos gramados promete
Se a jornada até os estádios é complexa, o que aguarda o torcedor dentro deles é de outra magnitude. O MetLife Stadium, em Nova Jersey, com capacidade para 82.500 pessoas, vai receber a final do torneio — o maior público para uma decisão de Copa desde o Maracanã de 1950, quando 173.850 pessoas assistiram ao fatídico Uruguai 2 x 1 Brasil. O Estadio Azteca, na Cidade do México, com seus 87.000 lugares, já recebeu duas finais de Copa (1970 e 1986) e entra no torneio como o único estádio da história a sediar jogos em três edições do Mundial.
A FIFA investiu em um sistema integrado de transporte entre sedes próximas — como o corredor Dallas-Houston no Texas, que conta com serviço de ônibus fretado oficial entre os estádios AT&T Stadium e NRG Stadium. Nas cidades mexicanas, o metrô de Guadalajara e o sistema BRT de Monterrey foram ampliados com financiamento parcial do comitê organizador local. O SportNavo apurou que o custo médio de um pacote de três jogos na fase de grupos, incluindo hospedagem básica e transporte local, varia entre R$ 18.000 e R$ 35.000 para o torcedor brasileiro, dependendo da cidade escolhida.
A Copa do Mundo de 2026 começa oficialmente em 11 de junho, com a cerimônia de abertura na Cidade do México. O Brasil estreia na fase de grupos em data ainda a confirmar após o sorteio, previsto para dezembro de 2025 em Miami — e o torcedor que decidir fazer a viagem tem, a partir de agora, um roteiro de três países para montar com precisão cirúrgica.
O saguão estava cheio quando a FIFA confirmou, em 2025, o modelo que mudaria tudo para sempre.











