Confesso: eu errei. Por anos defendi que o problema do futebol brasileiro era tático, de formação, de calendário. Ignorei o dado mais básico de todos — o tempo em que a bola efetivamente rola. Quando os números da 17ª rodada do Brasileirão 2026 apareceram na minha tela, com São Paulo x Botafogo marcando míseros 44 minutos e 11 segundos de jogo efetivo, eu entendi que tinha subestimado um problema estrutural que o futebol brasileiro carrega há décadas.

O que Fla x Palmeiras revelou sobre o resto do campeonato

O confronto entre Flamengo e Palmeiras, apitado por Davi de Oliveira Lacerda — árbitro que lidera o ranking de tempo efetivo no país —, registrou 60 minutos e 41 segundos de bola rolando. Foi o único jogo da rodada a atingir o parâmetro considerado ideal pela Fifa e pela International Football Association Board (IFAB): 60 minutos de jogo efetivo nos 90 regulamentares. O levantamento, realizado por José Peralta com dados da Opta Sports, é uma radiografia impiedosa do campeonato. Corinthians x Atlético Mineiro chegou a 58 minutos. Remo x Athletico, 55. Mas a curva despenca rápido: Vitória x Internacional ficou em 49 minutos e 9 segundos, Vasco x Red Bull Bragantino em 47 minutos e 27 segundos, e Cruzeiro x Chapecoense em 46 minutos e 24 segundos. A média da competição oscila entre 50 e 52 minutos — oito a dez minutos abaixo do que a entidade máxima do futebol mundial considera aceitável.

O SportNavo acompanha esses dados desde o início da temporada, e o padrão se repete com consistência perturbadora: a qualidade do árbitro que apita é o fator que mais distingue um jogo com 60 minutos de futebol de um com 44. Isso não é acidente — é sintoma de ausência de protocolo unificado.

O que os números europeus dizem que o futebol sul-americano prefere não ouvir

O que para o árbitro inglês da Premier League é protocolo obrigatório — acrescentar tempo real de pausa, combater a enrolação na cobrança de lateral e punir a demora na reposição de bola —, para o árbitro brasileiro ainda é exceção heroica. As grandes ligas europeias entregam entre 55 e 58 minutos de jogo efetivo por partida. A Fifa tem pressionado árbitros globalmente a aumentarem os acréscimos e combaterem a chamada "cera", aquela demora calculada para cobrar faltas, saídas de lateral e reposições. O Brasileirão ainda processa esse movimento como se fosse opcional.

A consequência prática é brutal: em um jogo com 44 minutos de bola rolando, como São Paulo x Botafogo na rodada passada, quase 49% do tempo regulamentar foi consumido por paralisações. Isso não é futebol — é teatro com chuteiras. E o torcedor que pagou ingresso ou assiste pela TV recebe menos da metade do produto que deveria receber.

Cera, cultura e o árbitro como variável decisiva

Três fatores concentram a maior parte do tempo perdido no Brasileirão: a demora deliberada nas cobranças de falta (especialmente quando o time está vencendo), a lentidão na reposição de bola após saídas de linha e a ausência de critério rígido dos árbitros para contabilizar e devolver esse tempo nos acréscimos. O dado de Davi de Oliveira Lacerda em Fla x Palmeiras prova que a solução existe e cabe dentro das regras atuais — não exige mudança de regulamento, exige postura. Um árbitro que aplica o protocolo correto entrega 60 minutos. Um que não aplica entrega 44. A diferença de 16 minutos entre o melhor e o pior jogo da rodada é escandalosa e inaceitável para uma liga que quer se posicionar entre as dez melhores do mundo.

"A Fifa usa 60 minutos como referência de tempo efetivo de jogo. Em suma, bola rolando." — Conforme relatado pelo levantamento de José Peralta, com dados da Opta Sports.

A solução de curto prazo está na mão da CBF: criar um ranking oficial de tempo efetivo por árbitro, torná-lo público e usar esse critério como parte da avaliação para designações em jogos de maior relevância. Lacerda já lidera esse ranking — e foi designado exatamente para o jogo mais importante da rodada. Se isso foi coincidência, que vire política permanente. Se foi política, que seja documentada e expandida para todas as rodadas, não só para os clássicos de prestígio.

O Brasileirão tem potencial de audiência, tem os maiores clubes da América do Sul e tem jogadores de nível internacional. Mas enquanto São Paulo x Botafogo entrega 44 minutos de futebol e isso não gera punição nem investigação formal da CBF, a liga continuará sendo vendida como produto premium com entrega de segunda linha. A próxima rodada começa na segunda-feira com Coritiba x Bahia, apitada por Anderson Daronco — mais um teste para saber se Fla x Palmeiras foi ponto fora da curva ou sinal de mudança real.