52 finalizações sofridas em três jogos. Esse número, levantado após o empate em 2 a 2 com o Vasco neste domingo (4), na 14ª rodada do Brasileirão 2026, é o retrato mais honesto do que o Flamengo de Leonardo Jardim se tornou: um time que convida o adversário a atirar. Contra Atlético-MG, Estudiantes e Vasco, o Rubro-Negro produziu apenas 29 arremates — pouco mais da metade do que sofreu — e manteve posse média de 48,6%, abaixo dos próprios rivais em todos os três confrontos.

Quem se beneficia diretamente

O Vasco foi o maior beneficiado imediato dessa fragilidade. Saindo perdendo por 2 a 0 com gols de Pedro e Jorginho (de pênalti), o time de Renato Gaúcho dominou 59% da posse no segundo tempo e finalizou 20 vezes contra 12 do Flamengo. Robert Renan e Hugo Moura, em cobrança de escanteio e cruzamento respectivamente, igualaram o placar no último lance. Renato não escondeu a satisfação:

"Não é qualquer time que enfrenta o Flamengo no Maracanã, sai perdendo por dois gols e chega ao empate. Dos 16 pontos comigo, 11 o Vasco correu atrás para ganhar. Hoje posso dizer que não ganhamos um ponto, ganhamos três pontos por tudo que aconteceu." — Renato Gaúcho

O Palmeiras, que também empatou na rodada, manteve os seis pontos de vantagem sobre o Flamengo na liderança do Brasileirão. O tropeço rubro-negro impediu qualquer aproximação no momento mais delicado da temporada.

Quem perde

O Flamengo perde o que tinha de mais valioso: a identidade construída por Filipe Luís. O time que em 2025 não foi vazado em mais da metade dos jogos e controlava partidas pela posse de bola agora sofre pressão de qualquer adversário — do Independiente Medellín ao Vitória, que empatou segundos depois de levar 1 a 0. O levantamento do SportNavo sobre os três últimos jogos mostra o colapso em números: 9 a 18 em finalizações contra o Atlético-MG, 8 a 14 contra o Estudiantes e 12 a 20 contra o Vasco.

Leonardo Jardim assumiu a responsabilidade sem rodeios, mas o diagnóstico público não resolve o problema tático.

Quem se beneficia diretamente 52 finalizações sofridas e o Flamengo de
Quem se beneficia diretamente 52 finalizações sofridas e o Flamengo de
"Sou o grande responsável porque não consegui colocar na equipe jogadores que mantivessem o nível de exibição dos primeiros 70 minutos. A gente quebrou. E o adversário, pelo contrário, reagiu e teve domínio de bola, justificando o empate pelo volume de jogo que teve no fim." — Leonardo Jardim

A ausência de Arrascaeta, Lucas Paquetá e Carrascal pesou, mas Jardim foi categórico ao dizer que não serve como justificativa. Com o elenco disponível, o Flamengo tinha condições de administrar o 2 a 0.

O efeito dominó nas próximas semanas

Há um roteiro clássico para times que perdem a compactação defensiva sem ajustar o mecanismo de pressão — e quem assistiu à série Ted Lasso sabe que identidade tática não se reconstrói em uma semana de treinos. O Flamengo enfrenta o Independiente Medellín fora de casa na quinta-feira (7), às 21h30, pela Copa Libertadores, com um elenco já desgastado fisicamente. Jardim reconheceu que o Vasco estava mais descansado e que isso influenciou o resultado nos minutos finais.

A análise do SportNavo aponta um padrão específico que precisa ser corrigido antes de Medellín: os dois gols do Vasco saíram de cruzamentos porque o Flamengo deixou de ser agressivo nos corredores laterais. Jardim explicou o mecanismo do problema:

"Até facilitamos esse tipo de jogo de cruzamento, não reduzimos e não fomos agressivos nos corredores. Depois, se acontecer, queremos ganhar duelos dentro da área. Não sou de contar história." — Leonardo Jardim

Com 27 pontos em 13 partidas, o Flamengo precisa de uma resposta rápida para não ver a distância para o Palmeiras crescer ainda mais.

O quadro geral que se desenha

O número 52 não é acidente estatístico — é tendência. Um time que recebe quase 17 finalizações por jogo e produz menos de 10 está estruturalmente exposto, independentemente da qualidade individual do elenco. A transição de Filipe Luís para Jardim trouxe uma mudança de postura que vai além do esquema: o Flamengo deixou de ser o time que dita o ritmo para se tornar o time que reage ao ritmo alheio.

Jardim tem até quinta-feira para reverter ao menos parte desse quadro. O Independiente Medellín, que já pressionou o Rubro-Negro no primeiro tempo do confronto anterior, conhece as fragilidades recentes e vai explorar os mesmos corredores que o Vasco usou no Maracanã. O Flamengo de 2026 ainda tem os jogadores para ser o melhor time do continente — mas, com essa postura defensiva, o risco de desperdiçar a temporada em pontos perdidos e gols sofridos é real e crescente.