90% — essa é a fatia dos ataques globais do ISIS que hoje acontece na África Subsaariana. Não no Oriente Médio, não na Europa: na África. Quando esse número apareceu pela primeira vez em relatórios de segurança, soou como erro de digitação. Hoje, depois da morte de Abu-Bilal al-Minuki em uma operação conjunta entre forças dos Estados Unidos e da Nigéria na Bacia do Lago Chade, ele funciona como o dado que melhor explica por que a operação desta semana importa muito além das fronteiras do continente.
A operação que levou meses para acontecer em minutos
A missão começou logo após a meia-noite de sábado no distrito de Metele, estado de Borno — nordeste da Nigéria, na fronteira com Camarões, Chade e Níger. Segundo o Exército nigeriano, tratou-se de uma "operação ar-terra de precisão" conduzida em coordenação direta com o AFRICOM (Comando Americano para a África), resultado de meses de coleta de inteligência e reconhecimento. O saldo reportado pelas forças conjuntas: zero baixas próprias, al-Minuki eliminado junto com "vários de seus lugartenentes".
"Esta noite, sob minha direção, forças americanas corajosas e as Forças Armadas da Nigéria executaram impecavelmente uma missão meticulosamente planejada e muito complexa para eliminar o terrorista mais ativo do mundo."
A frase acima é do presidente norte-americano Donald Trump, publicada no Truth Social na madrugada de sexta para sábado. O secretário de Defesa Pete Hegseth complementou: "Caçamos por meses esse líder do ISIS na Nigéria e o eliminamos — junto com seu bando." O presidente nigeriano Bola Tinubu confirmou a operação e agradeceu a parceria, chamando-a de "exemplo significativo de colaboração eficaz no combate ao terrorismo".
Quem era al-Minuki e por que ele valia tanto
Abu-Bilal al-Minuki — cujo apelido provavelmente deriva de Mainok, cidade de Borno, seguindo tradição regional de identificar pessoas por sua origem geográfica — nasceu em 1982 no mesmo estado onde foi morto. Antes de 2015, era comandante sênior do Boko Haram, grupo que iniciou sua campanha armada para impor lei islâmica no norte da Nigéria em 2009. Quando o então-líder Abubakar Shekau declarou lealdade ao ISIS em 2015, al-Minuki fez a transição junto.
Dentro da hierarquia global do ISIS, ele havia sido promovido ao cargo de "Chefe da Diretoria Geral de Estados" — posição que o tornava responsável por coordenar operações do grupo em múltiplas regiões simultaneamente. O Departamento do Tesouro americano o designou Terrorista Global Especialmente Designado em 2023, reconhecendo formalmente sua relevância operacional. Entre suas ações documentadas: supervisão de ataques contra civis e comunidades minoritárias no Sahel e na África Ocidental, movimentação de combatentes para a Líbia em suporte a operações do ISIS no norte do continente, e envolvimento no sequestro das estudantes de Dapchi em 2018, quando mais de 100 meninas foram capturadas pelo Boko Haram em uma escola no nordeste da Nigéria.
O mapa do ISIS mudou — e poucos perceberam
Aqui está o dado que o noticiário mainstream costuma subnoticiar: o ISIS não é mais primariamente um fenômeno do Oriente Médio. Com a queda territorial do califado sírio-iraquiano após 2019 — ano em que Abu Bakr al-Baghdadi foi morto — o grupo reorientou sua estrutura operacional para a África. A filial nigeriana, conhecida como ISWAP (Província do Estado Islâmico na África Ocidental), tornou-se de longe a mais ativa do mundo. Para ter uma escala comparativa: se o ISIS fosse um clube de futebol disputando uma liga global de ataques terroristas, a "franquia" da África Subsaariana marcaria mais gols do que todas as outras somadas.
A Bacia do Lago Chade — região de rios, ilhas e pântanos compartilhada por Nigéria, Chade, Níger e Camarões — funciona como a "zona de pressão" tática do ISWAP: difícil de vigiar, fácil de recuar, com fronteiras permeáveis que complicam qualquer resposta militar convencional. O estado de Borno, especificamente, acumula 17 anos de insurgência que matou milhares e deslocou aproximadamente 2 milhões de pessoas. Dados assim ajudam a contextualizar por que al-Minuki conseguiu operar por tanto tempo num raio tão pequeno sem ser neutralizado.
O SportNavo mapeou os relatórios do ACLED (Armed Conflict Location & Event Data Project) dos últimos três anos: o ISWAP registrou crescimento consistente no número de incidentes violentos na região do Lago Chade, com picos em 2023 e 2024 — exatamente o período em que al-Minuki estava no comando de operações mais amplas.
O que muda — e o que não muda — depois da morte de al-Minuki
Como diria o ditado, "quem não tem cão caça com gato" — e o ISIS demonstrou historicamente uma capacidade inquietante de substituir lideranças eliminadas com figuras que já estavam prontas para assumir. A morte de Baghdadi em 2019 não dissolveu o grupo; acelerou sua descentralização para a África. A pergunta operacional relevante agora é: al-Minuki tinha um substituto já identificado internamente?
Analistas de contraterrorismo tendem a avaliar o impacto de eliminações de líderes a partir de três variáveis: profundidade da cadeia de comando (quantos escalões existem abaixo do eliminado), dependência de conhecimento tácito (se as operações dependiam de relações pessoais do líder) e momentum operacional (se o grupo estava em fase de expansão ou consolidação). No caso do ISWAP, há indícios de que al-Minuki centralizava relações com células no Sahel e na Líbia — o que sugere que sua remoção causa disrupção real, não apenas simbólica.
O Exército nigeriano descreveu a operação como evidência de uma "parceria recém-formada entre Nigéria e EUA com compartilhamento de inteligência" — linguagem que sinaliza uma infraestrutura de cooperação pensada para ser contínua, não episódica. A próxima prova dessa parceria virá nos meses seguintes: se o ISWAP reagir com ataques de retaliação em Borno ou se a perda de liderança efetivamente produzir desorganização operacional. Os dados de incidentes no Lago Chade ao longo de 2026 responderão essa pergunta com mais precisão do que qualquer declaração oficial.
90% dos ataques do ISIS acontecem na África — e o número que pode começar a mudar isso tem o nome de Abu-Bilal al-Minuki.









