Uma equipe que perdeu pontos suficientes para ser campeã mediana acabou como a quinta melhor versão de si mesma em toda a história. O paradoxo do Barcelona de 2025 está exatamente aí: 96 pontos conquistados em 37 partidas da La Liga ao longo do ano civil representam uma marca que só quatro edições anteriores da Blaugrana superaram — e nenhuma delas tinha um goleiro que saiu da aposentadoria para salvar a temporada.
O que 96 pontos significam dentro da escala histórica do clube
Para entender o peso do número, é preciso olhar para o ranking completo. Segundo dados divulgados por Oriol Jove, da rádio RAC1, as únicas campanhas anuais do Barcelona que ultrapassaram essa marca foram as de 2010 e 2012 — ambas com 103 pontos —, a de 2017, com 101, e a de 2013, com 97. O time de Hansi Flick, portanto, ficou um ponto abaixo da edição de 2013 e dois acima de qualquer outra campanha fora desse quarteto de elite. Não é pouca coisa em um clube que já foi treinado por Johan Cruyff, Louis van Gaal e Pep Guardiola.
A conquista da tríplice coroa em 2024/25 — Supercopa da Espanha, Copa del Rey e La Liga — dá ainda mais textura a esses números. O Barcelona voltou ao Camp Nou reformado em outubro de 2024, após 909 dias de obras, e Robert Lewandowski marcou o primeiro gol do clube no estádio renovado logo aos quatro minutos do confronto contra o Athletic Bilbao, na 13ª rodada. Com a braçadeira de capitão, o polonês de 37 anos finalizou com precisão pela esquerda da área e inaugurou um novo capítulo num endereço antigo.
Lewandowski e Szczęsny, os dois poloneses que sustentaram a campanha
Os números individuais dos dois compatriotas contam a história da temporada melhor do que qualquer narrativa genérica. Lewandowski participou de 29 partidas de La Liga em 2025 e marcou 19 gols — artilheiro isolado do elenco. Nos jogos em que o centroavante esteve em campo, o Barcelona acumulou 74 pontos, média de 2,55 por partida. Fora dele, o rendimento caía visivelmente.
Wojciech Szczęsny, que havia anunciado a aposentadoria antes de ser convocado às pressas pelo clube catalão em setembro de 2024 para cobrir a lesão de Marc-André ter Stegen, disputou 21 jogos de liga ao longo do ano. Nesses confrontos, a equipe somou 55 pontos e o goleiro manteve a meta inviolada em oito ocasiões. A equação é simples: sem a disponibilidade de Szczęsny, a temporada poderia ter tomado um rumo completamente diferente já no primeiro trimestre.
Na Liga dos Campeões, Lewandowski foi além da fronteira doméstica. Contra o Newcastle, nas oitavas de final, o polonês marcou dois gols na segunda etapa — tornando-se o jogador mais velho a marcar duas vezes em uma única partida da competição. Com esses tentos, chegou a 41 adversários diferentes balançados na história da Champions League, recorde absoluto do torneio.
"O polonês włożył mnóstwo wysiłku w grze bez piłki" — o esforço sem bola de Lewandowski foi destacado pelo jornal Sport, que lhe atribuiu nota 8 na partida contra o Newcastle, ressaltando que ele "segurou os zagueiros centrais" e foi "recompensado com dois gols na segunda etapa".
O feito silencioso de Cancelo que a tabela não mostra
Enquanto os holofotes recaíam sobre o ataque e o goleiro, João Cancelo construiu nos bastidores algo que nenhum jogador havia feito antes. Aos 31 anos, o lateral português tornou-se o único futebolista do mundo a conquistar os cinco principais campeonatos nacionais europeus: a Primeira Liga portuguesa com o Benfica em 2013/14, a Serie A com a Juventus em 2018/19, a Premier League três vezes com o Manchester City (2020/21, 2021/22 e 2022/23), a Bundesliga com o Bayern de Munique em 2022/23 — por empréstimo — e agora a La Liga com o Barcelona. São 15 títulos clubísticos no total, além da Liga das Nações com Portugal em 2019.
O feito de Cancelo ganhou ainda mais relevância porque foi selado justamente num El Clásico contra o Real Madrid, o adversário mais simbólico da história do clube catalão. O lateral, porém, vive uma indefinição contratual: seu vínculo com o Al-Hilal se estende até junho de 2027, e o clube saudita exige 15 milhões de euros pela transferência definitiva — valor acima do que o Barcelona está disposto a pagar. Os catalães preferem uma solução via empréstimo ou transferência gratuita.
Segundo o técnico Hansi Flick, o trabalho defensivo coletivo foi a base de tudo: "Concentramos-nos em jogar alto, mas impedindo contra-ataques. Melhoramos a defesa nas bolas paradas e jogamos mais no campo adversário."
O ranking das melhores campanhas anuais do Barcelona na La Liga
- 2010 — 103 pontos
- 2012 — 103 pontos
- 2017 — 101 pontos
- 2013 — 97 pontos
- 2025 — 96 pontos
O que a campanha de 2025 revela sobre o projeto de Flick
Analisado pelo SportNavo, o ciclo de Flick no Barcelona combina elementos que raramente coexistem: um centroavante de 37 anos produzindo em nível histórico, um goleiro recrutado fora da aposentadoria e um lateral que completou uma coleção única de ligas nacionais. A soma desses fatores fora do comum gerou 96 pontos em um ano — número que, sozinho, seria suficiente para vencer a maioria das edições da La Liga.
A pergunta que fica não é se essa campanha foi extraordinária. É se o clube conseguirá manter a estrutura que a tornou possível. Cancelo ainda não tem futuro definido no Camp Nou. Lewandowski, aos 37 anos, carrega o peso natural do tempo sobre qualquer atleta. E Szczęsny, que saiu da aposentadoria uma vez, dificilmente repetiria o gesto. O próximo passo concreto está marcado: o Barcelona retorna às competições em 3 de janeiro, com o dérbi contra o Espanyol fora de casa — o primeiro teste de 2026 para uma equipe que, em 2025, provou que o teto ainda não foi alcançado.
Uma equipe que perdeu pontos suficientes para ser campeã mediana acabou como a quinta melhor temporada de si mesma em toda a história.









