O banco de reservas da Neo Química Arena virou palco de seis minutos de confusão na tarde deste domingo. Um jogador pedia para retornar ao gramado. O quarto árbitro Bruno Mota Corrêa bloqueava o caminho. A substituição já estava registrada, e não havia volta. Neymar — porque era ele, claro — ficou parado, com a mão no rosto, enquanto o Santos caminhava para uma derrota por 3 a 0 diante do Coritiba. Na manhã desta segunda-feira, 18, a CBF já havia solicitado ao clube santista os exames médicos do atacante, para aferir a aptidão física do camisa 10 antes do anúncio dos 26 convocados para a Copa do Mundo, marcado para as 17h no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro.

A noite de domingo que acendeu o alerta médico da CBF

A dor na panturrilha que forçou a saída de Neymar no duelo contra o Coritiba não é, por si só, o problema central. O Santos confirmou que os exames solicitados pela CBF já foram realizados na manhã desta segunda-feira, e os resultados são aguardados antes da cerimônia de convocação. O que a cena de domingo escancarou, porém, é algo que acompanha o atacante desde 17 de outubro de 2023 — a data em que, numa derrota por 2 a 0 para o Uruguai nas Eliminatórias, ele sofreu a ruptura do ligamento cruzado anterior e do menisco do joelho esquerdo, lesão que o manteve afastado por mais de um ano e gerou sequelas permanentes na articulação.

Neymar não disputou uma partida pela Seleção Brasileira desde aquele jogo em Montevidéu. São quase três anos de ausência do ambiente da Amarelinha. Para ter uma dimensão histórica do que isso representa: quando Ronaldo Fenômeno ficou fora da Copa de 1998 por convulsão às vésperas da final, o hiato na Seleção foi de meses. Quando Kaká se lesionou e perdeu a Copa de 2014, eram dois anos sem ritmo internacional de alto nível. O caso de Neymar, em extensão temporal e em complexidade médica, é singular na história recente do futebol brasileiro.

A noite de domingo que acendeu o alerta médico da CBF A aposta mais arriscada de
A noite de domingo que acendeu o alerta médico da CBF A aposta mais arriscada de

Na temporada de 2026, o departamento médico do Santos adotou protocolo rigoroso de preservação. Neymar atuou em 15 partidas — incluindo todos os jogos da Sul-Americana e metade dos compromissos do Brasileirão. Em dezembro de 2025, passou por cirurgia no joelho e ficou dois meses afastado. Não apresentou novas lesões desde novembro do ano passado, mas a dor de domingo, com a Copa a menos de um mês, chegou na hora mais inconveniente possível.

O que Ancelotti viu em campo — e o que a história diz sobre apostas assim

Carlo Ancelotti incluiu Neymar na pré-lista de 55 nomes enviada à Fifa e declarou publicamente que a escolha dependeria do desempenho esportivo atual do jogador, não apenas do currículo. A ressalva do técnico italiano é tecnicamente honesta, mas carrega uma contradição interna: Neymar, aos 34 anos, mudou de função dentro de campo. As lesões no joelho esquerdo o obrigaram a abandonar as pontas — onde construiu sua reputação de driblador inigualável — e a atuar mais centralizado, numa posição de meia atacante que exige outro tipo de leitura tática.

A comparação histórica que me ocorre imediatamente é a de Ronaldo na Copa de 2002. Após duas lesões graves no joelho e um período de incerteza sobre o próprio futuro, o Fenômeno chegou ao Japão e Coreia do Sul com apenas 16 jogos nos pés em dois anos. Marcou oito gols no torneio e foi eleito o melhor jogador da competição. Mas Ronaldo tinha 25 anos em 2002. Neymar terá 34 no início do Mundial. São variáveis completamente distintas.

Nos bastidores, o cenário apontava para a convocação antes mesmo da dor na panturrilha. O jornalista Lauro Jardim, de O Globo, reportou que o alto escalão da CBF confirmou a presença do camisa 10 na lista final, com uma fonte sendo categórica: "100%. Pode cravar." O próprio clube santista trabalhava com essa perspectiva e já planejava poupar o atacante nas rodadas seguintes do Brasileirão e da Sul-Americana para que ele chegasse em condições ideais à Granja Comary, onde a Seleção se apresentaria no dia 27.

Parreira defende, os números alertam e Ancelotti decide

Carlos Alberto Parreira, campeão do mundo em 1994, foi taxativo ao canal Voz do Esporte. Para o ex-técnico, a discussão sobre convocar ou não Neymar não deveria existir:

"Claro, levaria e começaria com ele como titular. Jogador desse peso, dessa fama, com a qualidade que ele tem… Não pode ficar de fora, não pode. Durante a competição, se precisar sair, descansar, é outra história, mas o Neymar tem que estar presente. Eu convocaria ele."

Parreira foi além e tocou num ponto que a estatística pura não consegue capturar — o efeito psicológico sobre os adversários:

"Ele entrou em campo, os caras vão se preocupar. Então, o Neymar, eu não discutiria o Neymar. Se ele estiver machucado, é outra história. Estando bem, tem que ser convocado e tem que jogar. Pelo menos começar jogando."

A ressalva de Parreira — "se ele estiver machucado, é outra história" — ganhou peso novo depois do episódio de domingo. Neymar é o maior artilheiro da história da Seleção Brasileira, com 79 gols em 128 jogos. Participou das Copas de 2014, 2018 e 2022. Em 2014, quando foi substituído lesionado na quartas de final contra a Colômbia, o Brasil perdeu a semifinal para a Alemanha por 7 a 1. A ausência de um jogador de sua envergadura reverbera além do campo.

O que Ancelotti viu em campo — e o que a história diz sobre apostas assim A apos
O que Ancelotti viu em campo — e o que a história diz sobre apostas assim A apos

A questão que Ancelotti enfrenta esta tarde não é apenas técnica. É a mesma que todo grande treinador enfrenta quando tem em mãos um talento fora do comum operando fora de sua curva ideal: o risco calculado vale a aposta? Um Neymar com 15 jogos no corpo, saindo de campo com dor na panturrilha, submetido a exames de emergência pela CBF na véspera da convocação, é uma variável que nenhuma análise estatística resolve com segurança.

O que se sabe concretamente: os exames foram realizados na manhã desta segunda-feira, 18. Ancelotti anuncia os 26 nomes às 17h no Museu do Amanhã. Caso convocado, Neymar se apresentaria à Seleção no dia 27, na Granja Comary, em Teresópolis. O banco de reservas da Neo Química Arena virou palco de seis minutos de confusão na tarde deste domingo — e agora a decisão mais consequente está na mesa do técnico italiano.