A Argélia não esteve em 2022. Todo mundo sabe disso. O que pouca gente acompanhou de perto é como aquela ausência dolorosa funcionou como catalisador de uma das reformulações mais interessantes do futebol africano no ciclo recente — e como essa reinvenção pode produzir um resultado surpreendente no Copa do Mundo de 2026, especificamente no Grupo J, onde os argelinos estreiam contra a Argentina em 16 de junho.

O diagnóstico que a eliminação de 2022 impôs à FAF

A Federação Argelina de Futebol (FAF) encerrou o ciclo de Djamel Belmadi — que havia conquistado a Copa Africana de Nações em 2019 — diante de um paradoxo estrutural: um treinador de alto nível, um elenco tecnicamente competente e, ainda assim, uma campanha eliminatória insuficiente para chegar ao Catar. O diagnóstico pós-mortem foi claro: o modelo tático estava envelhecido, e a relação com a diáspora franco-argelina, fonte historicamente rica de talentos, precisava ser institucionalizada, não mais tratada como recurso emergencial.

A resposta da federação foi recorrer a um comando técnico com perfil mais europeu e mentalidade de pressão alta, capaz de integrar jogadores formados na Ligue 1 e nas divisões inferiores do futebol francês. O resultado nas Eliminatórias Africanas foi eloquente: a Argélia passou a fase com autoridade, apresentando um futebol de transição rápida e mobilidade ofensiva que contrasta com o bloco baixo que caracterizou parte da era Belmadi.

A geração franco-argelina como projeto de Estado esportivo

Há uma dimensão sociológica relevante nesse processo que costuma ser subnoticiada nas coberturas esportivas convencionais. A França investe, por meio de suas academias de formação, aproximadamente €1,8 bilhão por ano em infraestrutura de base — um dos maiores orçamentos de desenvolvimento de talentos do mundo. Parte substancial dos jogadores formados nesse sistema são filhos ou netos de imigrantes norte-africanos. Quando esses atletas optam por defender a seleção do país de origem familiar, carregam consigo não apenas técnica, mas um modelo de jogo moldado pela exigência do futebol europeu.

Riyad Mahrez, mesmo atuando no futebol saudita pelo Al-Ahli após sua passagem pelo Manchester City, continua sendo a referência técnica e a liderança moral do grupo. Aos 35 anos, ele não é mais o mesmo ponta explosivo da Premier League, mas sua leitura de jogo e frieza em cobranças de falta e pênaltis representam um ativo tático que poucos jogadores africanos possuem. Ao redor dele, a nova geração — formada majoritariamente na França — confere ao time uma densidade técnica que a Argélia raramente exibiu em Mundiais.

  • Perfil do elenco: maioria dos titulares atua em ligas europeias, com concentração na Ligue 1 e em clubes de segunda divisão francesa
  • Identidade tática: pressão alta, transições rápidas e variação entre 4-3-3 e 4-2-3-1 conforme o adversário
  • Experiência histórica: melhor campanha em Mundiais foi em 2014, no Brasil, quando chegaram às oitavas e perderam para a Alemanha por 2 a 1 na prorrogação

O Grupo J como termômetro real da reconstrução

O sorteio colocou a Argélia em um grupo que funciona como teste de realidade para qualquer narrativa otimista. Argentina, atual bicampeã mundial, Áustria — uma das seleções europeias em ascensão mais consistente do ciclo — e Jordânia compõem o Grupo J. A lógica matemática favorece a Argélia na disputa pela segunda vaga com a Áustria, mas a estreia em 16 de junho contra a Argentina impõe uma variável psicológica considerável.

Historicamente, a Argélia tem um relacionamento peculiar com confrontos de alto impacto em Copas. Em 1982, na Espanha, a seleção venceu a poderosa Alemanha Ocidental por 2 a 1 na fase de grupos — resultado que foi obliterado pelo escândalo de Gijón, quando alemães e austríacos combinaram tacitamente um resultado que classificava ambos e eliminava os africanos. O episódio foi tão explícito que a FIFA mudou o regulamento a partir de 1986, determinando que as últimas rodadas de cada grupo fossem disputadas simultaneamente. A Argélia, portanto, conhece o peso de grandes surpresas — e também o custo de confiar na justiça do processo.

"A equipe que vai ao Mundial não é a mesma de dois anos atrás. Temos jogadores mais jovens, mais rápidos, com uma mentalidade diferente", declarou o selecionador argelino em entrevista à imprensa norte-africana durante a campanha eliminatória.

O que a Argentina representa como teste diagnóstico

Enfrentar Lionel Scaloni na abertura da fase de grupos não é apenas um desafio esportivo — é um diagnóstico imediato sobre o nível real da reconstrução argelina. A Argentina de 2026 não é a mesma máquina emocional de 2022, com Messi em estado de graça mística, mas segue sendo a seleção mais bem estruturada taticamente do continente americano. Se a Argélia conseguir ao menos competir com equilíbrio durante os 90 minutos de 16 de junho, o sinal emitido para os dois jogos seguintes — contra Áustria e Jordânia — terá peso estratégico real.

"Jogar contra a Argentina na estreia é um presente disfarçado de armadilha", avaliou um analista da Confederation of African Football em relatório técnico divulgado antes do sorteio. "Uma boa exibição, mesmo sem vitória, pode unificar o grupo e projetar a equipe para a segunda fase."

A Argélia chega à Copa com uma geração que a França formou e Argel vai aproveitar — e o que acontece nas três semanas seguintes ao apito inicial de 16 de junho vai dizer se essa reformulação foi projeto consistente ou apenas narrativa bem construída.