Quanto vale um cinturão que o adversário pode ter conquistado alguns gramas acima do limite? Essa pergunta ficou no ar no Prudential Center, em Newark, Nova Jersey, na noite de sábado (9) — e Sean Strickland não tem a menor intenção de deixá-la morrer.
O americano venceu Khamzat Chimaev por decisão unânime no UFC 328 e reconquistou o cinturão dos meio-médios pesados — a divisão de até 84 kg. Cinco rounds de pressão, volume de socos e aquela resiliência irritante que Strickland tem de ficar de pé quando deveria cair. Mas o que dominou a coletiva pós-luta não foi a análise do combate. Foi uma balança analógica que, segundo as imagens gravadas por presentes no local, nunca estabilizou o ponteiro no centro durante a pesagem oficial de Chimaev na véspera.
O que os vídeos da pesagem do UFC 328 revelam sobre Chimaev
Nas imagens que circularam na internet após o evento, o medidor da balança de aferição oficial nunca chega ao ponto de equilíbrio — aquele momento em que o ponteiro para, sinaliza que o atleta atingiu exatamente o peso-limite e o responsável da comissão pode declarar aprovado. O profissional da Comissão Atlética de Nova Jersey anunciou a aprovação de Chimaev com uma velocidade que chamou atenção até de quem não estava procurando problema.
Strickland afirmou que sua equipe tinha um observador no local durante a pesagem de verificação — a balança de checagem que os atletas usam antes de subir na oficial. A cena descrita pelo campeão é dura: quando Chimaev subiu nessa balança prévia, o staff inteiro do russo teria murmurado algo próximo de um palavrão coletivo. E o checheno foi retirado rapidamente do local, sob o argumento de que o tempo para o corte de peso estava se esgotando.
"Ele 100% não bateu o peso. A gente tinha um cara da minha equipe vendo ele subir na balança de checagem. Quando ele subiu, o time inteiro dele disse: 'M***'. E eles o arrastaram de lá porque ele estava ficando sem tempo. Ele, com certeza, não bateu o peso", declarou Strickland na coletiva pós-UFC 328.
O uso de balanças manuais nas pesagens oficiais do UFC não é novidade como fonte de polêmica. Em 2017, Francis Ngannou pesou oficialmente abaixo do limite na balança analógica do UFC Fight Night 110, mas membros da equipe adversária questionaram a leitura — o episódio nunca gerou investigação formal. Quase dez anos depois, o problema persiste exatamente porque o equipamento depende de estabilização visual, subjetiva, e de um funcionário de comissão que pode — ou não — aguardar o tempo necessário.
Strickland quer 20% da bolsa e a comissão em silêncio
O campeão foi assertivo ao traçar o que espera como consequência: se Chimaev realmente não bateu o peso para uma disputa de cinturão, a regra padrão prevê multa de 20% da bolsa do atleta infrator, revertida ao adversário. Strickland fez questão de mencionar esse número com um sorriso — mas a exigência por investigação não foi dita em tom de brincadeira.

"Eu deveria pegar 20% (da bolsa dele). Seja um peso-pesado, eu não ligo. Mas eu ouvi dizer que ele talvez queira subir para o 205 (libras/93 kg). Ele deveria. Se esse corte de peso está te matando, vá para o 93 kg. Aproveite a vida", completou Strickland.
A Comissão Atlética de Nova Jersey, por sua vez, manteve silêncio público sobre o caso até o fechamento desta reportagem. A omissão é o problema central aqui: quando uma comissão não responde a questionamentos documentados em vídeo, ela não encerra a polêmica — ela a alimenta.
Do lado de Chimaev, nenhuma defesa pública sobre a balança. O checheno encerrou sua invencibilidade no UFC — que havia chegado a 13 vitórias consecutivas na organização — e limitou sua reação a uma mensagem curta nas redes sociais: "Sean, nos veremos de novo". Quatro palavras que funcionam como pedido de revanche sem passar pelo constrangimento de pedir formalmente.
A revanche que Chimaev quer e o peso-médio que pode não suportar
O problema de Chimaev com a revanche é que ela pode nunca acontecer na mesma categoria. Dana White confirmou, após o UFC 328, que o checheno o procurou nos bastidores para comunicar a intenção de subir para os meio-pesados — a divisão de até 93 kg. Se o corte para 84 kg estava destruindo o corpo do russo a ponto de gerar suspeitas na pesagem oficial de uma disputa de cinturão, a decisão faz sentido atlético. Mas inviabiliza o reencontro com Strickland no curto prazo.
Há um dado que contextualiza a gravidade do corte de peso de Chimaev: o checheno chegou ao UFC em 2020 pesando naturalmente próximo dos 93 kg, segundo relatos de seu próprio staff divulgados à época. Seis anos depois, forçar o corpo a chegar a 84 kg para uma luta de cinco rounds de título é uma equação que cobra preço — e talvez o preço tenha aparecido na balança na noite de sexta-feira (8) no Prudential Center.
Strickland defende o cinturão pela primeira vez provavelmente contra Dricus Du Plessis, que já sinalizou publicamente estar na fila da divisão. Se a Comissão Atlética de Nova Jersey abrir investigação formal sobre a pesagem de Chimaev no UFC 328, a resposta deve chegar antes dessa próxima defesa — e pode mudar o contexto financeiro do evento de setembro, quando o UFC deve anunciar a próxima disputa pelo cinturão dos 84 kg.








