"Esta não é apenas uma camisa. É o uniforme usado por um dos maiores jogadores de todos os tempos na noite em que iniciou seu reinado no futebol mundial." Quem disse isso foi Brahm Wachter, responsável pelo departamento de colecionáveis modernos da Sotheby's, ao anunciar o novo leilão de um dos objetos mais carregados de história no futebol brasileiro.
A camisa número 10 que Pelé vestiu no dia 29 de junho de 1958, quando o Brasil goleou a Suécia por 5 a 2 em Estocolmo e conquistou seu primeiro título mundial, volta ao mercado entre 29 de junho e 16 de julho de 2026 — em Nova York, pela casa Sotheby's. A estimativa é de US$ 6 milhões, o equivalente a aproximadamente R$ 30 milhões na cotação atual.
De presente de quarto de hotel a joia de museu alagoano
Pelé tinha 17 anos naquela noite. Marcou dois gols na final, tornando-se o jogador mais jovem da história a balançar as redes numa decisão de Copa do Mundo — recorde que segura até hoje. Depois do apito final, ainda no calor da conquista, presenteou o companheiro de seleção Dida, seu colega de quarto durante o torneio, com a camisa que acabara de ser parte da história.
A peça ficou por décadas com a família do ex-jogador em Maceió, até 1993, quando o irmão de Dida, Edson Santa Rosa, doou o uniforme ao Museu dos Esportes Edvaldo Alves Santa Rosa, inaugurado naquele ano dentro do Estádio Rei Pelé. Por uma década, a camisa foi a atração principal do acervo.
"Essa camisa estava com o Edson. O Dida, quando veio, deixou a camisa com o irmão. Quando ele chegou a Maceió, a gente conversou sobre a camisa, aí ele disse: 'Leve essa camisa para o museu'. E o Edson concordou."
Quem relata isso é Lathenay, então responsável pelo museu, que viu a peça atrair turistas e visitantes durante anos — até a crise bater na porta. Paredes mofadas, goteiras e risco de perder todo o acervo. A solução foi dolorosa.
"O museu vivia uma terrível crise financeira. Infelizmente, tivemos que colocar a camisa em leilão. Mas fui pego de surpresa e tive que pagar o imposto de renda. Foram R$ 36 mil."
Em setembro de 2004, a camisa foi a leilão pela primeira vez, pela Christie's. Foi arrematada por 59 mil libras — algo em torno de US$ 105 mil na época, cerca de R$ 300 mil. Lathenay ainda precisou pagar advogados, impostos e a metade combinada para o irmão de Dida. Sobrou menos de R$ 60 mil para manter o museu aberto.
O que os números revelam sobre esse mercado
Aqui entra um dado que, pra mim, é o mais impressionante de toda essa história: a camisa foi comprada por US$ 105 mil em 2004. Agora, 22 anos depois, a estimativa é de US$ 6 milhões. Isso representa uma valorização de aproximadamente 5.600% — bem acima de qualquer índice de inflação ou ativo financeiro convencional no mesmo período.
Para ter uma noção do tamanho disso no mercado de colecionáveis esportivos:
- Em 2016, um leilão com mais de 2 mil objetos ligados a Pelé — medalhas de Copas, troféus, a coroa do milésimo gol — arrecadou US$ 4,2 milhões no total. Menos do que a estimativa para essa única camisa.
- Em 2022, um card de Pelé lançado em 1958 foi vendido por US$ 1,33 milhão em negociação privada, tornando-se o primeiro cartão de futebol a ultrapassar sete dígitos.
- O recorde atual da camisa de futebol mais cara pertence ao uniforme de Diego Maradona no jogo contra a Inglaterra em 1986 — o da Mão de Deus — arrematado por US$ 9,28 milhões em 2022.
Com estimativa de US$ 6 milhões, a camisa de Pelé ainda ficaria abaixo do recorde de Maradona. Mas o mercado de colecionáveis esportivos tem surpreendido consistentemente — e o calendário joga a favor: o leilão termina poucos dias antes da final da Copa do Mundo de 2026, num momento em que o futebol estará no centro do mundo.
Por que essa camisa específica tem um peso diferente
No universo dos dados, a gente costuma dizer que contexto é tudo. Aqui não é diferente. Não é qualquer camisa de Pelé. É a camisa — usada na noite em que um adolescente de 17 anos de Três Corações, Minas Gerais, virou o Rei.
Tem um ditado que cabe perfeitamente aqui: quem não tem cão caça com gato. Museu sem verba leiloou o que tinha de mais valioso para sobreviver. Funcionou — mas o comprador que arrematou a peça por US$ 105 mil em 2004 entendeu o que o mercado ainda não tinha precificado direito.
Wachter, da Sotheby's, resume a raridade com precisão: "Um objeto preservado por mais de seis décadas e entregue pelo próprio Pelé a um amigo." Não há cadeia de custódia mais humana do que essa — de um vestiário de Copa, para um colega de quarto, para um irmão, para um museu em crise, para um comprador anônimo, e agora para o mundo inteiro.
O comprador atual, que adquiriu a camisa em 2004 e não revelou sua identidade, procurou a Sotheby's para realizar o novo leilão. Os lances começam em 29 de junho e encerram em 16 de julho de 2026. Se a peça ultrapassar os US$ 9,28 milhões de Maradona, será a camisa de futebol mais cara da história — vendida exatamente 68 anos depois da noite em que Pelé a vestiu pela primeira e última vez.









