Três coisas: horário, rival, contexto. O Brasil feminino joga contra os Estados Unidos às 18h30 na Neo Química Arena, em Itaquera. Trinta minutos depois, começa o amistoso masculino contra o Egito. E o rival feminino não é qualquer seleção — é a mesma equipe que o Brasil enfrentou na final olímpica de Paris, em agosto de 2024, diante de 35 mil pessoas e audiência de 15 milhões de telespectadores na TV aberta. Tudo se explica daí.
Quem sai perdendo quando dois jogos disputam a mesma janela
A matemática da atenção é cruel e simples: nenhum torcedor divide o mesmo sofá entre dois jogos simultâneos com a mesma intensidade. Quando a CBF posicionou o Brasil feminino às 18h30 e o masculino às 19h, ela criou uma hierarquia implícita — o jogo das mulheres vira aquecimento, o dos homens vira o evento principal. O SporTV, que transmite o feminino, e a Globo, que transmite o masculino, vão disputar o mesmo espectador durante pelo menos 60 minutos de sobreposição. Estudos de audiência da Kantar Ibope Media mostram que confrontos simultâneos reduzem em até 40% o pico de audiência do jogo de menor apelo comercial percebido. Adivinha qual a CBF considera de menor apelo.
O jogo de hoje reedita uma final olímpica. Os EUA chegam a Itaquera como as seleções femininas com maior orçamento do mundo — a US Soccer Federation investiu 24 milhões de dólares na estrutura feminina em 2023, segundo relatório anual da entidade. O Brasil, por sua vez, vem de uma campanha histórica em Paris, com a prata que gerou 8,3 milhões de interações nas redes sociais da CBF em 48 horas. Esse é o produto que a própria federação está enterrando na grade horária.
"É inexplicável, injustificável e imperdoável", escreveu colunista do UOL Esporte, ao questionar por que a CBF não marcou o jogo feminino para as 16h ou para este domingo, dia sem competições de futebol no Brasil.
O histórico de desprestígio que torna o horário uma escolha, não um erro
Chamar de "erro de planejamento" o que a CBF fez hoje seria gentileza excessiva. A federação tem um histórico documentado de decisões que sistematicamente colocam o futebol feminino em desvantagem estrutural. Entre 2019 e 2023, o orçamento destinado à Seleção Feminina representou, em média, 12% do total alocado ao futebol masculino na CBF, segundo levantamento do Instituto Locomotiva publicado em parceria com a ONG Repórter Brasil. Nesse mesmo período, a seleção feminina acumulou dois títulos da Copa América (2022 e 2023) e uma final olímpica.
A colunista do UOL levantou uma pergunta que a CBF não soube — ou não quis — responder: por que não marcar o feminino para as 16h da tarde de hoje, ou para este domingo, quando não há nenhum jogo de futebol de expressão no Brasil? A resposta não existe oficialmente. Mas a lógica institucional fala por si: a CBF ainda opera com uma mentalidade em que o futebol feminino é encaixado nos espaços que sobram, não nos espaços que fazem sentido.
O próprio mercado já percebeu o que a CBF ignora. A Nike renovou em 2023 o contrato com a Seleção Feminina dos EUA com cláusula de equidade de marketing — as jogadoras americanas recebem o mesmo investimento publicitário que os homens. No Brasil, a Seleção Feminina ainda negocia contratos individuais de patrocínio sem estrutura centralizada da CBF, segundo apuração da Agência Esporte Espetacular divulgada em março de 2025.
O efeito cascata que um horário errado provoca fora do campo
A sobreposição de horários não prejudica apenas a audiência de hoje. Ela envia um sinal para patrocinadores, para emissoras e para as próprias atletas sobre o valor que a CBF atribui ao produto feminino. Empresas que avaliam investimento em naming rights e cotas de transmissão usam audiência histórica como base de precificação. Quando um jogo de altíssimo potencial — Brasil x EUA, reedição de final olímpica — é posicionado para competir com o masculino, o teto de audiência cai artificialmente, e o valor comercial da próxima janela de negociação também cai junto.
O Brasil Feminino joga a Copa do Mundo de 2027 em casa. A FIFA já confirmou que o torneio será realizado no Brasil, com jogos em pelo menos seis cidades. A janela de patrocínio e transmissão para esse evento está sendo construída agora, jogo a jogo, audiência a audiência. Cada decisão da CBF que reduz a visibilidade do feminino hoje é uma negociação pior amanhã — para as atletas, para as emissoras e para o próprio caixa da federação.
"Por que não marcar o jogo feminino para mais cedo, às 16h? Ou para amanhã, domingo sem futebol, à tarde?", questionou o colunista do UOL, resumindo o que boa parte da imprensa esportiva passou o dia perguntando sem obter resposta da CBF.
O que a CBF precisaria fazer — e ainda pode fazer antes de 2027
A solução para hoje já não existe: os horários estão definidos, os ingressos vendidos, as transmissões confirmadas. Mas o padrão pode — e precisa — ser rompido antes que o Brasil entre como sede da Copa do Mundo Feminina de 2027 com uma estrutura de gestão que ainda trata o futebol feminino como apêndice do masculino.

Medidas concretas existem e já foram implementadas por outras federações. A FA inglesa criou em 2021 um departamento autônomo para o futebol feminino, com orçamento próprio de 10 milhões de libras anuais e equipe de marketing dedicada. A Federação Francesa adotou em 2022 uma política de janelas exclusivas para jogos da seleção feminina, proibindo sobreposição com o masculino em datas de janela FIFA. A CBF não implementou nenhuma das duas medidas até hoje.
Neste sábado, às 18h30, a Seleção Brasileira Feminina entra em campo na Neo Química Arena para enfrentar as campeãs olímpicas dos Estados Unidos — um jogo que merecia audiência cheia, cobertura exclusiva e atenção total. O Brasil vai a campo apesar da CBF, não graças a ela. A Copa do Mundo de 2027 começa a ser organizada agora, e a federação já está atrasada.









