20 horas sem luz. Esse é o número que explica por que o diretor da CIA, John Ratcliffe, desembarcou em Havana nesta quinta-feira (14) — e por que Cuba, mesmo desconfiada, abriu a porta. A crise energética cubana atingiu um patamar de colapso que transformou uma visita de inteligência num sinal diplomático de peso: a ilha que por décadas apontou Washington como inimigo precisou, desta vez, receber seus agentes no Ministério do Interior.

O número que nenhum governo em colapso pode ignorar

A central termoelétrica de Antonio Guiteras — responsável pela maior parcela do fornecimento elétrico de Cuba e localizada a cerca de 100 quilômetros de Havana — foi desligada da rede na quinta-feira (14) por uma fuga na caldeira. As autoridades cubanas informaram que as reparações podem levar vários dias. Antes disso, o ministro de Energia e Minas já havia declarado publicamente que a ilha não possuía "absolutamente nenhum fuelóleo e absolutamente nenhum gasóleo" para os geradores. As 100 mil toneladas de petróleo bruto trazidas por um petroleiro russo, autorizado a atracar no final de março, foram integralmente consumidas.

Na noite de quarta-feira (13), moradores de Playa — bairro na zona oeste de Havana — bateram em panelas e frigideiras nas ruas, gritando "Acendam as luzes!", segundo relatos colhidos pela AFP. Foi uma das manifestações espontâneas mais raras vistas na capital cubana em anos, termômetro direto de até onde o apagão — que pode durar 20 horas ou mais — chegou na paciência da população.

Ratcliffe em Havana e o que o comunicado cubano revelou

O governo cubano confirmou, por meio da mídia estatal Cubadebate, que a visita de Ratcliffe ocorreu a pedido formal de Washington. O texto do comunicado — incomum pela precisão protocolar — afirma que "a Diretoria Revolucionária aprovou a realização desta visita e o encontro com seu homólogo do Ministério do Interior". O ministro em questão é Lázaro Alberto Álvarez Casas, com quem Ratcliffe se reuniu diretamente.

A aeronave do governo norte-americano foi avistada no Aeroporto Internacional de Havana por uma testemunha da Reuters e deixou o local na tarde desta quinta-feira. Passageiros embarcando com bagagens foram fotografados antes da decolagem — detalhe que reforça o caráter operacional, não meramente protocolar, do encontro.

"Ambos os lados também ressaltaram seu interesse em desenvolver a cooperação bilateral entre as agências de aplicação da lei, visando a segurança de ambos os países, bem como a segurança regional e internacional", afirmou o governo cubano em comunicado oficial.

O texto ainda incluiu uma declaração de Havana à delegação americana de que Cuba "não representa uma ameaça à segurança nacional dos Estados Unidos" e que não há razões legítimas para manter o país na lista de nações patrocinadoras do terrorismo — lista que gera restrições financeiras e comerciais diretas sobre a ilha.

O número que nenhum governo em colapso pode ignorar A CIA foi a Havana pedir paz
O número que nenhum governo em colapso pode ignorar A CIA foi a Havana pedir paz

Os 100 milhões de dólares e a aritmética do bloqueio

A oferta de US$ 100 milhões (cerca de R$ 498 milhões) em ajuda humanitária feita pelo Departamento de Estado dos EUA está no centro da negociação — e da tensão. O secretário de Estado Marco Rubio confirmou publicamente que Washington fez "inúmeras propostas privadas" ao governo cubano, incluindo acesso à internet por satélite de alta velocidade e a transferência direta dos 100 milhões.

O presidente cubano Miguel Díaz-Canel — que na terça-feira ainda via a conversa com Washington como hipotética — respondeu nesta quinta-feira pelo X com uma lógica matemática simples:

"Seria possível mitigar os danos mais facilmente e rapidamente suspendendo ou flexibilizando o bloqueio, uma vez que é do conhecimento geral que a situação humanitária na ilha é friamente calculada e provocada", escreveu Díaz-Canel na rede social.

O ministro das Relações Exteriores cubano, Bruno Rodríguez, havia dito na quarta-feira (13) que estava considerando aceitar a ajuda — o que, no vocabulário diplomático de Havana, representa um avanço notável. A equação proposta por Díaz-Canel é direta: os 100 milhões resolvem uma parte do problema imediato, mas o embargo — que Cuba chama de "bloqueio" — é o multiplicador de todos os outros problemas.

Trump, que na terça-feira (12) havia escrito em sua rede social que Washington e Havana "iriam conversar" — acrescentando que Cuba "só segue numa direção: a descer" — abriu o espaço político interno nos EUA para que a visita de Ratcliffe acontecesse sem ser lida como capitulação republicana. A visita de um diretor da CIA, e não de um diplomata do Departamento de Estado, mantém o diálogo num registro de segurança, não de normalização formal.

O paradoxo de abertura se resolve aqui: Cuba precisou de um apagão de proporções históricas para que a CIA pedisse para entrar — e o governo de Havana, que durante décadas construiu identidade política na resistência a Washington, precisou dizer sim. As próximas semanas definirão se os 100 milhões de dólares serão transferidos com ou sem contrapartidas sobre a lista de patrocinadores do terrorismo. A próxima rodada de conversações, segundo fontes diplomáticas citadas pela Reuters, está sendo articulada para ocorrer antes do fim de junho de 2026; até lá, a caldeira de Antonio Guiteras ainda estará em reparo — e Havana, no escuro.