O árbitro apitou com um minuto de bola rolando. Bombas, sinalizadores, fumaça — os próprios torcedores do Independiente Medellín transformaram o Atanasio Girardot em cenário de protesto contra o clube que amam. A partida válida pela quarta rodada do Grupo A da Copa Libertadores, marcada para 7 de maio, foi suspensa em definitivo no dia seguinte pela Conmebol. O Flamengo estava em campo, mas não jogou. Não há tragédia: há contabilidade.
Duas semanas se passaram desde aquela noite colombiana e a entidade sul-americana ainda não formalizou o W.O. que, pelo regulamento padrão de abandono e impossibilidade de jogo, deveria conferir os três pontos ao time que se apresentou regularmente — no caso, o Rubro-Negro. A omissão administrativa da Conmebol, que no passado agiu com rapidez em situações análogas, começa a irritar partes que sequer estavam no campo naquela noite.
Medina cobra o que a Conmebol prefere adiar
Alexander Medina, técnico do Estudiantes de La Plata, não se conteve na coletiva de imprensa de segunda-feira, 18 de maio. Seu clube enfrenta o Flamengo nesta quarta-feira, 20, no Maracanã, pela quinta rodada do Grupo A — e entra em campo sem saber a pontuação real do adversário direto.
"Para nós, é importante saber o resultado porque é uma partida que deveria ter sido disputada no horário previsto. A decisão precisa ser tomada antes da partida, não depois, para que a competição tenha a máxima seriedade. Precisamos entrar em campo contra o Flamengo já sabendo o que vai acontecer", cobrou Medina em tom que misturou protocolo e pressão real.
A fala do treinador argentino não é retórica vazia de vestiário. Ela tem lógica competitiva direta: com o W.O. confirmado, o Flamengo chegaria à quinta rodada com 10 pontos — quatro à frente do Estudiantes, que tem 6. Sem o W.O., o Rubro-Negro entra com 7 pontos e a diferença cai para um. Um cenário muda a natureza do duelo desta quarta; o outro, não. Decidiu.
A tabela que a Conmebol insiste em deixar incompleta
O Grupo A da Libertadores, com quatro rodadas disputadas — ou três e meia, a depender de como a entidade quiser contabilizar —, apresenta o seguinte panorama: Flamengo lidera com 7 pontos, Estudiantes tem 6, Medellín acumula 4 e o Cusco FC, do Peru, aparece com apenas 1. A indefinição do W.O. mantém artificialmente estreita a diferença entre primeiro e segundo colocados.
O levantamento que o SportNavo realizou sobre precedentes da Conmebol em situações de abandono por tumulto aponta que, nos últimos cinco casos registrados desde 2018, a entidade levou em média quatro dias úteis para publicar a decisão formal. Já se passaram dez dias úteis desde o cancelamento do jogo em Medellín. A demora é estatisticamente fora do padrão e alimenta especulações sobre uma possível análise mais complexa — talvez envolvendo responsabilidade compartilhada ou punições adicionais ao clube colombiano além da derrota por W.O.
O Medellín, por sua vez, acumula 4 pontos mesmo sem os três que provavelmente perderá na mesa. Se o W.O. for confirmado, o clube colombiano cai para 1 ponto e praticamente encerra sua participação na fase de grupos. A punição financeira, prevista no Artigo 24 do Código Disciplinário da Conmebol para casos de abandono por motivos atribuíveis ao clube mandante, pode chegar a 20 mil dólares, valor que não representa impacto significativo para um clube da porte do Medellín, mas a derrota por 3 a 0 no placar sim.
O que o silêncio da Conmebol significa para o plano do Flamengo
Do ponto de vista da comissão técnica do Flamengo, comandada por Leonardo Jardim, a indefinição tem um efeito colateral curioso: o clube entra em campo nesta quarta-feira sem saber se já tem ou não a classificação praticamente garantida. Com 10 pontos e uma vitória sobre o Estudiantes, o Rubro-Negro praticamente selaria a vaga nas oitavas com uma rodada de antecedência. Com 7 pontos, a mesma vitória deixaria a situação mais confortável, mas não definitiva.
A pressão de Medina sobre a Conmebol, portanto, tem um componente tático disfarçado de apelo institucional. O técnico argentino precisa que o Flamengo entre em campo com 7 pontos — não com 10 — para que o confronto desta quarta-feira ainda tenha o peso de um duelo entre primeiros colocados, e não de um time que já encaminhou a classificação recebendo um adversário que precisa vencer a qualquer custo. A diferença de pressão psicológica entre esses dois cenários não é desprezível, ainda que ambos os times sejam profissionais o suficiente para jogar independentemente da tabela.
"A decisão precisa ser tomada antes da partida, não depois", repetiu Medina, deixando claro que a cobrança não era protocolar — era estratégica.
O jogo desta quarta-feira, 20 de maio, com bola rolando a partir das 21h30 (horário de Brasília) no Maracanã, acontecerá com ou sem a resolução da Conmebol. Se a entidade permanecer em silêncio até o apito inicial, o Flamengo entrará tecnicamente com 7 pontos — mas com a consciência de que 3 pontos adicionais podem aparecer no placar da competição antes mesmo que o árbitro apite o fim do duelo contra o Estudiantes.









