Se a história servisse de guia absoluto, a Escócia nem precisaria divulgar numeração de Copa do Mundo — afinal, em oito participações no torneio, a seleção jamais avançou além da fase de grupos. Mas o futebol, como 1978 já ensinou, não obedece a precedentes. Naquele ano, a equipe escocesa chegou à Argentina como candidata ao título, com Ally MacLeod prometendo troféu, e foi eliminada com uma derrota para o Peru e um empate com o Irã. Quase 50 anos depois, o Irã voltará a cruzar o caminho da Escócia — desta vez no Grupo C da Copa do Mundo de 2026, ao lado de Brasil e Sérvia.
A numeração oficial dos 26 convocados foi divulgada nesta quinta-feira, 4 de junho, e os números escolhidos revelam a hierarquia que o técnico Steve Clarke estabeleceu para o torneio. Andrew Robertson, lateral que passou anos como titular do Liverpool e hoje segue como capitão de fato da seleção escocesa, ficará com a camisa 3. Scott McTominay, volante que viveu temporada de destaque pelo Napoli na Serie A 2025/2026, usará o número 4. A camisa 10 — símbolo de criatividade e responsabilidade ofensiva em qualquer seleção — foi entregue ao atacante Che Adams, do Torino.
O peso histórico da camisa 10 escocesa e o que Adams carrega
Que a Escócia tenha escolhido Che Adams para a 10 diz muito sobre o momento da seleção. O número carrega o legado de Denis Law, o único escocês a vencer a Bola de Ouro, em 1964, e de Kenny Dalglish, artilheiro histórico da seleção com 30 gols em 102 jogos. Adams, nascido em Leicester e naturalizado escocês, tem 24 gols pela seleção e representa a aposta de Clarke em um centroavante que joga de costas para o gol mas também pressiona a linha defensiva adversária. No Torino, na temporada 2025/2026, ele somou 11 gols no campeonato italiano — números que justificam a responsabilidade do número.

McTominay, por sua vez, chegou a Nápoles no início da temporada europeia atual e rapidamente se tornou peça-chave no meio-campo de Antonio Conte. O volante marcou 9 gols pelo Napoli na Serie A 2025/2026, um número expressivo para um jogador de características defensivas, e chega à Copa com a melhor forma da carreira. A comparação inevitável é com Graeme Souness, que na Copa de 1982, na Espanha, foi o motor do meio-campo escocês — mas sem o mesmo volume de gols que McTominay produziu nesta temporada.
Robertson, a liderança e o que 1974 tem a dizer sobre este grupo
A última vez que a Escócia chegou a uma Copa do Mundo com um lateral de nível europeu consolidado foi em 1974, com Danny McGrain na equipe que terminou invicta na primeira fase — mas foi eliminada por diferença de gols para o Brasil, justamente. McGrain foi considerado um dos melhores laterais do torneio. Robertson, hoje com 31 anos, carrega perfil semelhante: liderança técnica, visão de jogo e experiência em grandes palcos europeus. A diferença é que em 1974 a Escócia tinha Denis Law já em declínio; em 2026, tem McTominay e Adams no auge.
"Queremos fazer história. Nenhuma geração escocesa conseguiu passar da fase de grupos, e este grupo tem qualidade para quebrar isso", declarou Robertson em entrevista à imprensa britânica antes da convocação.
O amistoso deste sábado, 6 de junho, contra a Bolívia — marcado para as 17h (horário de Brasília) — será o último teste antes da estreia. A tendência, conforme registrado pelo SportNavo, é que os jogadores já utilizem a numeração oficial da Copa na partida contra os bolivianos, o que dará ao comissão técnica uma última imagem do funcionamento do grupo com as camisas definitivas.
O Grupo C e o calendário que coloca o Brasil por último
A ordem dos jogos da Escócia na fase de grupos não é aleatória em termos de dificuldade crescente. A estreia será no dia 13 de junho, em Boston, diante do Haiti — adversário que chegou à Copa pela primeira vez desde 1974 e que representa, no papel, o confronto mais acessível do grupo. Na sequência, a Escócia enfrenta o Marrocos, semifinalista da Copa do Mundo de 2022 no Catar. O encerramento da fase de grupos, marcado para 24 de junho em Miami, é justamente contra o Brasil.
O histórico entre as duas seleções é escasso. Brasil e Escócia se enfrentaram em apenas três ocasiões em Copas do Mundo: em 1974, quando empataram em 0 a 0 na fase de grupos; e em amistosos pontuais ao longo das décadas. O retrospecto geral favorece amplamente o Brasil, com 7 vitórias, 2 empates e 1 derrota nos confrontos diretos desde 1966. A derrota escocesa mais recente contra o Brasil foi por 2 a 0, em amistoso disputado em março de 2011, em Londres, com gols de Neymar e Lucas.
"O Brasil é o adversário mais difícil que poderíamos ter no grupo. Mas jogar por último nos dá a vantagem de saber exatamente o que precisamos", afirmou o técnico Steve Clarke à rádio BBC Scotland.
O que a numeração revela sobre a estratégia de Clarke
Numerações em Copas do Mundo modernas têm valor simbólico, mas também sinalizam hierarquia. O fato de o goleiro titular, Angus Gunn, do Norwich City, ter ficado com a camisa 1, e de Robertson ocupar a 3 em vez de uma numeração mais alta, indica que Clarke manteve a lógica posicional clássica — diferente de seleções que usam a numeração para criar narrativas de marketing. A camisa 9, de centroavante titular, foi destinada a Lawrence Shankland, do Hearts, artilheiro da liga escocesa com 22 gols na temporada 2025/2026 do campeonato nacional.
A Escócia de 2026 é, objetivamente, a geração mais qualificada que o país produziu desde a equipe de 1978 — aquela que chegou com promessas e voltou com decepções. McTominay em Nápoles, Robertson com anos de Champions League no currículo e Adams com regularidade no futebol italiano formam um núcleo que nenhuma geração anterior teve. Se isso será suficiente para finalmente romper a barreira da fase de grupos, o calendário vai revelar entre 13 e 24 de junho.
No Estádio Hard Rock, em Miami, na noite do dia 24 de junho, Robertson vai levantar a braçadeira de capitão diante de uma seleção brasileira que não perde na primeira fase de Copas do Mundo desde 1998. Esse é o cenário que espera a camisa 3 escocesa.









