Todo mundo sabe que a Escócia venceu Curaçao por 4 a 1 no Hampden Park, em Glasgow, neste sábado (30). O que ninguém quer dizer em voz alta é que o placar nasceu de uma situação que o futebol conhece bem: adversário reduzido a dez homens desde os 37 minutos do primeiro tempo. Antes da expulsão de Jürgen Locadia — cartão vermelho direto por cotovelada em Ryan Christie, do Bournemouth —, o marcador apontava 1 a 0 para Curaçao, com gol de Tahith Chong. Todos os quatro gols da Seleção Brasileira do adversário na primeira fase da Copa foram marcados com superioridade numérica. Cem por cento.
A narrativa da virada que não se sustenta nos números
A narrativa que circulou nos canais escoceses após o apito final foi de alívio e confiança recuperada. Não resistiu nem ao primeiro escrutínio. A Escócia chegou a esse amistoso depois de duas derrotas consecutivas na última Data Fifa — contra o Japão e contra a Costa do Marfim —, e o duelo com Curaçao havia sido desenhado pela comissão técnica como um termômetro para o que esperar do Haiti, adversário da estreia no Mundial e membro da Concacaf assim como os caribenhos. O que o teste mostrou foi o oposto da tranquilidade. O próprio técnico Steve Clarke admitiu o desconforto sem rodeios:
"Não fiquei satisfeito com o início. O jogo não refletiu o bom desempenho de Curaçao. No 11 contra 11, tivemos um pouco de trabalho pela frente."Lawrence Shankland, autor de dois dos quatro gols escoceses, foi igualmente honesto:
"O início da partida foi bastante difícil e tivemos sorte com o cartão vermelho, mas, depois disso, parecíamos ser a única equipe capaz de marcar."Findlay Curtis e Christie completaram o placar. A vitória, registrada pelo SportNavo, foi também a primeira da Escócia em amistosos em casa desde 2016 — um dado que, por si só, contextualiza o nível de confiança real do grupo.
No futebol, como no ditado popular, quem não tem cão caça com gato. A Escócia caçou com a expulsão do adversário, e o placar final não pode ser lido fora desse contexto.
O grupo da Copa e o que a Escócia realmente precisa fazer
A Copa do Mundo de 2026 trouxe um regulamento que, em tese, amplia as chances dos selecionados menores: os oito melhores terceiros colocados avançam aos 16-avos de final. Para a Escócia, isso transforma a estreia contra o Haiti em jogo de vida ou morte. Uma derrota ou empate nesse duelo obrigaria os escoceses a vencer Marrocos ou o Brasil para garantir qualquer avanço. Colocar numa perspectiva clara: a seleção que não conseguiu passar da fase de grupos na Eurocopa de 2024 precisaria superar uma das equipes favoritas do torneio. A aritmética é cruel.
Quando a Escócia enfrenta um adversário de igual para igual, ela sofre. Quando enfrenta um adversário reduzido, ela converte. A diferença entre esses dois cenários é exatamente o que o Brasil de Carlo Ancelotti precisa explorar.
Quando a Escócia precisa criar contra blocos organizados, ela trava. As derrotas para Japão e Costa do Marfim — seleções que combinam intensidade defensiva com transições rápidas — expuseram limitações estruturais que um 4 a 1 sobre dez jogadores não apaga.
O Brasil que Ancelotti está construindo para esse confronto
Do lado brasileiro, o ambiente na Granja Comary, em Teresópolis, tem sido de trabalho focado e confiança crescente. Ancelotti, em coletiva realizada neste sábado (30), foi direto sobre as prioridades:
"O trabalho nosso está focado ali [na defesa]. Os zagueiros, laterais têm uma responsabilidade importante. O treino de ontem foi muito bem. Estamos motivados. A equipe entendeu muito bem o que tem que fazer na defesa."O técnico italiano sinalizou que o meio-campo está bem coberto com Casemiro, Bruno Guimarães, Fabinho, Danilo e Lucas Paquetá, e descartou improvisações na zaga — setor que segue sem Marquinhos e Gabriel Magalhães, os dois titulares absolutos. A ausência dos dois zagueiros principais é o único sinal de alerta real no grupo.
O cenário em torno de Neymar também foi endereçado com clareza. O atacante do Santos sofreu lesão na panturrilha direita, mas Ancelotti garantiu que o camisa 10 permanece nos 26 convocados e pode estar disponível já na estreia contra Marrocos, em 13 de junho. A cena que marcou o encerramento das atividades na Granja foi a de Neymar no gramado após o treino — dando dicas de paradinha de pênalti para Vini Jr. e Paquetá, distribuindo autógrafos, sendo o último a deixar o campo. A emoção era visível. O comprometimento, também.
A delegação brasileira deixou Teresópolis ainda neste sábado, após a final da Champions League, e segue para o Rio de Janeiro. O último compromisso em casa antes do embarque para os Estados Unidos acontece neste domingo (31), às 18h30, no Maracanã, contra o Panamá — com transmissão pela Globo, SporTV e GE TV no YouTube. Danilo, Léo Pereira, Alex Sandro e Paquetá, todos do Flamengo, devem atuar. Depois do apito final no Rio, o Brasil embarca para um Mundial em que a Escócia, ao que tudo indica, chegará com mais dúvidas do que respostas.












