— Você sabia que o Irã pode não conseguir visto pra jogar a Copa nos Estados Unidos?
— Sério? Mas eles estão classificados...
— É. Classificados no campo, bloqueados na burocracia. É futebol entrando em território de negociação diplomática.

A cena imaginada acima resume, com precisão brutal, o que aconteceu neste sábado, 16 de maio, em Istambul. Mattias Grafstrom, secretário-geral da Copa do Mundo, sentou-se com Mehdi Taj, presidente da Federação Iraniana de Futebol, numa reunião que a própria Fifa classificou como necessária — e que o calendário tornava urgente. A delegação iraniana deve deixar Teerã na próxima segunda-feira (18) rumo à Turquia para o período de pré-temporada. Os Estados Unidos, sede principal do torneio ao lado de México e Canadá, ainda não emitiram os vistos para parte significativa do grupo.

A narrativa oficial — e o que ela omite sobre o Irã A Fifa foi a Istambul resolv
A narrativa oficial — e o que ela omite sobre o Irã A Fifa foi a Istambul resolv

A narrativa oficial — e o que ela omite sobre o Irã

Do lado da Fifa, a mensagem foi de otimismo calibrado. Grafstrom declarou à agência Reuters que o encontro foi "excelente e construtivo" e que a entidade está "ansiosa para recebê-los na Copa do Mundo". São palavras que, no universo diplomático, funcionam como aquele acorde resolvido no final de uma sinfonia incompleta — soam bem, mas não dizem onde a melodia vai parar.

A contra-leitura — quando o futebol não é suficiente para cruzar uma fronteira A
A contra-leitura — quando o futebol não é suficiente para cruzar uma fronteira A
"Tivemos uma reunião excelente e construtiva com a Federação Iraniana de Futebol. Estamos trabalhando juntos e ansiosos para recebê-los na Copa do Mundo", disse Grafstrom à Reuters após o encontro em Istambul.

Mehdi Taj, por sua vez, foi mais direto ao expor o problema concreto: membros da delegação iraniana não receberam vistos americanos, e o próprio dirigente foi impedido de participar de um congresso da Fifa no Canadá por ter vínculos com a Guarda Revolucionária Islâmica — organização classificada como terrorista pelo governo dos Estados Unidos desde 2019. Quando Grafstrom foi questionado especificamente sobre o impasse dos vistos, recusou-se a entrar em detalhes, limitando-se a afirmar que "as conversas terão sequência". A omissão, nesse contexto, diz mais do que qualquer resposta.

"Discutimos todos os assuntos relevantes, mas acho que não é o momento para entrar em detalhes. No geral, foi uma reunião muito positiva e estamos ansiosos para continuar o diálogo", salientou o secretário-geral da Fifa.

A contra-leitura — quando o futebol não é suficiente para cruzar uma fronteira

Há uma leitura confortável sobre este episódio: a Fifa age como mediadora responsável, os Estados Unidos vão ceder porque nenhum país-sede quer o escândalo de barrar uma seleção classificada, e tudo se resolve antes da abertura do torneio. Essa leitura é sedutora — e pode estar errada.

O caso iraniano tem uma camada que vai além do protocolo esportivo. Pense numa orquestra que precisa tocar em uma sala cujo dono tem uma lista de músicos proibidos de entrar. A Fifa pode ser o maestro mais habilidoso do mundo; se o porteiro não abrir a porta, o concerto não acontece. A Guarda Revolucionária Islâmica permeia as estruturas do Estado iraniano de maneira tão capilar que determinar quem tem ou não vínculo com ela é uma tarefa que extrapola qualquer regulamento da entidade máxima do futebol mundial.

O Irã está alocado no Grupo G do torneio, ao lado de Bélgica, Nova Zelândia e Egito — e todos os seus jogos na fase de grupos serão disputados em solo norte-americano. O complexo esportivo de Tucson, no Arizona, foi definido como base de treinamentos da seleção. Ou seja: a logística está traçada, o uniforme oficial foi lançado, a delegação parte na segunda-feira. O que falta é justamente o documento que autoriza a entrada no país onde o torneio acontece.

O peso do Grupo D e o que está em jogo para o torneio

Aqui entra uma camada adicional que a narrativa diplomática tende a suavizar: o Irã não está num grupo qualquer. A seleção asiática divide chave com Brasil, Portugal e Costa do Marfim — o chamado Grupo D, que, dependendo da fonte consultada, já foi apelidado informalmente de um dos mais atrativos do torneio. A ausência do Irã, por qualquer razão que fosse, criaria um vácuo esportivo e um precedente jurídico sem paralelo na história da Copa do Mundo.

A síntese honesta deste momento é a seguinte: a Fifa fez o que estava ao seu alcance — levou as partes a uma mesa em terreno neutro, em Istambul, e extraiu declarações de boa vontade de ambos os lados. O que a entidade não controla é a política externa americana, e é exatamente nesse ponto que a crise pode se agravar nas próximas semanas. Os vistos não são um detalhe logístico; são o termômetro de uma relação bilateral que atravessa décadas de tensão e que nenhuma reunião em hotel turco tem poder de descongelar sozinha.

A delegação iraniana embarca segunda-feira para Ancara. Se os documentos não chegarem antes do início da Copa, o mundo vai assistir a uma situação inédita: uma seleção acampada do lado de fora do torneio para o qual se classificou em campo. A pergunta que fica é concreta e urgente — se o governo americano mantiver o bloqueio de vistos para membros da comissão técnica iraniana até o início da fase de grupos, a Fifa tem autoridade real para forçar uma solução, ou vai repetir o mesmo comunicado de boa vontade que emitiu hoje em Istambul?