Quando o representante de Israel, Noam Bettan, subiu ao palco na primeira semifinal em Viena na terça-feira (12), gritos de "stop the genocide" cortaram a transmissão ao vivo. Quatro espectadores foram expulsos do recinto pela emissora austríaca ORF e pela União Europeia de Radiodifusão (EBU). Era o 70º Eurovision — e o mais politicamente carregado da história do concurso.
O maior boicote da história do Eurovision acontece agora, em Viena
Cinco países retiraram suas emissoras da edição de 2026: Espanha, Irlanda, Países Baixos, Eslovênia e Islândia. A emissora irlandesa RTE foi direta ao definir sua decisão em dezembro como simplesmente "inadmissível" participar enquanto Israel compete. É o maior boicote desde 2003, quando o concurso teve apenas 35 inscrições — número que esta edição também não superará.
A razão é a ofensiva militar israelense em Gaza, iniciada em outubro de 2023 após o ataque do Hamas. Pelo menos 72 mil mortos, segundo dados da ONU, e uma comissão independente da organização classificou os ataques como genocídio. Dentro da arena de Viena, o cenário foi diferente: aplausos audíveis para Israel na semifinal, com muitas bandeiras israelenses na plateia — o mesmo padrão da final de Basileia em 2025, quando Yuval Raphael liderou a votação popular mesmo com pontuações medianas dos jurados.
O prefeito de Viena, Michael Ludwig, respondeu a manifestantes pró-Palestina com linguagem que gerou reação imediata:
"Não nos deixaremos ser aterrorizados pelo silêncio. Infelizmente, precisaremos de grandes medidas de segurança por causa de pessoas como vocês."
A codiretora da Anistia Internacional na Áustria, Shoura Hashemi, classificou as declarações de Ludwig como "insuportáveis, falsas e divisivas" em publicação no X.
O violino da Finlândia e a exceção que expõe o regulamento
A Finlândia chega à final deste sábado (16) como favorita. Pete Parkkonen e a violinista Linda Lampenius interpretam juntos "Liekinheitin" — que em português significa "Lança-chamas". O detalhe que ninguém ignorou: as regras do Eurovision proíbem instrumentos ao vivo nas apresentações. A EBU concedeu uma exceção formal após pedido da emissora pública finlandesa YLE. Ou seja, o favorito já compete em condições que outros países não têm.
O especialista em Eurovision Jordi Ramos, citado pelo jornal El País, identificou um fenômeno claro de mobilização política em torno do voto finlandês:
"A Finlândia é vista como a principal opção para quem pretende usar o voto como protesto político a favor da Palestina."
Segundo Ramos, essa estratégia de "votar na Finlândia para impedir a vitória de Israel" já foi incorporada inclusive por apoiadores finlandeses. Israel ocupa a 5ª posição nas apostas de vitória. A Austrália e a Grécia também aparecem entre os favoritos.
Se a Finlândia vencer, o mapa de 2027 muda para Israel
Uma fonte da delegação israelense, citada pelo jornal israelita Ynet, foi precisa sobre o que uma vitória finlandesa significaria:
"Se ganhar o candidato finlandês, será muito difícil para nós. O ódio contra Israel continua a aumentar. Teremos de discutir estas questões muito a sério se chegarmos a essa situação."
O raciocínio é direto: quem vence o Eurovision sedia a próxima edição. Uma final em território finlandês, com o nível atual de tensão política no concurso, tornaria a logística e a segurança da delegação israelense um problema sem precedente. A mesma fonte traçou um paralelo com a Ucrânia, que em 2022 venceu o concurso mas cedeu a sede para Liverpool por conta da guerra — cenário que Israel afirma que não aceitaria repetir.
Caso Israel vença esta edição, a delegação foi categórica: organizaria o Eurovision em Tel Aviv, em diálogo com a EBU, sem propor voluntariamente a mudança de sede. Mas o caminho mais provável, dado o favoritismo finlandês e a pressão acumulada desde Malmö em 2024, é que a EBU precise revisar formalmente critérios de participação política antes de 2027 — o boicote de cinco países e a concessão de exceção de regra para um competidor já provam que o regulamento atual não sustenta o peso do contexto geopolítico.
A final do Eurovision 2026 acontece neste sábado (16) em Viena, com 26 países na disputa. O resultado define quem sedia 2027 — e com ele, se Israel estará dentro ou fora da próxima edição.









