"Gerenciamos o Cristiano Ronaldo que joga na seleção nacional tentando entrar no elenco para 2026, não a figura icônica." A frase foi dita por Roberto Martínez à Reuters, em Lisboa, na quinta-feira, 15 de maio — e ela desfaz, de saída, qualquer romantismo saudosista. O técnico espanhol não está convocando um monumento. Está convocando um jogador.
O argumento que Martínez não precisa inventar
Cristiano Ronaldo tem 41 anos e 143 gols pela seleção portuguesa — o maior número registrado por qualquer jogador na história das seleções nacionais. Nenhum outro atleta chegou perto: o iraniano Ali Daei, que ele ultrapassou em novembro de 2021, parou nos 109. A diferença de 34 gols não é estatística, é abismo. Quando Martínez diz que "a idade é apenas um número", ele não está sendo condescendente — está sendo preciso.
Na temporada 2025/2026, Ronaldo seguiu produzindo pelo Al-Nassr na Saudi Pro League, competição que, apesar das críticas da imprensa europeia, exige ritmo físico e decisão técnica. Mais do que os números do clube, o que pesa para Martínez é o desempenho nos treinos da seleção. Decidiu. E a decisão foi mantê-lo como capitão.
Cinco Copas, e a sexta bate à porta em junho
Portugal estreia na Copa do Mundo de 2026 em junho, no torneio sediado na América do Norte — Estados Unidos, Canadá e México. Ronaldo esteve presente em todas as edições desde Alemanha 2006: aquela equipa tinha Luís Figo ainda em campo e um jovem de 21 anos chamado Cristiano, que marcou um gol contra o Iran. Vinte anos depois, o jovem virou o mais velho da convocação e a pergunta deixou de ser "ele vai?" para se tornar "como ele vai ser usado?"
Martínez tem uma resposta clara para isso também. Com as cinco substituições permitidas pelo regulamento atual da Fifa, o técnico argumenta que o futebol moderno dissolve a hierarquia entre titular e reserva.
"Agora temos cinco substituições. É quase como se tivéssemos uma equipe inicial e uma equipe final. Não há distinção. Há papéis diferentes e Cristiano sempre aceitou seu papel", afirmou o técnico à Reuters.O raciocínio é tático, não sentimental.
Veteranos em Copas e o que a história registra
A presença de jogadores acima dos 40 anos em Copas do Mundo é raridade documentada. O colombiano Faryd Mondragón jogou aos 43 anos no Brasil em 2014 — mas era goleiro, posição com exigências físicas distintas. Roger Milla, do Camarões, balançou as redes aos 42 anos na Copa de 1994, nos Estados Unidos, tornando-se o artilheiro mais velho da história do torneio. Ronaldo, atacante, persegue esse tipo de marca. A diferença é que Milla entrava como surpresa; Ronaldo entra como capitão.
O SportNavo mapeou as últimas três participações de Ronaldo em Copas e encontrou um padrão: ele sempre marcou, mesmo quando Portugal foi eliminado antes do esperado. Em 2018, na Rússia, fez quatro gols na fase de grupos, incluindo um hat-trick contra a Espanha numa partida que terminou 3 a 3. Em 2022, no Qatar, balançou as redes na vitória sobre o Gana. Nenhuma dessas atuações foi de um jogador "carregado" pelo grupo.
O que Portugal precisa de Ronaldo em 2026
"A idade é apenas um número. Na seleção, podemos medir exatamente o que está acontecendo no dia, e você toma as decisões para o dia seguinte. Você nunca olha mais do que o dia seguinte", disse Martínez, sintetizando sua filosofia de gestão do plantel.Essa lógica de curtíssimo prazo é, curiosamente, a mais honesta que se pode aplicar a um atleta de 41 anos. Não há projeção de longo prazo — há desempenho diário.
Portugal, com Bruno Fernandes como motor criativo e Rúben Dias como âncora defensiva, não depende de Ronaldo para existir em campo. Mas depende dele para intimidar. O peso psicológico de ter o maior artilheiro da história das seleções na relação de convocados — pronto para entrar a qualquer momento — é um ativo que nenhum treinador descarta de graça. A estreia portuguesa no torneio está marcada para junho de 2026, e Martínez já deixou claro que Ronaldo chega ao Mundial avaliado pelos mesmos critérios de qualquer outro jogador do elenco. É o mesmo cenário que Roger Milla viveu em 1994 — só que agora a aposta é diferente.









