— Ele vai ser convocado, meu irmão.
— Vai nada. Ancelotti não precisa desse circo.
— Aposta? O cara ligou pra ele na quinta.
Essa troca de mensagens, repetida em grupos de WhatsApp e bares por todo o país na noite de domingo (17), tinha mais fundamento do que a maioria imaginava. Na última quinta-feira (14), quatro dias antes do anúncio oficial, Carlo Ancelotti e Rodrigo Caetano, diretor de seleções da CBF, realizaram uma ligação por vídeo com Neymar e colocaram as cartas na mesa: o que o técnico esperava do atacante do Santos, qual seria seu papel no grupo e o que precisaria acontecer para que a vaga fosse concretizada.
A quinta-feira que selou a convocação
A decisão de incluir Neymar entre os 26 convocados ganhou forma naquela chamada de vídeo. Segundo informações apuradas pelo ge e repercutidas amplamente, Ancelotti e Caetano foram diretos sobre o cenário que o camisa 10 reencontraria após quase três anos distante da Seleção Brasileira — a última vez que ele atuou pela Amarelinha foi em outubro de 2023, quando rompeu os ligamentos do joelho direito contra o Uruguai, nas Eliminatórias.
Neymar, por sua vez, soube o que a conversa significava. No vlog publicado em seu canal no YouTube na terça-feira (19), ele revelou o estado emocional que carregava nas horas que antecederam o anúncio oficial:
"Estou com uma tese aqui... se ele não me ligou até agora (Ancelotti)... não, pelo contrário, por que eu acho que ele ligaria (se não fosse convocado)... estou até com medo de olhar para o telefone. Sei lá, estou desesperado", disse o atacante.
A tensão era real. Gabigol, parceiro de ataque no Santos, estava presente na casa do jogador em Santos e comemorou ao ouvir o nome do amigo: "Eu te falei, eu te falei. Você merece". O levantador Bruninho e o cantor Thiaguinho viajaram de helicóptero até Santos especificamente para acompanhar o anúncio ao lado do craque.

Quase três anos de ausência e o peso da volta
A convocação de Neymar representa o retorno mais aguardado — e mais contestado — do ciclo de Ancelotti. O atacante esteve ausente de todas as listas anteriores do treinador italiano, que assumiu a Seleção após a eliminação na Copa de 2022. O portal alemão Kicker, que enviou correspondente ao Museu do Amanhã no Rio de Janeiro para o anúncio, resumiu bem o impasse:
"Ainda não se sabe quanto tempo de jogo o jogador de 34 anos, que não atua pela seleção há dois anos e meio, terá na Copa do Mundo, já que os brasileiros, obviamente, contam com um elenco excepcional, principalmente no ataque."
Os números do elenco convocado reforçam esse contexto. O grupo soma 908,7 milhões de euros em valor de mercado — aproximadamente R$ 5,28 bilhões —, com Vinicius Jr. liderando a lista com 150 milhões de euros. Raphinha aparece com 80 milhões de euros e Bruno Guimarães com 75 milhões. Neymar, aos 34 anos, chega ao torneio com 128 jogos e 79 gols pela Seleção, mas sem ter disputado uma partida oficial pela equipe nacional desde aquela noite em Montevidéu.
A ausência de Estêvão, cortado por lesão muscular grave na coxa, e de Éder Militão, também lesionado, abriu espaço na lista e foi determinante para que o nome de Neymar entrasse na equação final. Rayan, do Bournemouth, também aproveitou a brecha e garantiu sua vaga após estreia na reta final de preparação.
O risco calculado de Ancelotti e o que os críticos apontam
A convocação não passou sem resistência. O jornalista Mauro Cezar classificou o evento como um "fiasco" e fez uma comparação direta com o período pré-Copa de 2006, em Weggis, marcado pelo excesso de ações comerciais:
"Isso é Weggis versão 2026. Vinte anos depois, o Brasil deu hoje o primeiro passo para repetir o fiasco daquela Copa do Mundo. Aquela bagunça que todos acompanharam na Suíça antes da Copa do Mundo na Alemanha se repetiu hoje no Rio de Janeiro. Uma farra danada, um negócio totalmente desnecessário, até constrangedor", afirmou o comentarista.
A crítica se ancora em dados concretos: João Pedro, do Chelsea, registrou 20 gols e 6 assistências em 54 partidas pela equipe inglesa na temporada 2025/2026 e ficou de fora. O próprio João Pedro havia declarado publicamente apoio à convocação de Neymar dias antes do anúncio — e acabou sendo o principal prejudicado pela decisão de Ancelotti.
O técnico italiano, por sua vez, tratou o assunto com a objetividade de quem já dirigiu Real Madrid, Bayern de Munique e Milan. Ancelotti não convocou Neymar para os compromissos anteriores justamente por questões físicas — algo que o próprio portal alemão Kicker registrou. A ligação de quinta-feira funcionou como um passe de qualidade dentro da área: curto, preciso, sem rodeios.
Neymar na quarta Copa e o que vem a seguir
Com a confirmação, Neymar se iguala a Pelé em número de Copas do Mundo disputadas pela Seleção Brasileira — quatro ao todo: 2010, 2014, 2018 e agora 2026. Ao abraçar a mãe, Nadine, logo após o anúncio, o atacante resumiu o que aquele momento representava: "Deu certo, mamãe. Nós conseguimos. Conseguimos. Amém". Em seguida, fez uma chamada de vídeo com Raphinha, do Barcelona, e foi direto: "Vai dar tudo certo. Nós vamos ganhar essa porra."
A imprensa europeia acompanhou de perto. O jornal alemão Bild descreveu o momento em que Ancelotti leu o nome do atacante como o instante em que "'Neymar Jr., Santos': essas três palavras levaram o Brasil ao delírio", destacando que nenhum outro nome provocou aplausos tão intensos na cerimônia do Museu do Amanhã.
A Seleção Brasileira terá base de treinamentos em Nova Jersey e estreia na Copa do Mundo no dia 13 de junho, contra Marrocos, no MetLife Stadium. Antes disso, dois amistosos preparatórios: contra o Panamá, no Maracanã, em 31 de maio, e contra o Egito, em Cleveland, em 6 de junho. É nesses jogos que Ancelotti vai calibrar o papel de Neymar no grupo — e a resposta em campo vai valer mais do que qualquer ligação por vídeo.









