É um vulcão que aprendeu a controlar a erupção — mas que nem sempre consegue.

A imagem serve para Rony, o atacante de 177 centímetros e 70 quilos que carrega na musculatura compacta uma explosão rara e, na cabeça, a memória de temporadas em que esse fogo encontrou direção e sentido. Ronielson da Silva Barbosa, nascido em 11 de fevereiro de 1995 em Magalhães Barata, no Pará, construiu uma carreira que oscila entre lampadas de genialidade e apagões de finalização — e é justamente essa tensão que torna sua trajetória no Santos em 2026 tão digna de atenção.

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O dia em que tudo mudou

Há um momento preciso em que a carreira de Rony dobrou de sentido. Foi quando Abel Ferreira assumiu o Palmeiras e, em vez de mantê-lo como ponta clássica — função que exercera com brilho no Athletico Paranaense —, o reposicionou como centroavante. O técnico português enxergou no atacante paraense uma qualidade específica: a capacidade de fazer ataques de profundidade, de vasculhar os espaços que a defesa adversária deixa entre a linha e o goleiro. Entre 2020 e 2022, sob esse novo paradigma tático, Rony viveu o ápice da carreira. Marcou gols importantes, tornou-se peça regular em noites de Libertadores e construiu uma identidade dentro de um dos sistemas mais azeitados do futebol sul-americano na última década. Era o vulcão com direção.

O que Abel fez foi, em termos táticos, uma tradução. Rony não precisava criar jogadas desde o campo defensivo nem driblar marcadores em espaços reduzidos — as duas situações em que suas limitações técnicas ficavam mais expostas. Precisava apenas chegar antes da defesa à bola. E, nesse quesito, poucos atacantes brasileiros de sua geração carregam velocidade e potência física comparáveis.

Antes do divisor de águas

Para entender o Rony de 2026, é preciso remontar ao Rony de 2019. Naquele ano, ainda no Athletico Paranaense sob o comando de Tiago Nunes, ele atuava como ponta pela esquerda e liderou o time em número de assistências — dado que revelava um jogador menos finalista e mais articulador, alguém que preferia servir a consumar. O perfil era de contra-atacante puro: precisava de espaço, de profundidade, de adversários mal posicionados. Contra defesas organizadas, travava.

Quando chegou ao Palmeiras, o então técnico Vanderlei Luxemburgo foi direto ao apontar o problema: Rony estava condicionado ao futebol reativo. O clube alviverde, historicamente mais dominante e propositivo, exigia outro vocabulário. A adaptação foi gradual — e incompleta até Abel reorganizar as premissas. Antes disso, Rony somou críticas pela dificuldade nas finalizações e pelos gols perdidos em situações que o torcedor palmeirense esperava que fossem gol cantado.

Há, nessa história, um dado biográfico que costuma passar despercebido nas análises: Rony conquistou o Campeonato Paraense pelo Remo em 2014 e 2015, antes de qualquer holofote nacional. Esses títulos, modestos em escala mas formadores em substância, moldaram um jogador que sabe o que é vencer em ambiente adverso e com recursos limitados. É um pano de fundo que ajuda a explicar a resiliência — e também a rusticidade que tanto encantou quanto incomodou ao longo dos anos.

Como o futebol mudou ao redor dele

Pode um jogador de 31 anos se reinventar sem um Abel Ferreira por perto?

A pergunta é o coração da temporada de Rony no Brasileirão Série A de 2026. Vestindo a camisa 11 do Santos, ele acumula 35 jogos, 4 gols e 2 assistências — números que, isolados, parecem discretos para um atacante com seu histórico, mas que precisam ser lidos no contexto de um clube em reconstrução de identidade tática após anos tumultuados. A contribuição de Rony não se resume à estatística bruta: é um jogador que ocupa espaços, que movimenta a defesa adversária mesmo quando não marca, que carrega na mobilidade um recurso que times em transição costumam subutilizar.

Na avaliação do SportNavo, o que se vê em 2026 é um Rony em fase de negociação com seus próprios limites. Ele nunca foi um finalizador nato — as críticas que acompanham sua carreira desde Curitiba até a Baixada Santista são consistentes nesse ponto. Mas tampouco é um ornamento. Em março de 2023, quando foi convocado pela primeira vez para a Seleção Brasileira pelo técnico Ramon Menezes, para um amistoso contra o Marrocos, Rony estreou como titular no dia 25 daquele mês — e a derrota por 2 a 1 em Tanger, combinada com a nota 6,1 que recebeu no Sofascore, a pior do grupo naquela noite, foi um espelho cruel mas honesto das suas contradições: presença física garantida, impacto decisivo ainda oscilante.

O futebol ao redor dele mudou muito desde 2019. A Série A de 2026 é mais física, mais pressionante, com menos espaço para o contra-atacante que Rony foi em sua origem. O Santos, por sua vez, exige que ele seja algo diferente do que foi no Palmeiras de Abel — não há a mesma estrutura coletiva para explorar suas corridas de profundidade com a mesma eficiência. É um atacante tentando se encaixar em um novo molde sem perder o que sempre o definiu.

O próximo capítulo já começou

Aos 31 anos, Rony está no intervalo delicado em que a carreira exige clareza sobre o que ainda pode oferecer. Sua velocidade segue sendo um ativo real — corpos treinados como o dele, 70 quilos distribuídos em 177 centímetros, raramente perdem essa característica antes dos 33, 34 anos. O que se deteriora mais cedo é a intensidade das decisões, a capacidade de sustentar pressão em jogos de alto nível com regularidade.

O Santos de 2026 não é o Palmeiras de 2021, e esse é o dado estrutural mais honesto desta análise. Rony não tem ao redor de si um sistema construído para maximizar seus atributos. Tem, porém, 35 jogos como evidência de que é titular regular, de que o clube confia nele como referência ofensiva, de que a camisa 11 não é decorativa. Quatro gols em uma temporada ainda em curso não são o teto — são, possivelmente, o piso de um segundo semestre que pode ser diferente se o time encontrar consistência coletiva.

Há um paralelo literário tentador: Rony lembra certos personagens de José Saramago que carregam uma clareza sobre o que são, mas vivem em mundos que insistem em pedir que sejam outra coisa. O atacante paraense nunca foi um camisa 10 de criação, nunca foi um artilheiro compulsivo. Foi, no melhor momento, um elemento de desequilíbrio específico dentro de um sistema específico. Encontrar esse sistema novamente, aos 31 anos, em Vila Belmiro, é o desafio que define o capítulo atual da sua história.

Se o Santos conseguir construir ao redor dele uma estrutura que explore suas corridas nas costas da defesa, o segundo ato de Rony pode surpreender. Se a equipe continuar oscilando taticamente, ele seguirá sendo um jogador competente em um time sem direção clara — contribuindo, mas sem o brilho que a torcida da Vila Belmiro merece ver.

A temporada ainda tem meses pela frente. A pergunta concreta é esta: se o Santos confirmar um treinador com proposta ofensiva nas próximas semanas, Rony volta a ser o atacante de profundidade que Abel Ferreira revelou — ou a janela desse rendimento já se fechou definitivamente?