O calor úmido de Willemstad não prepara ninguém para o frio de Houston em junho — mas é exatamente para lá que a Copa do Mundo vai levar Curaçao pela primeira vez na história. Na manhã desta segunda-feira, 18 de maio de 2026, a federação caribenha divulgou os 26 jogadores convocados para o Mundial, confirmando que a pequena ilha de 150 mil habitantes, encravada no Mar do Caribe a 65 quilômetros da costa venezuelana, vai disputar o torneio mais assistido do planeta sem precedente algum para se apoiar. Estreante absoluta, com técnico veterano e um grupo de adversários que reuniria suor frio em qualquer vestiário do mundo.
Como Dick Advocaat herdou uma base pronta e a levou até aqui
A história da convocação começa antes de Dick Advocaat. Fred Rutten, seu antecessor, foi o arquiteto silencioso da classificação histórica de Curaçao nas eliminatórias da Concacaf — e a lista divulgada nesta segunda preserva, em grande parte, o esqueleto que Rutten montou. Advocaat, que assumiu o comando já com a vaga garantida, optou pela continuidade em vez da ruptura: dos 26 nomes anunciados, a maioria já era peça fixa no sistema anterior. Seria injusto chamar isso de gestão conservadora — mas é conservadorismo em escala de bom senso.
Advocaat, que completou 78 anos em setembro de 2025, carrega uma biografia que atravessa décadas de futebol europeu: passou por PSV Eindhoven, Rangers, Holanda, Rússia, Bélgica e Sérvia, entre outros. Sua chegada a Curaçao foi lida como curiosidade biográfica, mas o técnico tratou o cargo com a seriedade de quem sabe que convocações mal feitas custam jogos. A lista final reflete isso: nenhum nome foi incluído por pressão midiática ou apelo de marketing.
A única novidade de última hora foi Deveron Fonville, incorporado ao grupo nas semanas finais de preparação. Do lado de fora ficou Jordi Paulina, jovem que havia estreado pela seleção em novembro de 2025 mas não convenceu o suficiente para garantir lugar entre os 26. Decisões assim — cortar quem estreou há pouco mais de seis meses — revelam mais sobre a filosofia de um técnico do que qualquer discurso pré-jogo.
Os nomes que Curaçao vai colocar em campo contra a Alemanha
Entre os goleiros, Eloy Room é o mais experiente do grupo, com passagens por clubes holandeses e histórico de convocações regulares pela seleção. Tyrick Bodak e Trevor Doornbusch completam o trio entre as traves. Na defesa, Riechedly Bazoer e Armando Obispo são os nomes de maior projeção europeia — ambos com trajetória em ligas do continente, o que garante ao menos familiaridade com o nível de intensidade que o Grupo E vai exigir.
No meio-campo, os irmãos Leandro Bacuna e Juninho Bacuna formam o eixo de criação. Leandro, que já acumula mais de 50 partidas pela seleção, é o jogador com maior número de minutos internacionais do elenco. Tahith Chong, convocado entre os atacantes, é provavelmente o nome mais reconhecível fora do Caribe: o ponta de 25 anos passou pelo Manchester United antes de se consolidar no futebol belga e holandês. Jurgen Locadia, que já jogou na Premier League pelo Brighton, e Brandley Kuwas completam um ataque com experiência europeia suficiente para não ser engolido logo nos primeiros 20 minutos contra a Alemanha.
A lista completa dos 26 convocados:
- Goleiros: Tyrick Bodak, Trevor Doornbusch, Eloy Room
- Defensores: Riechedly Bazoer, Joshua Brenet, Roshon Van Eijma, Sherel Floranus, Deveron Fonville, Jurien Gaari, Armando Obispo, Shurandy Sambo
- Meio-campistas: Juninho Bacuna, Leandro Bacuna, Livano Comenencia, Kevin Felida, AR'Jany Martha, Tyrese Noslin, Godfried Roemeratoe
- Atacantes: Jeremy Antonisse, Tahith Chong, Kenji Gorré, Sontje Hansen, Gervane Kastaneer, Brandley Kuwas, Jurgen Locadia, Jearl Margaritha
Segundo o entorno técnico de Advocaat, a prioridade foi manter a identidade construída por Rutten e adicionar organização defensiva — Curaçao não vai à Copa para ser espetáculo; vai para competir.
O Grupo E e o calendário que não perdoa estreantes
A Copa do Mundo de 2026 vai testar Curaçao com uma sequência que poucos técnicos escolheriam para uma estreia histórica. O primeiro jogo está marcado para 14 de junho, em Houston, contra a Alemanha — seleção que chegou ao torneio depois de uma reconstrução acelerada sob Julian Nagelsmann e que, nas eliminatórias europeias, marcou 36 gols em 10 partidas. Houston, com sua arena coberta e capacidade para mais de 70 mil pessoas, não é o cenário mais acolhedor para uma seleção que nunca disputou um jogo de Copa do Mundo.
O segundo compromisso está agendado para 20 de junho, em Kansas City, contra o Equador — seleção sul-americana que chegou ao torneio pela terceira Copa consecutiva e que tem em Moisés Caicedo e Kendry Páez suas principais referências. O encerramento da fase de grupos acontece em 25 de junho, na Filadélfia, diante da Costa do Marfim, que chega ao torneio com uma geração de jogadores formados em ligas europeias de alto nível.
A matemática do Grupo E não favorece Curaçao para uma classificação às oitavas de final. Mas o formato expandido da Copa de 2026 — com 48 seleções e 12 grupos de quatro times, dos quais os dois primeiros avançam diretamente e os quatro melhores terceiros colocados também se classificam — abre uma janela que não existia nos torneios anteriores. Uma vitória contra o Equador ou a Costa do Marfim, combinada com resultados favoráveis em outros grupos, pode ser suficiente para que a Onda Azul veja a segunda fase de perto.
Nas palavras do próprio Advocaat, em entrevista à imprensa holandesa antes da divulgação da lista, a missão em Houston não é diferente de qualquer outra: "Entrar em campo para ganhar. Sempre."
Curaçao treina nos próximos dias em solo europeu antes de embarcar para os Estados Unidos. O primeiro teste real chega em 14 de junho, às 16h (horário de Brasília), quando a Onda Azul e a Alemanha se encontram em Houston para abrir o Grupo E — e para abrir, de vez, o capítulo mais improvável da história do futebol caribenho.









