Confesso: quando o Flamengo começou a usar o termo "Nação" para descrever sua torcida, eu tratei aquilo como marketing de clube grande com ego inflado. Porto Alegre tem seus excessos passionais, mas 45 milhões de torcedores espalhados em seis continentes é um número que obriga qualquer jornalista a rever seus preconceitos regionais. Hoje vejo que subestimei a dimensão sociocultural do movimento — e os bastidores do pedido protocolado no IPHAN me deram a dimensão exata do que estava errada.

O que o Flamengo pediu ao IPHAN e por que isso é inédito

O Clube de Regatas do Flamengo protocolou formalmente no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional um pedido de reconhecimento da chamada Nação Rubro-Negra como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil. O documento foi entregue na sede da Gávea pelo ex-jogador Zico ao presidente do IPHAN, Leandro Grass, e ao diretor de Patrimônio Imaterial do órgão, Deyvesson Gusmão, durante visita ao acervo histórico do clube. Não se trata de uma solicitação simbólica enviada por e-mail — foi uma reunião presencial com os gestores máximos do instituto.

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Grass reconheceu o peso do pedido. Segundo o presidente do IPHAN, a solicitação "abre discussão sobre o reconhecimento de manifestações culturais associadas ao futebol no país" e pode representar uma nova possibilidade dentro da política nacional de preservação cultural. Isso é significativo: o IPHAN já registrou o frevo, o samba de roda e o jogo do pau como patrimônios imateriais, mas nunca uma torcida de clube de futebol passou por esse crivo. Se o pedido for aprovado, o Flamengo abrirá precedente para outros clubes — e o debate sobre identidade coletiva no esporte brasileiro nunca mais será o mesmo.

O movimento ganhou tração também numa petição pública lançada no ano passado. O documento já reúne cerca de 600 mil assinaturas, com meta estabelecida pelo clube de atingir 1 milhão de apoios. Para quem acha que número de asssinatura digital não significa nada, basta comparar: a maior petição já registrada no Change.org Brasil, sobre o imposto sindical em 2018, alcançou pouco mais de 1,3 milhão. Chegar perto disso com tema exclusivamente cultural e esportivo é um dado sociológico relevante.

Zico na ONU e o reconhecimento que nenhum clube sul-americano teve

Na Organização das Nações Unidas, a movimentação foi além do protocolo. Zico, apresentado como embaixador do clube, foi recebido na sede da ONU em Nova York pela Subsecretária-Geral para Comunicações Globais, Melissa Fleming, no salão da Assembleia Geral. O ídolo rubro-negro entregou à executiva uma publicação que retrata a força do clube e de sua torcida como referência cultural do Brasil — e saiu de lá com um certificado e um cachecol simbólico.

"O Flamengo é uma Nação. Uma Nação sem fronteiras. Uma Nação de 45 milhões de pessoas que fala a mesma língua, que compartilha a mesma paixão e que se reconhece em qualquer parte do mundo", afirmou Zico durante a entrega do documento no IPHAN.

Na ONU, o clube formalizou sua adesão ao programa Football for the Goals, iniciativa que mobiliza o esporte em apoio aos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Zico se tornou o primeiro brasileiro a receber o título de "Campeão" da iniciativa, integrando um grupo seleto de personalidades do futebol global. Melissa Fleming foi direta sobre o impacto disso:

"Ao trazer um dos clubes mais influentes do mundo para esta iniciativa global, estamos fortalecendo um movimento que conecta a paixão pelo jogo à necessidade urgente de avançar nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e construir um mundo mais justo, inclusivo e sustentável para todos."

A estratégia do clube é transformar o pedido de reconhecimento da torcida em algo mais do que um troféu de marketing: a campanha para que a Nação Rubro-Negra seja reconhecida como a primeira "nação simbólico-cultural" do mundo pela ONU está em curso e é parte de uma construção institucional que passou pela assinatura de compromissos concretos com agendas globais. Não é retórica — é diplomacia cultural.

O Rio já disse sim, e o Brasil precisa responder

Antes mesmo do pedido ao IPHAN e da visita à ONU, o estado do Rio de Janeiro já havia dado seu veredito. A Lei 10.888/2025, sancionada pelo governador Cláudio Castro e publicada no Diário Oficial em 2025, declarou o Clube de Regatas do Flamengo patrimônio histórico, cultural e imaterial do Rio de Janeiro. A lei reconhece o clube não apenas pelo futebol, mas por sua atuação em modalidades como remo, natação, ginástica olímpica, basquete e judô.

O texto é revelador porque lista nomes que vão além do campo: Rebeca Andrade, campeã mundial e olímpica na ginástica artística, e Oscar Schmidt, maior pontuador da história do basquete mundial, são exemplos do alcance formador do clube. A sede da Gávea abriga estrutura administrativa, salas de troféus e áreas de treinamento para oito modalidades — uma infraestrutura que poucos clubes brasileiros conseguem sustentar. A nova lei não impede reformas ou benfeitorias no espaço, o que afasta o risco de o reconhecimento virar obstáculo ao desenvolvimento físico do clube.

Existe uma lógica de escalonamento aqui que merece atenção: reconhecimento estadual já conquistado, pedido federal em tramitação no IPHAN, certificação internacional pela ONU. Cada etapa reforça a seguinte. O que falta é a resposta do governo federal — e o IPHAN tem prazo regimental de até dois anos para concluir a instrução de um pedido de registro, o que significa que a decisão final pode vir ainda dentro desta década.

Como no compasso da Lapa numa quinta-feira à noite, onde o samba não precisa de certificado para existir mas ganha outra dimensão quando o Estado o reconhece oficialmente, a torcida do Flamengo já é fenômeno cultural consolidado. O que está em jogo agora é se as instituições brasileiras terão a capacidade de formalizar o que 45 milhões de pessoas já sabem na prática. O próximo passo concreto é a análise técnica do IPHAN, que envolve pesquisa de campo, consulta à comunidade e parecer dos conselheiros do órgão — processo que o clube acompanha de perto e para o qual já mobilizou sua estrutura de comunicação e memória histórica.

Zico deixou o salão da Assembleia Geral da ONU com o cachecol do Football for the Goals no pescoço e a publicação sobre a Nação Rubro-Negra nas mãos de Melissa Fleming. Do outro lado do Atlântico, na Gávea, o acervo histórico do clube esperava o retorno da delegação. Dois mundos, uma mesma causa.