Um meia que disputou a Libertadores pelo Grêmio e hoje usa a camisa 8 do Cuiabá sem um único gol marcado em competição continental — a trajetória de Pepê é, ao mesmo tempo, mais rica e mais silenciosa do que os números de superfície sugerem.

O número que define a temporada

Trinta e quatro jogos. É a marca que Cuiabá registra ao lado do nome de Pepê no Brasileirão Série A de 2026, e ela diz muito mais do que parece à primeira vista. João Pedro Vilardi Pinto, o Pepê, nascido em 6 de janeiro de 1998 no Rio de Janeiro, completou 28 anos nesta temporada e já acumula mais de 30 partidas pelo clube mato-grossense pelo segundo ciclo de sua carreira — o que, por si só, atesta uma regularidade física e tática que não se conquista por acidente.

Pepê (Cuiabá)
Pepê (Cuiabá)

Nessas 34 aparições em 2026, o meia de 177 cm e 75 kg contabiliza 3 gols e 2 assistências. Para um jogador que ocupa posição de construção e transição, o número de participações diretas em gol — 5 no total — é modesto, mas deve ser lido dentro de um contexto tático específico: o Cuiabá não é um clube que exige de seus meias produção ofensiva elevada a cada rodada. A consistência de presença, nesse cenário, vale tanto quanto o placar.

Como ele chegou aqui

A carreira de Pepê tem dois grandes capítulos antes do retorno ao Cuiabá. O primeiro foi no próprio clube mato-grossense, em 2022 — temporada em que disputou 30 partidas pelo Brasileirão Série A e somou ainda seis jogos entre Copa do Brasil e Copa Sul-Americana. Foi sua estreia de peso no futebol de elite nacional, e a nota média de 6,98 atribuída por plataformas especializadas naquele Série A indicava um jogador confiável, sem altos e baixos dramáticos.

O segundo capítulo foi o Grêmio, onde Pepê viveu — entre 2023 e 2024 — a experiência continental mais relevante de sua trajetória. Em 2023, foram 18 partidas pelo Brasileirão e mais quatro entre Gaúcho e Copa do Brasil. Em 2024, o volume cresceu: 33 jogos no Série A, além de cinco partidas pela Copa Libertadores, competição em que registrou uma assistência e média de 6,98 — seu melhor desempenho avaliativo registrado. Disputar Libertadores é uma marca que poucos meias brasileiros da geração de 1998 podem colocar no currículo, e Pepê colocou.

O retorno ao Cuiabá em 2026 fecha um ciclo com familiaridade — ele conhece o ambiente, o estilo de jogo e as demandas físicas do clube. Essa reintegração — diferente de uma chegada às cegas — costuma acelerar a adaptação e explicar parte da regularidade que ele apresenta nesta temporada.

O que o faz diferente dos pares

Para contextualizar Pepê entre os meias da Série A de 2026, é útil recorrer a uma régua histórica. Na década de 1990, o Brasileirão era dominado por meias de perfil técnico e volume de jogo alto — jogadores como Mauro Galvão e Dinho eram avaliados quase exclusivamente por assistências e presença ofensiva. A métrica de regularidade — quantos jogos o atleta sustentava em sequência sem lesão ou queda de rendimento — raramente entrava na conta pública. Hoje, clubes como o Cuiabá, que operam com elencos enxutos e margem de erro pequena para oscilações, valorizam exatamente isso: o meia que não some da escalação.

Pepê, com 34 jogos em 2026 e histórico de 30 ou mais partidas em três das últimas quatro temporadas, pertence a esse perfil de atleta — o que a comissão técnica não precisa substituir por lesão ou inconsistência. Isso o diferencia de meias com maior brilho pontual, mas presença irregular. A nota média de 6,83 no Série A de 2024 pelo Grêmio, em 33 jogos, reforça essa leitura: não é um jogador de grandes variações, mas de linha estável.

Outro ponto de distinção é a versatilidade competitiva. Ao longo da carreira, Pepê acumulou minutos em Série A, Copa do Brasil, Libertadores e Sudamericana — quatro competições de natureza e ritmo distintos. Poucos meias que hoje atuam em clubes de orçamento médio no Brasileirão têm esse portfólio de experiências acumuladas antes dos 28 anos.

Os limites a vencer

A honestidade analítica exige nomear o que ainda falta. Três gols e duas assistências em 34 jogos — a temporada atual de Pepê — é um retorno ofensivo abaixo do que se espera de um meia que ocupa posição central no sistema. Para efeito de comparação, meias de perfil similar que atuam em clubes de mesma faixa competitiva na Série A costumam cruzar a barreira de cinco participações diretas em gol antes da metade da temporada.

Há também a questão da visibilidade. Pepê constrói uma carreira sólida — mas em silêncio. Suas temporadas no Grêmio não geraram o tipo de exposição midiática que atrai sondagens de clubes maiores ou da seleção. Em parte, isso é consequência do perfil tático: meias de contenção e transição raramente dominam manchetes. Em parte, é uma limitação real de produção em momentos decisivos — os dados disponíveis não registram nenhuma sequência de jogos em que ele tenha sido determinante de forma consecutiva.

Nos próximos 12 meses, Pepê — que ainda tem 28 anos e, portanto, está no pico fisiológico de um meia moderno — precisa responder a uma pergunta que sua carreira ainda não fechou: ele consegue ser, em algum momento da temporada, o jogador mais importante do Cuiabá em campo? A regularidade está provada. O protagonismo eventual, não. Essa é a fronteira que separa uma carreira digna de uma carreira memorável — e ele ainda tem tempo, e dados, para cruzá-la.