É uma faca suíça afiada num coldre vazio.

AJ Dybantsa, 19 anos, 2,06 metros, calouro de BYU — esse é o retrato que os scouts da NBA carregam na cabeça quando pensam na primeira escolha do Draft 2026. O coldre vazio é o Washington Wizards, uma franquia sem temporada acima de .500 desde 2017-18, que perdeu 26 dos últimos 27 jogos da temporada regular de propósito, para maximizar sua posição na loteria. No domingo (10/05), o plano funcionou: os Wizards saíram com o pick número 1 pela primeira vez desde 2010.

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Como Washington chegou até aqui sem esconder a intenção

A reconstrução dos Wizards atravessou múltiplos presidentes de operações e técnicos. Nenhuma estratégia colou. A virada de chave mais recente veio na trade deadline da temporada 2025-26, quando a franquia adquiriu Trae Young e Anthony Davis — movimento que misturou presente e futuro num elenco sem identidade clara. A lógica era simples: tentar competir com os veteranos enquanto ainda acumulava chances na loteria. Com o pior ataque da liga na temporada, os Wizards conseguiram o prêmio máximo.

O Utah Jazz subiu para o pick 2, sua melhor posição desde 2011. O Memphis Grizzlies avançou três posições e ficou com o 3. O Chicago Bulls, já sob nova diretoria, pulou do 9 para o 4. E o Indiana Pacers perdeu sua escolha protegida para o LA Clippers — resultado da troca de Ivica Zubac em fevereiro — e viu a franquia de Los Angeles entrar no top 5.

O que Dybantsa fez em BYU para merecer o topo da classe

Números primeiro: 25,5 pontos por jogo, 6,8 rebotes, 3,7 assistências e 51% de aproveitamento no campo. Dybantsa liderou a Division I em pontuação na temporada 2025-26 e quebrou o recorde de calouro de BYU de Danny Ainge — que durava 48 anos — com uma partida de 43 pontos. No torneio Big 12, marcou 40 pontos contra o Kansas State em 10 de março. No March Madness, encerrou com 35 pontos e 10 rebotes em um único jogo.

Nascido em Brockton, Massachusetts, ele venceu o Julius Erving Award — dado ao melhor ala da NCAA — e foi eleito Calouro do Ano da Big 12. O índice de pontos sem assistência (680 ao longo da temporada, o maior da liga universitária segundo o CBB Analytics) mostra um jogador que cria para si mesmo com consistência rara para a idade.

Seu jogo lembra uma maré que sobe devagar e engole a praia sem avisar: ele não explode num flash isolado, mas vai acumulando pressão em cada posse, no ataque ao aro, no meio-alcance e nas finalizações pelo alto com o físico de 2,06 metros. A porcentagem de 33,1% no arremesso de três pontos indica a principal lacuna — volume ainda inconsistente de fora do arco — mas o potencial de evolução, segundo scouts ouvidos pela imprensa americana, é considerado alto dado o padrão de leitura de jogo que ele já demonstra.

"Ele é o nome que recebo de forma mais consistente como número 1 em toda a liga", escreveu o repórter do New York Times que consultou scouts anonimamente antes da loteria.

Dybantsa ao lado de Trae Young e Anthony Davis muda o que em Washington

A combinação é incomum. Trae Young é um dos criadores de jogo mais prolíficos da NBA, com assistências que atraem defesas e abrem espaço. Anthony Davis, quando saudável, domina a pintura. Dybantsa — projetado como ala com potencial de point forward — se encaixaria como terceira opção ofensiva de alto teto, capaz de criar para si quando a defesa colapsa sobre Young ou Davis.

O perfil físico (2,06 m, estilo de jogo poderoso e físico) também abre possibilidade de uso em múltiplas posições defensivas — algo que os Wizards precisam estruturalmente. O time terminou a temporada com o segundo pior ataque da liga, o que reforça a urgência de injetar um criador de pontos confiável no elenco.

"Seu tamanho excelente e seu estilo físico e poderoso são vistos pelas equipes da NBA como marcas de um talento potencialmente de nível de franquia", publicou o TSN com base em avaliações de equipes da liga.

Os Wizards devem conduzir um processo amplo antes da decisão final. Os candidatos alternativos incluem Darryn Peterson (armador/ala do Kansas, projetado para o Jazz no 2), Cameron Boozer (Duke, 2,06 m, 113 kg, Naismith Player of the Year da NCAA) e Caleb Wilson, de North Carolina. Peterson e Boozer são os que mais dividem opiniões entre analistas — mas o consenso entre equipes ainda aponta Dybantsa no topo.

O Draft 2026 acontece em 23 de junho no Barclays Center, em Brooklyn. Antes disso, o NBA Draft Combine começa nesta semana em Chicago, com 73 jogadores convidados, e o prazo para universitários retirarem seus nomes do processo é 27 de maio, às 23h59 (horário de Nova York). Washington tem seis semanas para fechar o raciocínio — e tudo indica que a decisão já está tomada antes mesmo do primeiro treino individual. Dybantsa está pronto para o palco — falta o palco estar pronto para ele.