O maior vencedor de Roland Garros nos últimos dois anos não vai jogar Roland Garros. O paradoxo é real, e o saibro parisiense nunca soube tão bem o que é ficar órfão de seu protagonista. Carlos Alcaraz, bicampeão consecutivo em Paris — 2024 e 2025 —, confirmou na sexta-feira, 24 de maio, que não disputará o Grand Slam francês de 2026 por indicação médica, encerrando semanas de incerteza que começaram com uma lesão no punho direito sofrida durante a vitória sobre Otto Virtanen na primeira rodada do ATP 500 de Barcelona.

A lesão que parou o relógio em Barcelona

Alcaraz abandonou o torneio de Barcelona logo após os exames revelarem que o problema no punho era mais sério do que a avaliação inicial sugeria. Nos dias seguintes, o espanhol de 22 anos foi ao Prêmio Laureus — onde admitiu abertamente que não sabia quando voltaria a jogar — e aguardou os resultados de novos testes que ele mesmo descreveu, à emissora espanhola RTVE, como decisivos.

"Bem, veremos. No final, o próximo teste vai ser, digamos assim, crucial. Estamos tentando fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para que este teste corra bem."

O resultado desses exames, divulgado na sexta-feira, selou a decisão. Além de Roland Garros, Alcaraz também está fora do Masters 1.000 de Roma, privando o circuito de seu nome mais luminoso nas semanas que antecedem Paris. A comunicação oficial veio pelas redes sociais, em tom contido e melancólico.

"Após os resultados dos exames realizados hoje, decidimos que a conduta mais prudente é sermos cautelosos e não participarmos dos torneios de Roma e Roland Garros, enquanto avaliamos a situação para decidir quando retornaremos às quadras. É um momento difícil para mim, mas tenho certeza de que sairemos dessa mais fortes."

O precedente histórico que ninguém quer lembrar

A história do tênis masculino guarda episódios dolorosos de ausências em Grand Slams que pareciam impossíveis. Em 2016, Novak Djokovic abandonou Wimbledon no meio do torneio com uma lesão no cotovelo que se arrastaria por anos. Em 2021, Rafael Nadal abriu mão de Wimbledon e do US Open para proteger o corpo — e voltou para ganhar Roland Garros 2022 com autoridade desconcertante. A diferença é que Alcaraz sai antes mesmo de bater a primeira bola em Paris, o que torna a ruptura ainda mais abrupta.

Quando Nadal se ausentou em 2021, Djokovic e Medvedev dominaram a segunda metade da temporada. O vácuo criado por um campeão de saibro invariavelmente redistribui pontos, confiança e narrativa. O circuito de 2026 não é diferente — e a redistribuição, desta vez, beneficia um grupo de candidatos que raramente esteve tão equilibrado entre si.

Sinner, Zverev e a corrida por um trono vago

Jannik Sinner chega a Paris como número 1 do mundo e como o nome mais óbvio para preencher o espaço deixado por Alcaraz. O italiano de 24 anos tem consistência de metrônomo no saibro — semifinalista em Roland Garros 2023 e 2024 — e chega à edição de 2026 com a autoridade de quem já carrega dois Grand Slams no currículo (US Open 2024 e Australian Open 2025). A ausência do espanhol retira o único adversário que, nos últimos dois anos, conseguiu ler o jogo de Sinner com antecipação cirúrgica.

A lesão que parou o relógio em Barcelona Alcaraz abandona Paris bicampeão e o sa
A lesão que parou o relógio em Barcelona Alcaraz abandona Paris bicampeão e o sa

Alexander Zverev, por sua vez, carrega o peso de quem esteve a dois sets de ganhar Roland Garros em 2024 antes de ceder ao próprio Alcaraz na final. O alemão de 29 anos é o segundo cabeça de chave mais experiente no saibro e tem no Grand Slam francês a obsessão que ainda não virou troféu. Com Alcaraz fora, Zverev entra em Paris com a melhor janela da carreira para finalmente converter um match point que o destino insiste em adiar.

O levantamento feito pelo SportNavo sobre o desempenho dos principais candidatos nos últimos 12 meses em saibro coloca ainda Casper Ruud — finalista em Roland Garros em 2022 e 2023 — como nome a observar, especialmente se o chaveamento lhe poupar confrontos precoces com Sinner ou Zverev. O norueguês de 27 anos tem no saibro parisiense o único Grand Slam onde seu backhand cruzado cortou o ar com precisão milimétrica em momentos decisivos de forma consistente.

Paris sem Alcaraz ainda é Paris — mas muda de personagem

Roland Garros perdeu seu campeão em exercício, mas não perdeu o espetáculo. O torneio começa em 26 de maio e, pela primeira vez desde 2023, não terá o espanhol entre os candidatos ao título — o que significa que alguém levantará a taça Musketeers sem precisar passar pelo obstáculo mais difícil do saibro contemporâneo. Para Sinner, esse detalhe não é pequeno: nos dois últimos confrontos diretos em saibro, Alcaraz venceu em três sets com uma solidez que poucos conseguiram replicar.

A ausência de Alcaraz também abre espaço para que nomes da nova geração — como o brasileiro João Fonseca, que estreou em Roland Garros 2026 com vitória expressiva — avancem mais rodadas sem encontrar o espanhol num eventual cruzamento de chaveamento. O torneio começa com um protagonista a menos, mas com uma corrida pelo título que, paradoxalmente, nunca esteve tão aberta. Sinner é o favorito mais sólido, mas Zverev tem a história do lado — e em Paris, a história sempre cobra seu ingresso na hora menos esperada.